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"Aegla perobae"  
Égla – "Aegla perobae"  



Égla – Aegla perobae

 

Nome em português: Égla, Caranguejo de Rio, Tatuí de água doce
Nome em inglês: -
Nome científico: Aegla perobae Hebling & Rodrigues, 1977

Origem: Somente no município de São Pedro, SP, Brasil

Tamanho: carapaça com comprimento de até 2,5 cm
Temperatura: 17-23° C
pH: sem dados

Dureza: sem dados
Reprodução
: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: pacífico


 

 

Importante!!

 

            O Aegla perobae é uma espécie criticamente em perigo de extinção, apesar de não constar no Livro Vermelho do MMA/IBAMA. Seu risco é maior até do que de algumas espécies desta lista, como o Macrobrachium carcinus e os Atya. Estima-se a população total desta espécie de Égla em somente 1300 indivíduos, distribuídos em uma área geográfica de somente 40 km2, felizmente dentro de uma APA.

            Desta forma, esta espécie não pode e não deve ser coletada na natureza, ou mantida em cativeiro.

            A ficha desta espécie consta nesta seção não como um “caresheet” para a sua criação em aquários, mas sim como um repositório de informações sobre esta espécie, tão rara e preciosa.


 
 

Apresentação

 

Églas são crustáceos dulcícolas únicos, exercendo um grande fascínio tanto para zoólogos quanto para aquaristas amadores. Algumas espécies são criadas já há algum tempo nos nossos países vizinhos, relativamente populares como animais de aquário na Argentina, Chile e Uruguai. Alguns aquaristas do sul do Brasil também têm criado estes crustáceos com sucesso.

Entretanto, os Églas têm algumas peculiaridades ecológicas que os tornam bem vulneráveis a perturbações ambientais, especialmente à degradação por ação humana. Vivem principalmente em rios límpidos, em áreas bem oxigenadas mais próximas às suas nascentes. Habitam nichos relativamente estáveis, não possuindo mecanismos de adaptação para mudanças repentinas no seu habitat. Possui reprodução abreviada, os filhotes não passam por uma fase larvar natante, desta forma possuindo uma capacidade de dispersão ambiental bastante limitada.

Por tudo isto, os Églas têm um endemismo muito grande, com muitas espécies habitando áreas geográficas bastante restritas, algumas delas só sendo encontradas nas suas localidades-tipo.

É o caso do Aegla perobae, que só ocorre na região da Gruta da Peroba, em São Pedro, interior de SP. Estima-se a população total desta espécie de Égla em somente 1300 indivíduos (2009), distribuídos em uma área geográfica de somente 40 km2.

Ao contrário dos Aeglas cavernícolas, curiosamente esta espécie não consta na lista oficial de espécies ameaçadas do IBAMA/MMA (“Livro Vermelho”), mas preenche todos os critérios do IUCN para ser considerada uma espécie criticamente em perigo de extinção (CR, o estágio mais avançado de ameaça de extinção, representa que a população está enfrentando um risco extremamente alto de extinção na natureza).

Vale à pena lembrar que duas espécies chilenas de Églas já são consideradas extintas (Aegla concepcionensis e Aegla expansa), devido à destruição do seu habitat.

 

Apesar de serem muitas vezes referidos como “caranguejos”, na realidade estes crustáceos pertencem a outra infra-ordem, Anomura, a mesma dos caranguejos-ermitões. A família Aeglidae possui somente um gênero atual, Aegla, exclusivo de ambientes dulcícolas da região sul da América do Sul, com cerca de 70 espécies, 39 delas brasileiras. São os únicos anomuros encontrados em água doce, exceto por uma única espécie de ermitão dulcícola de uma ilha do pacífico.

Etimologia: Aegla vem da deusa mítica grega Aegle, uma das três Hespérides, donas do jardim dos pomos de ouro, situado no extremo ocidental do mundo. E perobae faz referência à Gruta da Peroba, local onde é encontrada esta espécie.

 

Origem

            Églas são crustáceos com distribuição restrita à porção sul da América do Sul, vivendo em ambientes dulcícolas das regiões temperadas do continente. O Aegla perobae tem uma distribuição geográfica muito restrita, sendo encontrada numa área de somente 40 km2, em riachos próximos à região da Gruta da Peroba, em São Pedro, interior de SP.


Distribuição geográfica de Aegla perobae. Imagem original Google Maps; dados de Bond-Buckup G. In: Melo GAS. 2003.


Aparência

 

Lembra bastante um caranguejo, com cefalotórax achatado, pernas dispostas lateralmente e primeiro par na forma de grandes garras (quelípodos). Entretanto, numa análise mais cuidadosa, destacam-se antenas finas e bastante longas, e abdômen relativamente desenvolvido, parecendo um lagostim com a cauda dobrada. O próprio cefalotórax é oval, novamente lembrando um lagostim achatado. Numa visão superior, só são visíveis três pares de pernas ambulatórias (ao invés dos quatro pares dos caranguejos), já que o último par é atrofiado, fica oculto sob o abdômen e não possui função locomotora. Coloração variada, geralmente de cor marrom-escura avermelhada.

A morfologia dos quelípodos é bastante importante para o diagnóstico da espécie nos Aeglas. As quelas do macho do A. perobae possuem crista palmar, com aspecto sub-retangular e escavada, e a margem interna da face ventral do ísquio com até três espinhos.

Seu rostro é curto e triangular, carenado em todo seu comprimento. O processo subrostral é bem desenvolvido.

Outros detalhes anatômicos úteis são o espinho ântero-lateral da carapaça não alcançando a base da córnea; e o quarto esternito torácico elevado com um tubérculo.

