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"Aegla jarai"  
Artigo publicado em 09/07/2013, última edição em 26/01/2018  



Égla – Aegla jarai

 

Nome em português: Égla, Caranguejo de Rio, Tatuí de água doce, Scrabei
Nome em inglês: -
Nome científico: Aegla jarai Bond-Buckup & Buckup, 1994

Origem: Brasil, centro-sul, sudeste e leste de SC e norte do RS

Tamanho: carapaça com comprimento de até 3,5 cm
Temperatura: 16-23° C
pH: neutro/alcalino

Dureza: média
Reprodução
: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: pacífico

 

Apresentação

 

Apesar de serem muitas vezes referidos como “caranguejos”, na realidade estes crustáceos pertencem a outra infra-ordem, Anomura, a mesma dos caranguejos-ermitões. A família Aeglidae possui somente um gênero atual, Aegla, exclusivo de ambientes dulcícolas da região sul da América do Sul, com aproximadamente 70 espécies, cerca de 40 delas brasileiras. São os únicos anomuros encontrados em água doce, exceto por uma única espécie de ermitão dulcícola de uma ilha do pacífico.

Não são muito populares no Brasil como animais de aquário, mas em outros países (como na Argentina) são criados há algum tempo com sucesso.

            Etimologia: Aegla vem da deusa mítica grega Aegle, uma das três Hespérides, donas do jardim dos pomos de ouro, situado no extremo ocidental do mundo. E jarai é uma homenagem ao zoólogo chileno Carlos Guillermo Jara Senn, conceituado pesquisador de Aeglas.

 

Origem

            Églas são crustáceos com distribuição restrita à porção sul da América do Sul, vivendo em ambientes dulcícolas das regiões temperadas do continente, o que explica sua baixa tolerância ao calor. Vivem em riachos límpidos de leito rochoso, geralmente montanhosos, alguns também em lagoas e represas.

            O Aegla jarai é uma espécie encontrada somente no Brasil, nas regiões centro-sul, sudeste e leste de SC e norte do RS, nas bacias dos rios Uruguai (rios Canoas e Pelotas) e do sistema Atlântico-Sul (rio Itajaí-Açu). Possui distribuição relativamente ampla, e alguns estudos moleculares recentes (2004) mostraram que esta espécie (juntamente com outras cinco espécies simpátricas) forma um grupo não-monofilético, sugerindo que se trate de um complexo de espécies, ao invés de somente uma espécie.


Distribuição geográfica de Aegla jarai. Imagem original Google Maps; dados de Bond-Buckup G. 2003.



Aegla jarai, fotografado na RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, Itaiópolis, SC. Imagem cedida por Germano Woehl Jr. (Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade).


Aparência

 

Lembra bastante um caranguejo, com cefalotórax achatado, pernas dispostas lateralmente e primeiro par na forma de grandes garras (quelípodos). Entretanto, numa análise mais cuidadosa, destacam-se antenas finas e bastante longas, e abdômen relativamente desenvolvido, parecendo um lagostim com a cauda dobrada. O próprio cefalotórax é oval, novamente lembrando um lagostim achatado. Numa visão superior, só são visíveis três pares de pernas ambulatórias (ao invés dos quatro pares dos caranguejos), já que o último par é atrofiado, fica oculto sob o abdômen e não possui função locomotora. Coloração variada, geralmente de cor marrom-escura avermelhada, mas alguns animais possuindo tons azulados.

A morfologia dos quelípodos é bastante importante para o diagnóstico da espécie nos Aeglas. As quelas do macho do A. jarai possuem crista palmar disciforme, fortemente escavada, e a margem interna da face ventral do ísquio possui um espinho cônico distal, e até três tubérculos.

Embora menos do que o A. spinosa (espécie simpátrica em algumas localidades), esta espécie possui muitos pequenos espinhos no corpo.

Seu rostro é muito longo nos adultos, tendendo a estiliforme, escavado nos dois terços proximais, carenado em todo seu comprimento. Outro detalhe anatômico útil é o espinho ântero-lateral da carapaça ultrapassando a metade da córnea. Ângulo látero-dorsal da segunda pleura inerme.

Suas pernas ambulatórias têm o seguinte aspecto (segundo pereiópodo): margem dorsal do mero com espinho, seguido de tubérculos; margem ventral do mero com tubérculos escamiformes.

 



Aegla jarai, fotografado nos platôs da Serra Geral catarinense, entre Urubici e Alfredo Wagner. Foto cortesia de Pedro Hauck. A primeira imagem do artigo também é de sua autoria.



Rio dos Bugres (SC), onde foi fotografado o animal acima. Foto cortesia de Pedro Hauck.



