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"Minuca rapax"  
Artigo publicado em 03/07/2012, última edição em 24/01/2017  




Caranguejo Chama-MaréMinuca rapax


Nome em português: Caranguejo Uca, Chama-maré, Caranguejo Violinista
Nome em inglês:
Mudflat Fiddle Crab
Nome científico:
Minuca rapax (Smith, 1870)
Origem: Costa atlântica das Américas
Tamanho: carapaça com largura de 3,2 cm
Temperatura: 20-28° C
Salinidade:
tolerante a variações
Reprodução: primitiva, larvas se desenvolvem no mar
Comportamento: pacífico
Dificuldade: fácil



Os caranguejos chama-marés (também chamados caranguejos-violinistas) são pequenos caranguejos semi-terrestres que habitam zonas costeiras, bastante comuns em manguezais, marismas e estuários. Pouco mais de cem espécies já foram registradas, até há pouco tempo todas pertenciam ao gênero Uca, divididas em 12 subgêneros.

Porém, em 2016 foi realizada uma cuidadosa revisão da família Ocypodidae por Shih e colaboradores, baseada em dados moleculares, combinando informações nucleares (28S rDNA) e mitocondriais (16S rDNA e subunidade I de citocromo oxidase – COI). Este trabalho trouxe algumas importantes modificações na sistemática dos chama-marés.

O gênero Uca foi invalidado, todos os subgêneros passando a ganhar status de gênero. Desta forma, o único chama-maré brasileiro que mantém o gênero Uca é o U. maracoani, já que pertencia previamente ao gênero Uca, subgênero Uca. Todos os demais devem ser designados como Minuca rapax, Leptuca uruguayensis, e assim por diante. Porém, é provável que os chama-marés continuem sendo chamados popularmente de "Ucas" por algum tempo.

O antigo gênero Uca mostrou-se parafilético, pertencendo a dois clados amplamente divergentes. Desta forma, a família Ocypodidae passa a ser classificada da seguinte forma: O antigo subgênero Uca (e um gênero africano) agrupam-se com os caranguejos maria-farinha (Ocypode), constituindo a subfamília Ocypodinae. Todos os demais chama-marés conhecidos são monofiléticos (inclui as demais nove espécies brasileiras), e agrupam-se na subfamília Gelasiminae. Os Uçás (Ucides) voltam a pertencer a Ocypodidae, constituindo a terceira subfamília, Ucidinae.

Outras informações gerais dos chama-marés podem ser vistas nos dois textos introdutórios presentes na seção  "artigos" . Sugerimos a sua leitura previamente à desta ficha.



Apresentação

O Minuca rapax é a espécie mais versátil e adaptável dentre os Violinistas brasileiros, capaz de colonizar ambientes com salinidades variadas, e também ocupar substratos com diversas características. Em parte por este motivo, muitas vezes é a espécie mais dominante e numerosa dentre os chama-marés, capaz de habitar inclusive locais degradados por ação antrópica.

Etimologia: Minuca vem do latim minus (pouco, pequeno) e Uca, o nome original do gênero dos chama-marés. Uca tem uma etimologia bem interessante, explicada no artigo principal. E rapax vem do latim rapiō (agarrar).





Colônia de Minuca rapax em um manguezal da Venezuela. Fotos de Eduardo López.



Minuca rapax macho, saindo de sua toca, em um ambiente bastante urbanizado e degradado. Fotografado na Rua da Aurora, Recife, Pernambuco. Foto cedida por Rodrigo Valença Cruz.




Minuca
rapax, fotografado em um estuário de solo arenoso em Paraty, RJ. Foto cedida por Myriam Vandenberghe.





Distribuição geográfica de Minuca rapax. Imagem original Google Maps; dados de Melo GAS 1996 e demais referências.



Origem e habitat

            É a espécie atlântica de chama-maré com distribuição geográfica mais ampla, sendo encontrado em climas tropicais, subtropicais e temperadas das Américas, na sua costa atlântica. Ocorre desde a Flórida (EUA) até o sul do Brasil (AP a SC). Em muitos locais é a espécie mais numerosa de chama-maré.

