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"Macrobrachium carcinus"  
Artigo publicado em 10/01/2012, última edição em 24/02/2017  

 

Nome em português: Pitú, Lagosta de água-doce, Lagostinha do Ribeira, Lagosta de São Fidelis, Potipema.
Nome em inglês: Bigclaw River Shrimp, Painted River Prawn

Nome científico: Macrobrachium carcinus (Linnaeus, 1758)

Origem: Américas, costal atlântico.
Tamanho: machos adultos chegam a 30 cm
Temperatura da água: 24-28° C
pH: 7.0-8.5

Dureza: média a dura
Reprodução
: primitiva, necessita de água salobra para as larvas
Comportamento: agressivo
Dificuldade: fácil

 

 

Importante!!

 

            O Pitú verdadeiro era uma espécie listada como “vulnerável” pela versão antiga do Livro Vermelho do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e IBAMA (2004). Em Dezembro de 2014 o MMA publicou uma nova Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, nesta nova lista, o Macrobrachium carcinus não consta como uma espécie ameaçada, mas é mencionada na categoria "dados deficientes" (categoria DD pelo IUCN).

           

            Desta forma, a rigor, sua coleta e manutenção em cativeiro passam a ser legalmente permitidas, mas sugerimos fortemente que não sejam feitas, ao menos por ora, dada que a espécie não mostra informações suficientes para a avaliação adequada do seu grau de ameaça.



 

Apresentação

Popularmente, todo camarão agressivo de grandes garras é chamado informalmente de “Pitú”. Porém, a rigor, a única espécie que deveria receber esta denominação é esta, o Macrobrachium carcinus.

            É uma das espécies de camarão de água doce brasileiras mais estudadas devido à sua importância econômica, em várias regiões do país esse animal é bastante explorado pelas populações ribeirinhas, e também existem projetos para sua criação em cativeiro. Sua carne é considerada extremamente saborosa, com sabor e textura superiores às espécies marinhas, atingindo um elevado valor no mercado consumidor.

            Desta forma, embora legalmente proibida, a pesca desta espécie é realizada de forma artesanal em diversas regiões do país, em especial das regiões Norte e Nordeste, fazendo parte da culinária tradicional destas localidades. Muitas vezes alguns exemplares desta espécie são coletados e comercializados em meio a outras espécies de camarões costeiros (como o Macrobrachium acanthurus), e vendidos em lojas de aquarismo, ou como iscas vivas para pesca.

O “Pitú” é citado na “Carta a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil”, documento no qual Pero Vaz de Caminha (escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral), em 1 de Maio de 1500 registrou as suas impressões sobre a terra que posteriormente viria a ser chamada de Brasil: “Enquanto lá estávamos foram alguns (índios) buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho.”


            Etimologia: Macrobrachium vem do grego makros (longo, grande) e brakhion (braço); carcinus vem do grego karkinos (caranguejo), talvez pelas suas impressionantes garras.

 







Macrobrachium carcinus, fotografado em Rivière Grosse Corde, em Capesterre Belle-Eau, Guadalupe. Fotos de Claudine e Pierre Guezennec.




Macrobrachium carcinus, fêmea juvenil fotografada em Iguape, SP. Foto de Fábio Rosa Sussel.




Origem

            Este camarão é encontrado na porção atlântica do continente americano, desde a Flórida (EUA) até o Rio Grande do Sul (Brasil), em rios que se conectam com o Oceano Atlântico.

            É um típico representante costal dos palaemonídeos, devido ao padrão reprodutivo, não é coletado em locais muito distantes do litoral, ou em ambientes sem conexão com o mar. São animais que vivem tanto em água doce quanto salobra, porém são mais comuns em cursos mais altos dos rios, relativamente mais distantes do litoral do que outros camarões anfídromos. Preferem também ambientes com menor profundidade, menor correnteza e águas mais turvas.


 



Macrobrachium carcinus, macho adulto. Imagem gentilmente cedida pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP – Laboratório de Estudo dos Eglídeos da USP).




Macrobrachium carcinus, foto gentilmente cedida por Alexander Mee-Woong Kim.