Parâmetros de Água

 

Todos os Aeglas habitam ambientes bastante estáveis, são bem sensíveis a variações e condições inadequadas de água. Um aspecto bastante importante é sua sensibilidade a altas temperaturas, uma causa comum de insucesso na sua manutenção em cativeiro. Somente como exemplo, o Aegla laevis sobrevive por 30 minutos a 28º C, e por 20 minutos a 31º C.

        Por viverem em água corrente e fria, demandam também alta taxa de oxigenação, sugerindo-se superdimensionar a filtragem e circulação de água no tanque. São mais comuns em águas neutras para alcalinas, dureza média. Como os demais crustáceos, são bem sensíveis a compostos nitrogenados, assim como a metais.









Aegla jarai
, fotografado em Lages, SC. Fotos cortesia de Leandro Spiller.



Dimorfismo Sexual

 

Bem demarcado, machos são maiores e possuem garras mais robustas e assimétricas (heteroquelia). Fêmeas possuem abdômen mais largo, e pleópodes mais desenvolvidos.




Aegla jarai
no aquário, enterrado no substrato. Foto de Rodrigo Schlingmann.




Reprodução


Possuem ciclos anuais de reprodução, acasalando no verão e produzindo ovos no outono/inverno.

Produzem poucos ovos de grandes dimensões, apresentam desenvolvimento pós-embrionário direto, onde as fases larvais completam-se ainda dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos já com características semelhantes ao adulto.

É provável que esta espécie tenha também cuidado parental, mas não existem ainda informações.

 




Aegla jarai, fotografado em um riacho em Lages, SC. Fotos cortesia de André Schlemper.


Comportamento

 

São animais totalmente aquáticos, devem ser criados em aquários, não necessitando de uma porção emersa.

Apesar das grandes garras, não são animais agressivos, podendo ser mantidos com peixes ou com outros Aeglas, independente do sexo. Comportamento gregário, em especial animais juvenis. Hábitos noturnos, passando o dia entocado, saindo à noite para se alimentar.

Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação completa da carapaça.

Sua longevidade é estimada em cerca de dois anos.


Aegla jarai no aquário, vídeo cortesia de André Schlemper.


Alimentação

 

Não é exigente quanto à alimentação, na natureza são onívoros, se alimentando de detritos e material orgânico em decomposição, vegetal e animal.

 

 

Bibliografia:

  • Bond-Buckup G. Família Aeglidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
  • Bond-Buckup G, Buckup L.1994. A família Aeglidae (Crustacea, Decapoda, Anomura). Arch. Zool., São Paulo, 2 (4): 159-346.
  • Tudge CC. Endemic and enigmatic: the reproductive biology of Aegla (Crustacea: Anomura: Aeglidae) with observations on sperm structure. Memoirs of Museum Victoria 60(1): 63–70 (2003).
  • Pérez-Losada M, Bond-Buckup G, Jara CG, Crandall KA. Molecular systematics and biogeography of the southern South american freshwater "crabs" Aegla (decapoda: Anomura: Aeglidae) using multiple heuristic tree search approaches. Syst Biol. 2004 Oct;53(5):767-80.
  • Santos S, Bond-Buckup G, Buckup L, Pérez-Losada M, Finley M, Crandall KA. Three new species of Aegla (Anomura) freshwater crabs from the upper Uruguay River hydrographic basin in Brazil. Journal of Crustacean Biology 2012 32 (4): 529–540.
  • Boos Jr H, Silva-Castiglioni D, Schacht K, Buckup L, Bond-Buckup G. Crescimento de Aegla jarai Bond-Buckup & Buckup (Crustacea, Anomura, Aeglidae). Rev. Bras. Zool. 2006  June; 23(2): 490-496.
  • Boos Junior H. Crustáceos Límnicos e Aspectos da Biologia de Aegla jarai Bond-Buckup & Buckup e Aegla sp. (Decapoda, Aeglidae) no Parque Nacional Municipal das Nascentes do Ribeirão Garcia, Blumenau, SC. Dissertação (Mestre em Biologia Animal, área de concentração: Crustáceos. Curso de Pós-Graduação em Biologia Animal) – Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2003.
  • Santos S, Bond-Buckup G, Gonçalves AS, Bartholomei-Santos ML, Buckup L, Jara CG. Diversity and conservation status of Aegla spp. (Anomura, Aeglidae): an update. Nauplius. 2017; 25: e2017011.


Agradecimentos especiais aos aquaristas André Schlemper e Rodrigo Schlingmann, ao geógrafo e montanhista Pedro Hauck, ao fotógrafo Leandro Spiller e ao zoólogo Germano Woehl Jr. ( Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade ) pela cessão das fotos para o artigo. Pedro mantém um blog sobre suas atividades de escalada e montanhismo, que pode ser acessada  aqui .
 
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