Mostra preferência por biótopos com salinidades mais altas, sendo raro em ambientes oligosalinos. Mas já existem casos registrados de animais invasores colonizando rios de água doce em Minas Gerais, originários de distribuidores de peixes ornamentais. Sua dependência de água salobra para a reprodução torna este caso auto-limitado, mas mostra a extrema robustez desta espécie de chama-maré. Alguns trabalhos experimentais mostram que o Minuca rapax é um dos crustáceos com maior capacidade de osmorregulação que existe.

Vivem próximo a manguezais, e nas margens de estuários e lagoas. Pode habitar tanto solos arenosos ou lodosos, mas algumas populações numerosas podem ser encontradas em terreno arenoso, já que poucas espécies de chama-marés têm preferência por este tipo de substrato (somente o Leptuca leptodactyla). Constrói suas tocas no supra-litoral, acima da linha da maré alta, em terreno já seco, tanto em locais abertos e ensolarados quanto em locais abrigados entre as árvores da floresta adjacente. Divide este último ambiente com os Ucides. A espécie simpátrica mais comum é o Minuca burgersi.








Minuca rapax fotografado em Caraguatatuba, São Paulo. Note as grandes dimensões do animal, com pouco mais de 3 cm de carapaça, um detalhe que permite a identificação definitiva da espécie. Note também o mero alargado das últimas pernas. Fotos de Walther Ishikawa.




Minuca rapax fotografado em Paraty, RJ. As fotos mostram bem o formato da margem dorsal da carapaça, com margem antero-lateral longa. Fotos de Stuart Brown.


Minuca rapax, veja a face interna do quelípodo maior, com características típicas da espécie: crista tubercular oblíqua bem pronunciada, e a crista proximal de tubérculos junto à base do dedo móvel paralela ao sulco articular adjacente. Foto de Walther Ishikawa.



Aparência

 

O Minuca rapax é uma das cinco espécies brasileiras de Minuca, com fronte bem larga, e a diferenciação das outras quatro espécies pode ser bastante difícil. É o maior deles, sua carapaça podendo medir pouco mais de 3 cm, o que pode permitir a identificação em exemplares maiores, dado que as demais não crescem tanto (veja o artigo sobre identificação  aqui ). Mas, em exemplares menores, talvez seja o chama-maré mais difícil de ser identificado, dado que não possui muitas características morfológicas típicas.

Num texto bem humorado do seu livro, a Dra. Crane descreve este chama-maré como sendo a mais “sem graça” de todas, nada no seu aspecto externo é chamativo, não há clareamento da carapaça para exibição, sua garra nunca mostra uma cor vibrante, e até sua exibição com a garra maior é lenta, descrita como “soporífera” pela autora.

Há bastante variação nas dimensões e coloração desta espécie. Sua carapaça mostra cor castanho-moreno claro, ou eventualmente azul esverdeado. Há discreto clareamento na época reprodutiva, mas sem extenso alvejamento. A garra geralmente tem coloração próxima à da carapaça, mas na sua face externa (pelo menos na porção inferior) mostra uma cor mais desbotada, acinzentada, ou ainda puxado para ocre ou amarelo-esverdeado. A garra pode ainda mostrar tons de laranja-damasco e extremidade dos dedos branca. Nunca há tons de vermelho na garra, o que ajuda na diferenciação de algumas outras espécies. Pernas um pouco mais escuras do que a carapaça.








Minuca rapax macho, fotografado em um manguezal de Praia Grande, litoral sul de SP. Foto cedida por Ricardo Samelo.

 




Minuca rapax, fotografado em Caraguatatuba, São Paulo. Fotos de Walther Ishikawa.




Minuca rapax macho, coletado em Santa Catarina. Na segunda foto, uma exúvia, onde pode ser bem visto os detalhes da face interna da quela, características desta espécie. Fotos de Juliano Tortelli.


Minuca rapax macho, fotografado em um mangue de Aracruz, ES. Foto cedida por Rodrigo Borçato.



Peculiaridades na manutenção em aquaterrários

Como já mencionado, o Minuca rapax é uma espécie extremamente robusta e adaptável, a mais resistente dentre os chama-marés brasileiros. Não há muita experiência na manutenção destes caranguejos em cativeiro, mas talvez esta seja uma espécie adaptável à água doce. Embora na natureza o Minuca vocator e o Minuca mordax sejam mais oligohalinos do que o Minuca rapax, a capacidade de adaptação do Minuca rapax é bem maior.

