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"Leptuca leptodactyla"  
Artigo publicado em 26/06/2012, última edição em 24/01/2017  


Leptuca leptodactyla, macho em padrão de cor de exibição, fotografado na Barra do Jucu, Vila Velha, Espírito Santo. Os dedos longos e delicados da maior garra do macho, típicos desta espécie, são bem visíveis nesta imagem. Foto gentilmente cedida por Carlos Moura.


Caranguejo Chama-MaréLeptuca leptodactyla


Nome em português: Caranguejo Uca, Chama-maré, Caranguejo Violinista
Nome em inglês: Marbled Fiddle Crab
Nome científico: Leptuca leptodactyla (Rathbun, in Rankin 1898)
Origem: Costa atlântica das Américas
Tamanho: carapaça com largura de 1,2 cm
Temperatura: 20-28° C
Salinidade: alta
Reprodução: primitiva, larvas se desenvolvem no mar
Comportamento: pacífico
Dificuldade: fácil



Os caranguejos chama-marés (também chamados caranguejos-violinistas) são pequenos caranguejos semi-terrestres que habitam zonas costeiras, bastante comuns em manguezais, marismas e estuários. Pouco mais de cem espécies já foram registradas, até há pouco tempo todas pertenciam ao gênero Uca, divididas em 12 subgêneros.

Porém, em 2016 foi realizada uma cuidadosa revisão da família Ocypodidae por Shih e colaboradores, baseada em dados moleculares, combinando informações nucleares (28S rDNA) e mitocondriais (16S rDNA e subunidade I de citocromo oxidase – COI). Este trabalho trouxe algumas importantes modificações na sistemática dos chama-marés.

O gênero Uca foi invalidado, todos os subgêneros passando a ganhar status de gênero. Desta forma, o único chama-maré brasileiro que mantém o gênero Uca é o U. maracoani, já que pertencia previamente ao gênero Uca, subgênero Uca. Todos os demais devem ser designados como Minuca rapax, Leptuca uruguayensis, e assim por diante. Porém, é provável que os chama-marés continuem sendo chamados popularmente de "Ucas" por algum tempo.

O antigo gênero Uca mostrou-se parafilético, pertencendo a dois clados amplamente divergentes. Desta forma, a família Ocypodidae passa a ser classificada da seguinte forma: O antigo subgênero Uca (e um gênero africano) agrupam-se com os caranguejos maria-farinha (Ocypode), constituindo a subfamília Ocypodinae. Todos os demais chama-marés conhecidos são monofiléticos (inclui as demais nove espécies brasileiras), e agrupam-se na subfamília Gelasiminae. Os Uçás (Ucides) voltam a pertencer a Ocypodidae, constituindo a terceira subfamília, Ucidinae.

Outras informações gerais dos chama-marés podem ser vistas nos dois textos introdutórios presentes na seção  "artigos" . Sugerimos a sua leitura previamente à desta ficha.



Apresentação

O Leptuca leptodactyla é a menor espécie de chama-maré brasileiro, atingindo pouco mais que 1 cm na largura da sua carapaça. Apesar de diminuto, é uma espécie bastante atraente, é o chama-maré brasileiro onde a mudança de coloração na exibição sexual é mais acentuada, se tornando branco brilhante e porcelanoso.

Etimologia: Leptuca vem do grego leptos (pequeno, delicado) e Uca, o nome original do gênero dos chama-marés. Uca tem uma etimologia bem interessante, explicada no artigo principal. E leptodactyla também tem origem no grego leptos (pequeno, delicado) e daktulos (dedo).





Estuário da Barra de Jacuípe, Camaçari, Bahia, mostrando uma grande colônia de Leptuca leptodactyla. Note que se trata de um campo aberto, diretamente exposto ao forte sol, com substrato arenoso. Na segunda imagem em close, um macho em coloração reprodutiva. Fotos gentilmente cedidas por Michel Lobo.




Distribuição geográfica de Leptuca leptodactyla. Imagem original Google Maps; dados de Melo GAS 1996 e demais referências.



