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Diferenciando Pitus e Camarões-Fantasma 2
 
Diferenciando Pitus e Camarões-Fantasma: Mitos e Verdades.

artigo publicado em 24/03/2014, última atualização em 21/03/2020



Diferenciando Pitus e Camarões-Fantasma: Mitos e Verdades (parte 2)

 



Adendo (2020): Chave auxiliar para diferenciar M. jelskii, M. amazonicum e M. acanthurus


Em 2017 foi publicado na revista Zootaxa a redescrição do Macrobrachim jelskii por Ana Luiza Vera-Silva e colaboradores. O material tipo desta espécie havia se perdido, então o artigo redescreve  esta espécie com novo espécime-tipo (link para o artigo pode ser visto aqui). O artigo é bastante rico, vale uma leitura. Mas além disso, interessante para nós, ele inclui uma chave de identificação com esta espécie e duas outras que frequentemente são confundidos com ela, o M. amazonicum e M. acanthurus. Que são exatamente as três espécies que mais geram confusão em nós, aquaristas.

Segue a tabela com as características usadas para a diferenciação, e algumas imagens ilustrativas:


 

 

M. jelskii

M. amazonicum

M. acanthurus

Rostro

Mesmo comprimento do escafocerito, ou discretamente maior

Ultrapassa o escafocerito e com curvatura proeminente para cima

Mesmo comprimento do escafocerito, ou discretamente maior

Porção do rostro sem dentes

Pouco evidente

Mais evidente

Pouco evidente

Razão entre carpo e quela

Carpo claramente mais longo

Carpo claramente mais longo

Carpo e quela do mesmo comprimento

Aumento distal do carpo

Abrupto

Gradual

Gradual

Espinho posterior interno do telso

Claramente ultrapassa o ápice mediano

Não atinge o ápice mediano em adultos

Claramente ultrapassa o ápice mediano

Ovos

Grandes, entre 10 e 69

Pequenos, 696 a 2193

Pequenos, 171 a 7043

 




Comparação entre os rostros das três espécies, ilustração de Walther Ishikawa. Note as diferenças de comprimento, a crista basal e a porção sem dentes. Adaptado de Vera-Silva et al. Zootaxa 2017.







Rostro do Macrobrachium amazonicum, longo e com o ápice curvado para cima, com crista basal evidente e longa porção sem dentes. Foto gentilmente cedida por Flávio Mendes.





Rostro do Macrobrachium jelskii, mais curto e com pequena porção sem dentes. Foto gentilmente cedida por Flávio Mendes.





Rostro do Macrobrachium acanthurus, mais curto e com pequena porção sem dentes. Foto gentilmente cedida por Flávio Mendes.






Comparação entre as quelas das três espécies, ilustração de Walther Ishikawa. Note as relações de comprimento entre carpo e quela, e o aumento distal do carpo. Adaptado de Vera-Silva et al. Zootaxa 2017. Fotos de Juan Felipe Zulian Santos, Walther Ishikawa e Rafael Senfft.






Comparação entre os telsos das três espécies, ilustração de Walther Ishikawa. Note a relação entre os comprimentos do seu espinho posterior interno e o ápice mediano. Adaptado de Vera-Silva et al. Zootaxa 2017.






Comparação entre os telsos das três espécies, fotos de Walther Ishikawa.





 


Comparação entre os telsos do Macrobrachium amazonicum (acima) e Macrobrachium jelskii (abaixo).
Fotos gentilmente cedidas por Flávio Mendes.









Comparação entre os ovos do Macrobrachium jelskii (acima), Macrobrachium acanthurus (centro) e Macrobrachium amazonicum (abaixo).
Fotos gentilmente cedidas por Flávio Mendes.










Macrobrachium lar?

 

            Em muitas fontes da internet em língua portuguesa se encontra a informação de que os “camarões fantasma” são da espécie Macrobrachium lar. Certamente é uma informação equivocada, já que esta espécie é asiática, e não existem registros de introdução ou coleta desta espécie exótica no território nacional, apesar de ser um camarão bastante utilizado em carcinicultura nos países de origem. Além disto, esta espécie atinge grandes dimensões, é agressiva e têm pinças grandes, encaixando-se muito mais no perfil de um “pitu” do que de um “fantasma”.

            A origem deste erro é obscura, aparentemente foi uma informação errada postada numa página alemã (parece ter sido uma confusão com o M. lanchesteri, uma espécie bem comum de “fantasma” na aquariofilia européia), que foi copiada por um fórum português, e dali se disseminou na internet brasileira. Quer dizer, mais um erro que foi sucessivamente sendo copiado, sem ninguém checar a veracidade dos dados.



Macrobrachium lar, fotografado emerso próximo a um riacho em Okinawa, Japão. Foto de Shawn Miller. Veja sua galeria do Flickr aqui.




Macrobrachium lar, exemplar de carcinicultura, criado em Vanuatu. Foto cortesia de SPC (Secretariat of the Pacific Community). Visite sua página aqui.
 


Macrobrachium lanchesteri, uma espécie comum de "fantasma" na Europa. Foto de Chris Lukhaup.



Palaemonetes?