 

Close do rostro de um Macrobrachium carcinus, foto de Alexander Mee-Woong Kim.

 

Macrobrachium carcinus, foto gentilmente cedida por Alexander Mee-Woong Kim.

 

Macrobrachium carcinus juvenil, ainda com as faixas bem demarcadas, foto de Alexander Mee-Woong Kim.

 


Macrobrachium carcinus, foto gentilmente cedida por Alexander Mee-Woong Kim.




Aparência

 

É o maior camarão de água doce nativo do Brasil, machos atingindo 30 cm, e fêmeas 18 cm. Possuem um aspecto bem semelhante a outros Macrobrachium de grande porte, com corpo liso, e grandes garras.

Camarões menores são transparentes, mas com o crescimento desenvolvem uma cor mais escura, quase negra, e uma bela padronagem de faixas longitudinais claras, amarelas e alaranjadas.

Adultos apresentam no corpo faixas longitudinais com uma coloração que varia do marrom ao preto azulado, os pereópodos verde-escuro ou azul-escuro e os pleópodos manchados de amarelo. Garras são de cor bastante variável, verde escura a azulado ou marrom escuro, com tubérculos negros, articulações alaranjadas. Urópodos externos escuros, internos claros, telso verde escuro. Abdômen com duas faixas largas laterais de cor acastanhada.

Um achado bem característico desta espécie é a proporção entre os segmentos do quelípodo, com o carpo (segmento médio, “cotovelo”) bem mais curto do que o mero. É uma das únicas espécies brasileiras com este padrão, facilitando sua identificação. Pode ser confundido com o M. heterochirus, mas sua distinção é simples baseando-se no comprimento e aspecto da dentição do rostro.

Rostro: Curto, ligeiramente inclinado para cima na extremidade, margem superior com 10~14 dentes (mais de 16 em juvenis) distribuídos uniformemente, 4~6 atrás da órbita. Margem inferior com 3~4 dentes.

Quelípodos dos machos: Grandes e simétricos, com finos espinhos. Dedos longos, um pouco mais curtos do que a palma, com distinto hiato proximal. Carpo curto, em especial em animais adultos, tendo metade do comprimento da palma.

 


Parâmetros de Água

 

É uma espécie robusta, bastante tolerante quanto às condições da água, mas se desenvolve melhor entre 24 e 28° C, num pH alcalino, de 7,0 a 8,5. Pode ser criado tanto em água doce quanto salobra.

 


Dimorfismo Sexual

 

Bem demarcado, machos são bem maiores e mais robustos, com garras mais desenvolvidas. As fêmeas possuem pleuras abdominais arqueadas e alongadas, formando uma câmara de incubação. Também podem ser diferenciados pela análise dos órgãos sexuais, mas isto é bem difícil em animais vivos.




Macrobrachium carcinus, juvenil, já mostrando as faixas longitudinais claras. Foto gentilmente cedida por Jovi Marcos.

 


Macrobrachium carcinus, o mesmo animal mais crescido. Foto de Jovi Marcos.




Reprodução

O Pitú é uma espécie com reprodução primitiva, gerando ovos pequenos e em grande número, dos quais nascem formas planctônicas de nado livre. As formas larvares dependem de água salobra para seu adequado desenvolvimento, o que limita bastante sua reprodução em cativeiro. O ajuste da salinidade é difícil, assim como a alimentação nas primeiras fases larvares.

Possui alta taxa de fertilidade e fecundidade, uma fêmea em boas condições produz cerca de 100 mil ovos, este valor podendo chegar a 250 mil. É o camarão dulcícola nativo com maior fecundidade média, superior inclusive à da espécie exótica “Camarão da Malásia”, introduzida no país para carcinicultura. Porém, sua criação em cativeiro mostra várias outras limitações, como a sua extrema agressividade, necessitando cultivos de baixa densidade, além do longo tempo de eclosão dos ovos, e também do desenvolvimento larvar.