 




Minuca rapax, fotografado no mangue do Rio Cavalo, Itamambuca, em Ubatuba, SP. Na última foto, também é visível a crista proximal de tubérculos junto à base do dedo móvel paralela ao sulco articular adjacente, típico desta espécie. Fotos de Walther Ishikawa.




Minuca rapax fotografado em Caraguatatuba, São Paulo, um ambiente de água praticamente doce. Repare na segunda foto o mero largo e com borda dorsal convexa da última perna. Fotos de Walther Ishikawa.

 

Bibliografia:

  • Melo GAS. Manual de Identificação dos Brachyura (caranguejos e siris) do litoral brasileiro. São Paulo: Plêiade/FAPESP Ed., 1996, 604p.
  • Crane J. 1975. Fiddler crabs of the world. Ocypodidae: Genus Uca. New Jersey: Princepton University Press, 736p.
  • Thurman CL, Faria SC, McNamara JC. The distribution of fiddler crabs (Uca) along the coast of Brazil: implications for biogeography of the western Atlantic Ocean. Marine Biodiversity Records 01/2013; 6:1-21.
  • Bezerra LEA. The fiddler crabs (Crustacea: Brachyura: Ocypodidae: genus Uca) of the South Atlantic Ocean. Nauplius 2012; 20(2): 203-246.
  • Magalhães ALB, Costa TM. Escape of the fiddler crab Uca rapax (Smith, 1870) (Crustacea: Ocypodidae) in the state of Minas Gerais, Brazil. Lundiana (2007) 8(1):65-68.
  • Castiglioni DF, Negreiros-Fransozo ML. Ciclo reprodutivo do caranguejo violinista Uca rapax (Smith) (Crustacea, Brachiura, Ocypodidae) habitante de um estuário degradado em Paraty, Rio de Janeiro, Brasil. Revista Brasileira de Zoologia (2006) 23: 331-339.
  • Zanders IP, Rojas WE. Osmotic and ionic regulation in the fiddler crab Uca rapax acclimated to dilute and hypersaline seawater. Marine Biology (1996) 125: 315-320.
  • Thurman C. Osmoregulation in fiddler crabs (Uca) from temperate Atlantic and Gulf of Mexico coasts of North America. Marine Biology (2003) 142: 77–92
  • Oliveira LPH. Alguns fatores que limitam o habitat de varias especies de caranguejos do genero Uca Leach: (Decapoda: Ocypodidae). Mem. Inst. Oswaldo Cruz. 1939, vol.34, n.4, pp. 519-526.
  • Koch V, Wolff M, Diele K. Comparative population dynamics of four fiddler crabs (Ocypodidae, genus Uca) from a North Brazilian mangrove ecosystem. Marine ecology. 2005, vol. 291, pp. 177-188.
  • Masunari S. Distribuição e abundância dos caranguejos Uca Leach (Crustacea, Decapoda, Ocypodidae) na Baía de Guaratuba, Paraná, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2006, vol.23, n.4, pp. 901-914.
  • Bede LM, Oshiro LMY, Mendes LMD, Silva AA. Comparação da estrutura populacional das espécies de Uca (Crustacea: Decapoda: Ocypodidae) no Manguezal de Itacuruçá, Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2008, vol.25, n.4 pp. 601-607.
  • http://www.sms.si.edu/
  • Shih HT, Ng PKL, Davie PJF, Schubart CD, Türkay M, Naderloo R, Jones D, Liu MY. 2016. Systematics of the family Ocypodidae Rafinesque, 1815 (Crustacea: Brachyura), based on phylogenetic relationships, with a reorganization of subfamily rankings and a review of the taxonomic status of Uca Leach, 1814, sensu lato and its subgenera. The Raffles Bulletin of Zoology, 64:139-175.

 


Agradecimentos especiais aos colegas Eduardo López (Venezuela), Rodrigo Valença Cruz, Ricardo Samelo, Juliano Tortelli, Rodrigo Borçato, Stuart Brown (Reino Unido) e Myriam Vandenberghe (Bélgica) pela cessão das suas fotos para o artigo. Somos muito gratos também à ecóloga Ravena Sthefany Alves Nogueira por valiosas informações sobre a taxonomia destes animais.




As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciados sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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