 

Parâmetros de Água

 

No seu ambiente natural vivem em riachos com temperatura de 17~23º C. Poucos dados existem sobre os demais parâmetros físico-químicos. Como outras Églas, demandam também alta taxa de oxigenação, e são bem sensíveis a compostos nitrogenados.

Dimorfismo Sexual

 

Bem demarcado, machos são maiores e possuem garras mais robustas e assimétricas (heteroquelia). Fêmeas possuem abdômen mais largo, e pleópodes mais desenvolvidos.


Reprodução

Mostram um padrão reprodutivo descontínuo e sazonal, reproduzem-se uma vez ao ano. Acasalam no verão, produzem ovos no outono/inverno, e o cuidado parental se dá na primavera. Produzem cerca de 90 ovos de cada vez, com um tempo de incubação bastante prolongado, de cerca de três meses. Fêmeas ovadas não se alimentam, permanecendo entocadas ou enterradas no substrato.

Produzem ovos de grandes dimensões (1 a 1,4 mm), apresentam desenvolvimento pós-embrionário direto, onde as fases larvais completam-se ainda dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos já com características semelhantes ao adulto. Églas apresentam o que se chama de Eclosão Assincrônica, ou seja, ovos de uma mesma ninhada eclodem de forma não-sincronizada. Por este motivo, as fêmeas carregam ovos em diferentes estágios de desenvolvimento, juntamente com juvenis.

Por um período de 8 a 12 dias, os jovens são protegidos e carregados pelas fêmeas sob o abdome, caracterizando cuidado parental. Nos primeiros dias, os filhotes ficam abrigados sob o abdômen da fêmea. Nos dias subseqüentes, eles caminham sobre o corpo da mãe, mas retornam rapidamente à região ventral a qualquer sinal de perigo. Diferente dos lagostins com cuidado parental, estes filhotes não têm nenhuma estrutura anatômica especializada para se fixarem no corpo da mãe.

Mesmo depois que abandonam o cuidado materno, Aeglas juvenis continuam tendo um comportamento gregário, formando aglomerações e escalando o corpo um do outro. Adultos também o fazem, mas em menor grau.

Fêmeas atingem a maturidade sexual funcional tardiamente, aos 7~13 meses, mais tarde do que os machos. Com longevidade de 2,5 a 3,0 anos, estes eglídeos geralmente só se reproduzem uma vez na vida, raramente duas.

Semelhante a alguns camarões, machos de A. perobae apresentam morfotipos distintos, com quatro sub-populações. Somente os indivíduos maiores, também com garras maiores e mais robustas, são responsáveis pela reprodução.

 

Comportamento

 

Hábitos noturnos, passando o dia entocado, saindo somente à noite para se alimentar. Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação completa da carapaça.

 

Alimentação

 

Embora onívora, esta espécie de Aegla é predominantemente carnívora. Sua presa principal é a larva de mosquitos quironomídeos.

 

 
 


Dois machos de Aegla perobae. Imagem gentilmente cedida pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).



Macho de Aegla perobae. A mancha na carapaça é uma marcação com tinta atóxica, feita para experimento de captura e liberação, a fim de se estimar o tamanho da população da espécie. Imagem cedida pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).



Ovos em estágio inicial de Aegla perobae.  Imagem cedida pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).



Aegla perobae marcada em ambiente natural. Imagem cedida pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).



Córrego da Gruta da Peroba. Imagem cedida pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).




Bibliografia:

 

Bond-Buckup G. Família Aeglidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.

 

Martin, J.W. & Abele, L.G. 1988. External morphology of the genus Aegla (Crustacea: Anomura: Aeglidae). Smithsonian Contributions to Zoology 453: 1-46.

 

Bond-Buckup G, Buckup L.1994. A família Aeglidae (Crustacea, Decapoda, Anomura). Arch. Zool., São Paulo, 2 (4): 159-346.

 

Tudge CC. Endemic and enigmatic: the reproductive biology of Aegla (Crustacea: Anomura: Aeglidae) with observations on sperm structure. Memoirs of Museum Victoria 60(1): 63–70 (2003).

 

Takano BF. Estrutura populacional, crescimento somático e alométrico, biologia reprodutiva e estimativa do tamanho populacional de Aegla perobae Hebling & Rodrigues, 1977 do município de São Pedro, estado de São Paulo. Dissertação (Mestre em Zoologia, área de Zoologia de Invertebrados. Curso de Pós-Graduação em Ciências Biológicas, Zoologia) – Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011.

 

Greco LSL, Viau V, Lavolpe M, Bond-Buckup G, Rodriguez EM. Juvenile Hatching and Maternal Care in Aegla uruguayana (Anomura, Aeglidae). Journal of Crustacean Biology Vol. 24, No. 2 (May, 2004), pp. 309-313.

 

Machado ABM, Drummond GM, Paglia AP. Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção - 1.ed. - Brasília, DF : MMA; Belo Horizonte, MG : Fundação Biodiversitas, 2008. 2v. (1420 p.): il. - (Biodiversidade; 19).





Ficha escrita por Walther Ishikawa


Agradecimentos especiais ao Prof. Dr. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP – Laboratório de Estudo dos Eglídeos da USP), pela cessão das fotos para o artigo. Agradecemos também a Bruno Fernandes Takano, cuja Tese de Mestrado (orientado pelo Prof. Sérgio) abordava esta espécie de Aegla. Boa parte das informações deste texto foram extraídas da sua tese, e as fotos também são de sua autoria.
 
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