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"Moreirocarcinus emarginatus"  
Artigo publicado em 27/09/2020, última edição em 05/11/2020  

Nome em português: Caranguejo de água doce. 
Nome em inglês: -
Nome científicoMoreirocarcinus emarginatus (H. Milne-Edwards, 1853)

Origem: Noroeste da América do Sul, continental
Tamanho: carapaça com largura de 4,5 cm 
Temperatura: 25-34° C
pH: ácido

Dureza: mole 
Reprodução
: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: agressivo
Dificuldade: fácil

 

 

Apresentação

 

O Moreirocarcinus emarginatus é um caranguejo incomum no Brasil, encontrado somente na porção noroeste do estado do Amazonas. Mas sua distribuição se estende por vários países do noroeste sulamericano, tendo bastante importância em alguns deles, por exemplo, como vetor de doenças.

Devido à sua abundância, estes animais são importante componente da cadeia trófica de ambientes dulcícolas. Comestíveis, são também relevante fonte de alimentação para populações ribeirinhas e indígenas. Muitos caranguejos de água doce também têm importância por serem vetores de verminoses pulmonares do gênero Paragonimus (distomatose pulmonar ou hemoptise parasitária), doença com registros nos cinco países onde ocorre o M. emarginatus, inclusive Brasil. Em especial, o Equador tem a maior prevalência da doença nas Américas, onde é considerado um problema de saúde pública. A incidência oficial é de cerca de 90 casos/ano, mas certamente há subnotificação. O caranguejo é o hospedeiro secundário, e no Equador, o M. emarginatus é um dos três principais vetores (juntamente com duas espécies de pseudotelfusídeos Hypoplobocera). Seres humanos são infectados ao ingerirem os crustáceos crus ou mal cozidos.


Etimologia: O nome científico do gênero é uma homenagem ao carcinólogo brasileiro Carlos Moreira, com seu trabalho pioneiro no estudo dos Tricodactilídeos, associado ao sufixo carcinus, que tem sua origem no grego karkinos (caranguejo). E emarginatus tem origem no latim, ëmarginö, destituído de borda ou margem, uma alusão ao formato do seu gonópodo. Há alguma controvérsia em relação à grafia do epíteto devido à concordância, algumas fontes escrevem M. emarginata (feminino).


 





Moreirocarcinus emarginatus, fotografado em Mitú, Vaupés, Colombia. Fotos de Sam Wilson (iNaturalist, Licença Creative Commons).



Origem

            Sua distribuição é na região noroeste da América do Sul, trans-bacia no Escudo das Guianas, ocorrendo na Bacia Amazônica e na do Rio Orinoco. É encontrado no Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador e Peru. No Brasil, ocorre somente no extremo oeste do estado do Amazonas.



 

Distribuição geográfica de Moreirocarcinus emarginatus. Imagem original Google Maps; dados de Melo GAS 2003 e demais referências.




Aparência

 

Cefalotórax de altura média, subhexagonal e bastante convexa. Olhos pequenos, antenas curtas, margem frontal lisa e bilobada. Margem ântero-lateral da carapaça com até 4 dentes pequenos e acuminados, às vezes obtusos, sendo os dois anteriores um pouco maiores, e os dois posteriores diminutos, às vezes vestigiais. Pequeno dente acessório após o ângulo orbital externo presente como uma saliência arredondada. Grandes quelípodos, assimétricos nos machos, pernas dispostas lateralmente. 

Existem duas famílias de caranguejos de água doce no Brasil: Trichodactylidae e Pseudothelphusidae. Os primeiros podem identificados por dois detalhes: dáctilos com pêlos (ao invés de espinhos, daí seu nome), e segundo maxilópode. Dentro da família, os Moreirocarcinus podem ser identificados baseados na forma do abdômen (fusão dos somitos, III-VI), linha mediana do esterno torácico presente entre os somitos V-VIII, além de detalhes do gonópodo.

Em relação às duas espécies de Moreirocarcinus encontrados no Brasil, o M. emarginatus pode ser facilmente diferenciado do M. laevifrons pelo número de dentes na margem da carapaça.





Moreirocarcinus emarginatus, fotografado em Caño Danta, vía Alto Carinagua, estado do Amazonas, Venezuela. Detalhes da carapaça são bem visíveis nestas imagens. Fotos gentilmente cedidas por Leopoldo Alfirio Russo Fernandez.



Parâmetros de Água

 

É uma espécie típica de águas negras, encontrada em locais com pH bastante baixo e dureza também baixa. Não há dados dos parâmetros dos ambientes de coleta, mas é uma espécie tropical, encontrada em locais de temperatura elevada. No Rio Cuau (Venezuela), é descrita a ocorrência em áreas pantanosas próximo a nascentes. 



Dimorfismo Sexual

 

Como todo caranguejo, pode ser feita facilmente através da análise do abdômen, o macho possui abdômen estreito, e a fêmea, abdômen largo, onde fixa seus ovos. Os machos também têm maiores dimensões, garras mais desenvolvidas e assimétricas.




Moreirocarcinus emarginatus em visão ventral, mostrando o abdômen estreito do macho. Note a fusão dos somitos. Foto gentilmente cedida por Leopoldo Alfirio Russo Fernandez.



Reprodução

Vivem em águas continentais, todo seu ciclo de vida se dá em água doce. Apresentam desenvolvimento pós-embrionário direto, também chamado epimórfico, onde as fases larvais completam-se ainda dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos juvenis, já com características semelhantes ao adulto. Provavelmente apresentam cuidado parental estendido, os filhotes se alojando na mesma cavidade onde se localizavam os ovos. 

 

 

Moreirocarcinus emarginatus, fotografado em Caño Danta, vía Alto Carinagua, estado do Amazonas, Venezuela. Imagens gentilmente cedidas por Leopoldo Alfirio Russo Fernandez.



Comportamento

 

Embora sejam animais aquáticos, têm hábitos anfíbios, suportando algum tempo fora d´água, principalmente se houver umidade. Fugas são bastante frequentes, o aquário deverá ser sempre mantido bem tampado. Passam mais tempo fora d´água do que outros caranguejos dulcícolas, em especial no período reprodutivo, se beneficiando de um aquaterrário.

São mais agressivos do que outras espécies, não sendo recomendada a sua manutenção com outros animais. Mesmo entre indivíduos da mesma espécie, pode haver predação de animais menores. Plantas tenras costumam ser devoradas também.

Adultos são escavadores, não são indicados para tanques com substrato fértil, ou com layout ornamental. Adultos têm hábitos noturnos, e costumam ficar entocados até anoitecer, jovens são mais ativos durante o dia.

Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação completa da carapaça.




Alimentação

 

São onívoros, com importante componente vegetal na dieta. Não são nada exigentes quanto à alimentação, comendo desde algas, animais mortos a ração dos peixes. Caçam pequenos invertebrados, e podem se alimentar também de plantas com folhas tenras. Na Venezuela há registros de predação de cobras-cegas.




Bibliografia: 

  • Magalhães C. Famílias Pseudothelphusidae e Trichodactylidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003. 
  • Magalhães C, Türkay M. Taxonomy of the Neotropical freshwater crab family Trichodactylidae. I. The generic system with description of some new genera (Crustacea: Decapoda: Brachyura). Senckenbergiana Biologica, 75 (1/2): 63–95.
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Agradecimentos ao colega aquarista venezuelano Leopoldo Alfirio Russo Fernandez, e ao fotógrafo norte-americano Sam Wilson pelo uso das fotos no artigo.


As fotografias de Sam Wilson (iNaturalist) estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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