Origem e habitat

            É uma espécie com ampla distribuição geográfica, em climas tropicais, subtropicais e temperadas das Américas, na sua costa atlântica. Entretanto, mostra uma distribuição disjunta, são encontradas desde a Flórida (EUA), México e Caribe, mas não ocorrem no norte da América do Sul. Voltam a ser encontrados no Brasil, a partir do Maranhão, até o sul (Palhoça, Santa Catarina).

            Em muitos locais é a espécie mais numerosa de chama-maré. Seu habitat típico é nas margens de manguezais, beiras de grandes baias e ilhas expostas ao mar. É a espécie mais polihalina dos chama-marés brasileiros, vivem em altas salinidades, em locais com forte influência marinha, inundadas com águas de salinidade total. Habitam áreas abertas e ensolaradas, com substrato arenoso grosseiro, pobre em matéria orgânica. Constrói suas tocas em um terreno intermediário, próximo à linha superior da maré, em regiões inundadas na maré alta.

            Ao menos em parte, esta preferência de substrato explica sua distribuição disjunta, não é encontrado junto à foz do Rio Amazonas porque neste habitat o terreno é bastante lamacento, devido ao sedimento fino trazido pelo rio.

            Tipicamente são simpátricos com uma das duas outras espécies dos pequenos Leptuca, L. cumulanta e L. uruguayensis, o primeiro mais ao norte, e o segundo mais ao sul. Mas estas duas espécies costumam construir suas tocas em terrenos mais lodosos e distantes do litoral.





















Grande aglomeração de Leptuca leptodactyla no Manguezal de Maracaípe, em Ipojuca, PE. Neritina virginea também são visíveis no vídeo. Vídeo de Walther Ishikawa.



Casal de Leptuca leptodactyla fotografado em uma praia de Paripueira, Alagoas. Próximo ao macho, pode ser visto um "capuz" ornamentando a entrada da toca. Foto de Caroline Rocha.





Leptuca leptodactyla macho saindo da toca, fotografado em Olinda, Pernambuco. Praia arenosa, o mar pode ser visto ao fundo, na segunda foto. Na primeira imagem, pode ser visto o "capuz" ornamentando a entrada da toca, já parcialmente desmoronado. Fotos cedidas por Rodrigo Valença Cruz.



Machos de Leptuca leptodactyla em coloração de reprodução, fotografados em Aracruz, Espírito Santo. Foto cedida por Karla Corona Guerze.


Aparência

 

Machos adultos desta espécie são facilmente identificáveis, pelo aspecto dos dedos da garra maior, longos e delicados. O aspecto alongado e fino do mero também é típico. Para outros detalhes, veja o artigo com a chave de identificação.

O Leptuca leptodactyla e o Leptuca uruguayensis são as únicas espécies brasileiras que apresentam uma intensa mudança de coloração durante a exibição sexual, e este é mais exacerbado no Leptuca leptodactyla, e visto tanto em machos quanto fêmeas. O “alvejamento” (“whitening”) usualmente é total nas carapaças, muitas vezes se estendendo sobre todos os apêndices. A fase branca é eventualmente precedida por um estágio amarelo, onde a cor pode variar de laranja a verde limão pálido, a carapaça se tornando branca antes das quelas e pernas. Quando não está branca, as garras e pernas ambulatórias mostram variados tons de amarelo, laranja ou vermelho.

            Das espécies brasileiras de chama-marés, o L. leptodactyla e o L. cumulanta são as duas únicas que constroem ornamentações em forma de “capuz” na entrada das tocas. Só são construídas esporadicamente por parte dos machos em exibição.



Leptuca leptodactyla, macho em padrão de cor de exibição, fotografado na Crôa do Goré, Sergipe. nesta foto pode ser vista também  o aspecto alongado e fino do mero da maior garra do macho. Foto cedida por Jorge Delamare.



Leptuca leptodactyla, macho em padrão de cor de exibição, fotografado em São Francisco do Sul, Santa Catarina, próximo ao limite sul da sua distribuição geográfica. Foto cedida por César Arzua.







