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"Aegla grisella"  
Artigo publicado em 03/09/2016, última edição em 26/01/2018  



Égla – Aegla grisella

 

Nome em português: Égla, Caranguejo de Rio, Tatuí de água doce, Scrabei
Nome em inglês: -
Nome científico: Aegla grisella Bond-Buckup & Buckup, 1994

Origem: Brasil, centro e nordeste do RS

Tamanho: carapaça com comprimento de até 3,8 cm
Temperatura: 17-22° C
pH: 7.0~8.0

Dureza: 30~45mg CaCO3/l
Reprodução
: especializada, todo ciclo de vida em água doce

Comportamento: pacífico


 

 

Importante!!

 

            O Aegla grisella é uma espécie ameaçada, listada como “vulnerável” (VU) na relação das espécies em risco de extinção, recém revisada e publicado pelo Ministério do Meio Ambiente e IBAMA (2014) - B1ab(iii,iv). Desta forma, sua coleta e manutenção em cativeiro são proibidas por lei.


 
 

Apresentação

 

Apesar de serem muitas vezes referidos como “caranguejos”, na realidade estes crustáceos pertencem a outra infra-ordem, Anomura, a mesma dos caranguejos-ermitões. A família Aeglidae possui somente um gênero atual, Aegla, exclusivo de ambientes dulcícolas da região sul da América do Sul, com cerca de 80 espécies, 47 delas brasileiras. São os únicos anomuros encontrados em água doce, exceto por uma única espécie de ermitão dulcícola de uma ilha do pacífico.

Não são muito populares no Brasil como animais de aquário, mas em outros países (como na Argentina) são criados há algum tempo com sucesso.

      Etimologia: Aegla vem da deusa mítica grega Aegle, uma das três Hespérides, donas do jardim dos pomos de ouro, situado no extremo ocidental do mundo. E grisella tem origem no latim griseus = mais claro que cinza pérola, cor característica da espécie quando em seu habitat natural.

 






Aegla grisella, fotografadas em Eldorado do Sul, RS. Fotos gentilmente cedidas por Amanda Perin Marcon.


 

Origem

            Églas são crustáceos com distribuição restrita à porção sul da América do Sul, vivendo em ambientes dulcícolas das regiões temperadas do continente, o que explica sua baixa tolerância ao calor. Vivem em riachos límpidos de leito rochoso, geralmente montanhosos, alguns também em lagoas e represas.

            O Aegla grisella é uma espécie descoberta há relativamente pouco tempo (1994), encontrada somente no Brasil, nas regiões central e nordeste do estado do Rio Grande do Sul.

          Trabalhos recentes usando biologia molecular mostram origem parafilética desta espécie, sugerindo que se trate de mais de uma espécie.




Distribuição geográfica de Aegla grisella. Imagem original Google Maps; dados de Bond-Buckup G. 2003 e Bond-Buckup G, et al. 1994.

 

Aparência

 

Lembra bastante um caranguejo, com cefalotórax achatado, pernas dispostas lateralmente e primeiro par na forma de grandes garras (quelípodos). Entretanto, numa análise mais cuidadosa, destacam-se antenas finas e bastante longas, e abdômen relativamente desenvolvido, parecendo um lagostim com a cauda dobrada. O próprio cefalotórax é oval, novamente lembrando um lagostim achatado. Numa visão superior, só são visíveis três pares de pernas ambulatórias (ao invés dos quatro pares dos caranguejos), já que o último par é atrofiado, fica oculto sob o abdômen e não possui função locomotora. Coloração variada, geralmente de cor marrom-escura avermelhada, mas alguns animais possuindo tons azulados.

A morfologia dos quelípodos é bastante importante para o diagnóstico da espécie nos Aeglas. As quelas do macho do A. grisella possuem crista palmar retangular; margem externa proximal do dedo móvel sem lobo; margem interna da face ventral do ísquio possui dois espinhos cônicos, um distal e outro proximal, e entre eles tubérculos. A margem interna da face dorsal do carpo possui dois espinhos agudos, o distal  mais robusto, longo e fino, extremidade voltada para a frente, sendo uma característica típica da espécie.

Seu rostro é longo, deflexo, escavado, elevado nos dois terços proximais, carenado em todo o seu comprimento. Outro detalhe anatômico útil é o espinho ântero-lateral da carapaça alcançando a metade da córnea. Ângulo látero-dorsal da segunda pleura inerme.