 

Muitas fontes de internet ainda se referem aos Camarões-fantasma brasileiros como “Palaemonetes”, por serem traduções de textos em inglês, já que a espécie de “Fantasma” no mercado de aquarismo norte-americano é o Palaemonetes paludosus (Gibbes, 1850) (atualmente Palaemon). Na realidade, as espécies mais frequentemente encontradas de “Fantasmas” no Brasil pertencem ao gênero Macrobrachium, como já vimos anteriormente.

            Também já foi mencionado que atualmente o gênero Palaemonetes não é mais considerado válido. Análises moleculares recentes (2013) invalidaram este gênero, considerando-o um sinônimo menor de Palaemon. Desta forma, o gênero Palaemon no Brasil passou a comportar seis espécies, englobando as quatro previamente classificadas como Palaemonetes.



Palaemon paludosus (antigo Palaemonetes paludosus), a espécie mais comum de "fantasma" nos EUA. Foto de Morbid (PlanetInverts).


 


“Camarões-fantasma” são mesmo pacíficos?

 

            É importante lembrar que todos os “fantasmas” são palaemonídeos. Ou seja, são diferente dos atiídeos (Atya, Potimirim), que se alimentam de algas, ou são filtradores de detritos. Palaemonídeos são onívoros, e parte da sua dieta é carnívora, consiste em animais caçados. Ou seja, é mais correto imaginá-los como pequenos parentes dos grandes “pitus” que se especializaram em um modo de vida que não é primariamente de caça. Mas não são animais herbívoros.

            Desta forma, é importante deixar claro que é seguro a manutenção de “fantasmas” com peixes, independente da sua dimensão. Porém, não é possível garantir a segurança de pequenos invertebrados bentônicos, especialmente se forem muito menores do que os camarões.

Nesta categoria se encaixam os pequenos caramujos ornamentais (como o “Red Ramshorn”), e os camarões-anões (“Red Crystal”, “Red Cherry”, etc). Muitas vezes é possível uma convivência pacífica entre estes animais, mas filhotes são muitas vezes predados, especialmente se for um espécime mais avantajado de “fantasma”.

 

 

 

Bibliografia:

  • Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
  • Souza JSI. Enciclopédia Agrícola brasileira: C-D. São Paulo: EdUSP, 1996.
  • D’Ávila CRG. et al. Revisão taxonômica dos camarões de água doce (CRUSTACEA: DECAPODA: PALAEMONIDAE, SERGESTIDAE) da Amazônia Peruana. 80f. Dissertação (Mestrado). MCT/INPA, Manaus, 1998.
  • Sampaio SR. et al. Camarões de águas continentais (Crustacea, Caridea) da Bacia do Atlântico oriental paranaense, com chave de identificação tabular. Acta Biol. Par., Curitiba, 38 (1-2): 11-34. 2009.
  • Melo SG. et al. Desenvolvimento larval de Macrobrachium birai Lobão, Melo & Fernandes (Crustacea, Decapoda, Caridea, Palaemonidae) em laboratório. Revista Brasileira de Zoologia 22 (1): 131–152, março 2005.
  • Maciel CR, Valenti WC. 2009. Biology, fisheries and aquaculture of the Amazon River Prawn Macrobrachium amazonicum: a review. Nauplius 17(2):61-79.
  • da Silva RR. et al. Fecundity and fertility of Macrobrachium amazonicum (Crustacea, Palaemonidae). Braz. J. Biol. vol.64 no.3a São Carlos Aug. 2004.
  • Wowor D. Ng PKL. The giant freshwater prawns of the Macrobrachium rosenbergii species group (Crustacea: Decapoda: Caridea: Palaemonidae). Raffles Bulletin of Zoology 55 (2): 321-336. 2007.
  • Moraes-Riodades PMC, Valenti WC. 2004. Morphotypes in male Amazon River Prawns, Macrobrachium amazonicum. Aquaculture, 236(1-4):297-307.
  • Magalhães C, Bueno SLS. et al. Exotic species of freshwater decapod crustaceans in the state of São Paulo, Brazil: records and possible causes of their introduction. Biodiversity and Conservation (2005) 14: 1929–1945.
  • http://www.sekaiscaping.com
  • http://www.aquahobby.com
  • http://www.fao.org
  • http://www.caunesp.unesp.br
  • http://www.dnocs.gov.br
  • Vera-Silva AL, Carvalho FL, Mantelatto FL. Redescription of the freshwater shrimp Macrobrachium jelskii (Miers, 1877) (Caridea, Palaemonidae). Zootaxa. 2017 May 19;4269(1):44-60.


Agradecimentos aos colegas Alexander Mee-Woong Kim (EUA), Ricardo Hellmann, Melo Salazar (México), Rony Suzuki, Solange Nalenvajko, Fernando Barletta, Flávio Mendes, Juan Felipe Zulian Santos, Rafael SenfftMario Gervasi (Argentina), Mustafa Ucozler (EUA), Romina Arakaki (Argentina) e Shawn Miller (Japão), e também ao CAUNESP (Centro de Aquicultura da Universidade Estadual Paulista) e SPC (Secretariat of the Pacific Community) pela cessão das fotos para o artigo.




 As fotografias de Walther Ishikawa, Felipe Aoki Gonçalves e Chantal Wagner estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
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