Colônia de Leptuca leptodactyla, fotografado em uma praia arenosa junto a um estuário, próximo á vegetação, em Peruíbe, São Paulo. Na segunda foto, um macho parcialmente "alvejado", difícil diferenciá-lo de um L. uruguayensis. Nas demais fotos, um macho com padrão de cor amarelado pré-alvejamento. Fotos de Walther Ishikawa.



Dois machos de Leptuca leptodactyla, fotografados na Praia dos Carneiros, Tamandaré, Pernambuco. Foto de André Akagi.


Peculiaridades na manutenção em aquaterrários

O Leptuca leptodactyla é uma espécie que possui algumas necessidades especiais, em especial a alta salinidade na sua manutenção. Nos demais aspectos, pode ser criada facilmente em paludários.

 
 


Leptuca leptodactyla, numa foto bem-humorada de Rodrigo Valença Cruz. Trata-se de um macho em coloração basal, na foto é bem visível o pequeno tamanho desta espécie.


 

Bibliografia:

  • Melo GAS. Manual de Identificação dos Brachyura (caranguejos e siris) do litoral brasileiro. São Paulo: Plêiade/FAPESP Ed., 1996, 604p.
  • Crane J. 1975. Fiddler crabs of the world. Ocypodidae: Genus Uca. New Jersey: Princepton University Press, 736p.
  • Thurman CL, Faria SC, McNamara JC. The distribution of fiddler crabs (Uca) along the coast of Brazil: implications for biogeography of the western Atlantic Ocean. Marine Biodiversity Records 01/2013; 6:1-21.
  • Bezerra LEA. The fiddler crabs (Crustacea: Brachyura: Ocypodidae: genus Uca) of the South Atlantic Ocean. Nauplius 2012; 20(2): 203-246.
  • Koch V, Wolff M, Diele K. Comparative population dynamics of four fiddler crabs (Ocypodidae, genus Uca) from a North Brazilian mangrove ecosystem. Marine ecology. 2005, vol. 291, pp. 177-188.
  • Masunari S. Distribuição e abundância dos caranguejos Uca Leach (Crustacea, Decapoda, Ocypodidae) na Baía de Guaratuba, Paraná, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2006, vol.23, n.4, pp. 901-914.
  • Bede LM, Oshiro LMY, Mendes LMD, Silva AA.. Comparação da estrutura populacional das espécies de Uca (Crustacea: Decapoda: Ocypodidae) no Manguezal de Itacuruçá, Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2008, vol.25, n.4 pp. 601-607.
  • Bezerra LEA, Matthews-Cascon H. Population Structure of the Fiddler Crab Uca leptodactyla Rathbun, 1898 (Brachyura: Ocypodidae) in a Tropical Mangrove of Northeast Brazil. Thalassas, 2006, 22 (1): 65-74.
  • Masunari S, Swiech-Ayoub BP. Crescimento relativo em Uca leptodactyla Rathbun (Crustacea Decapoda Ocypodidae). Revista Brasileira de Zoologia 20 (3): 487–491, setembro 2003.
  • Cardoso RCF. Ecologia do caranguejo chama-maré Uca leptodactyla Rathbun, 1898 (Crustacea, Brachyura, Ocypodidae) em bancos de areia estuarinos no Litoral Norte do estado de São Paulo, Brasil. Tese de Doutorado, Instituto de Biociências de Botucatu, Universidade Estadual Paulista, 2007.
  • Shih HT, Ng PKL, Davie PJF, Schubart CD, Türkay M, Naderloo R, Jones D, Liu MY. 2016. Systematics of the family Ocypodidae Rafinesque, 1815 (Crustacea: Brachyura), based on phylogenetic relationships, with a reorganization of subfamily rankings and a review of the taxonomic status of Uca Leach, 1814, sensu lato and its subgenera. The Raffles Bulletin of Zoology, 64:139-175.

 

 

 

 

 

 

Agradecimentos especiais a Carlos Moura, Michel Lobo, Caroline Rocha, Rodrigo Valença Cruz, Jorge Delamare, André Akagi, César Arzua e Karla Corona Guerze pela cessão das fotos para o artigo. Somos muito gratos também à ecóloga Ravena Sthefany Alves Nogueira por valiosas informações sobre a taxonomia destes animais.





As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciados sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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