O período reprodutivo é no meio do ano, nos meses de Junho e Julho. A fêmea passa por uma muda pré-acasalamento, e logo após o macho deposita seu espermatóforo. A fêmea libera os ovos, que são fertilizados e se alojam nos pleópodes. Com os ovos fecundados, as fêmeas migram em direção ao litoral. Os ovos são pequenos, medindo 0,5 mm. Sua coloração se modifica ao longo do desenvolvimento, inicialmente têm uma cor vermelho coral, passam a ter uma cor amarelo-suave, desenvolvendo uma coloração castanho-clara pouco antes da eclosão. Após uma incubação de duas a quatro semanas, as larvas são liberadas, levadas pela correnteza até os estuários, onde encontram um ambiente favorável para seu desenvolvimento.

As larvas nascem como zoea de vida livre, com cerca de 2 mm, passando por cerca de doze estágios larvares em água salobra, por um período bastante longo, de cerca de um a dois meses. Na primeira fase larvar não se alimentam, consumindo nutrientes de seu saco vitelínico. Passam então por uma fase carnívora, se alimentando de zooplancton, que é onde reside a dificuldade na criação em aquários. Em culturas comerciais, nesta fase são alimentadas com náuplios de Artemia. Ao contrário de outras espécies, aceita mal alimentos inertes, mesmo em fases larvares mais adiantadas. Larvas desta espécie apresentam também um comportamento canibal, pouco visto em outros Macrobrachium, em especial entre15 e 25 dias do desenvolvimento. A mortalidade na fase larval é bastante alta.

Estudos mostram que a salinidade ideal é de 14 a 16%o. Após se transformarem em pós-larvas, começam a migrar rio acima, lá chegam já adultas, e sexualmente maduras. A maturação se dá por volta do nono mês.

 


Macrobrachium carcinus, juvenil, ainda com corpo translúcido. Foto gentilmente cedida por Luis Toussaint.

 


Macrobrachium carcinus, juvenil. Foto de Luis Toussaint.




Comportamento

 

Bastante agressivo, é um dos mais agressivos entre os Macrobrachium, em especial os camarões maiores. Não pode ser mantido com peixes ou outros animais. Predam os peixes, principalmente durante a noite, quando estes dormem. Por outro lado, tornam-se vulneráveis após a ecdise, enquanto seu exoesqueleto ainda não está totalmente solidificado.

Tem também um comportamento canibal, populações adultas mantidas juntas por muito tempo se devoram progressivamente, ou indivíduos dominantes se alimentando dos menores, ou animais (mesmo grandes) sendo devorados após a muda. Desta forma, idealmente recomenda-se a manutenção de um único animal adulto em um tanque dedicado.

Hábitos noturnos, ficando entocados durante o dia.

 


Alimentação

 

Não são nada exigentes quanto à alimentação, comendo desde algas, animais mortos a ração dos peixes. Caçam ativamente outros animais, inclusive outros camarões, e destroem também plantas ornamentais. A falta de proteína animal na dieta acentua seu comportamento agressivo.




 

Pitús em um mercado, foto de Júlio Alfredo Moreira Sousa Junior.



Grande Pitú pescado no Rio Mundaú, em Santana do Mundaú, AL. Foto gentilmente cedida pelo Portal Mundaú Notícias. Foto acima em maior resolução  


 

 

 

Bibliografia:

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  • http://www.fao.org
  • http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/fauna-brasileira/
  • Pileggi LG (2009) Sistemática filogenética dos camarões do gênera Macrobrachium Bate, 1868 do Brasil: análises filogenéticas e moleculares. Tese, Doutor em Ciências, área: Biologia Comparada. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, Brasil.

 

 

 

Agradecimentos especiais aos colegas aquaristas Jovi Marcos, Luis Toussaint (México), e Alexander Mee-Woong Kim (EUA), ao zootecnista Fábio Rosa Sussel, ao amigo Júlio Alfredo Moreira Sousa Junior, a Claudine e Pierre Guezennec (Guadalupe), ao Portal Mundaú Notícias e também ao Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP – Laboratório de Estudo dos Eglídeos da USP) pela cessão das fotos para o artigo.

 
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