Pode ser confundido com o Aegla spinipalma, que ocorre na mesma região. Características da quela e a ausência de espinho na segunda pleura abdominal auxiliam a diferenciação.


 

 



Aegla grisella, fotografadas em Eldorado do Sul, RS. Fotos gentilmente cedidas por Amanda Perin Marcon.



Parâmetros de Água

 

Habitam ambientes bastante estáveis, são bem sensíveis a variações e condições inadequadas de água. Um aspecto bastante importante é sua sensibilidade a altas temperaturas, uma causa comum de insucesso na sua manutenção em cativeiro. Somente como exemplo, o Aegla laevis sobrevive por 30 minutos a 28º C, e por 20 minutos a 31º C.

Por viverem em água corrente e fria, demandam também alta taxa de oxigenação, sugerindo-se superdimensionar a filtragem e circulação de água no tanque. São mais comuns em águas neutras para alcalinas, dureza média. Como os demais crustáceos, são bem sensíveis a compostos nitrogenados, assim como a metais.

 

Dimorfismo Sexual

 

Bem demarcado, machos são maiores e possuem garras mais robustas e assimétricas (heteroquelia). Fêmeas possuem abdômen mais largo, e pleópodes mais desenvolvidos.

 




Aegla grisella,
fotografada em Aberta dos Morros, Porto Alegre, RS. Fotos gentilmente cedidas por Rodrigo Spezia.




Reprodução

            Não há dados reprodutivos específcios, provavelmente possuem ciclos anuais de reprodução, acasalando no verão e com um pico reprodutivo durante os meses de temperatura mais fria.

             Como os demais Aeglas, produzem poucos ovos de grandes dimensões, apresentam desenvolvimento pós-embrionário direto, onde as fases larvais completam-se ainda dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos já com características semelhantes ao adulto. É quase certo que esta espécie tenha também cuidado parental, mas não existem ainda informações.

 


Comportamento

 

São animais totalmente aquáticos, devem ser criados em aquários, não necessitando de uma porção emersa.

Apesar das grandes garras, não são animais agressivos, podendo ser mantidos com peixes ou com outros Aeglas, independente do sexo. Comportamento gregário, em especial animais juvenis. Hábitos noturnos, passando o dia entocado, saindo à noite para se alimentar.

Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação completa da carapaça.

 


Alimentação

 

Não é exigente quanto à alimentação, na natureza são onívoros, se alimentando de detritos e material orgânico em decomposição, vegetal e animal.

 

 

Bibliografia:
  • Bond-Buckup G. Família Aeglidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
  • Bond-Buckup G, Buckup L.1994. A família Aeglidae (Crustacea, Decapoda, Anomura). Arch. Zool., São Paulo, 2 (4): 159-346.
  • Martin, J.W. & Abele, L.G. 1988. External morphology of the genus Aegla (Crustacea: Anomura: Aeglidae). Smithsonian Contributions to Zoology 453: 1-46.
  • Tudge CC. Endemic and enigmatic: the reproductive biology of Aegla (Crustacea: Anomura: Aeglidae) with observations on sperm structure. Memoirs of Museum Victoria 60(1): 63–70 (2003).
  • Dametto N, Périco E. Estrutura populacional de Aegla grisella Bond-Buckup & Buckup, 1994 (Crustacea, Aeglidae) do Perau de Janeiro, Arvorezinha, RS, Brasil. Apresentação oral. Salão de Iniciação Científica (27.:2015 out. 19-23: UFRGS, Porto Alegre, RS).
  • Copatti CE,  Machado JVV, Trevisan A. Morphological variation in the sexual maturity of three sympatric aeglids in a river in southern Brazil. (2015) Journal of Crustacean Biology, V.35, Issue 1, p 59 – 67.

  • Pérez-Losada M, Bond-Buckup G, Jara CG, Crandall KA. Molecular systematics and biogeography of the southern South american freshwater "crabs" Aegla (decapoda: Anomura: Aeglidae) using multiple heuristic tree search approaches. Syst Biol. 2004 Oct; 53(5):767-80.
  • http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/fauna-brasileira/



Agradecimentos especiais aos colegas Amanda Perin Marcon e Rodrigo Spezia por permitirem o uso das fotos no artigo.
 
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