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Aratu vermelho  
Artigo publicado em 01/10/2012, última edição em 16/03/2014  



Aratu vermelho – Goniopsis cruentata

 

Nome em português: Aratu vermelho, Maria-mulata

Nome em inglês: Red mangrove-root crab, Red devil’s crab
Nome científico: Goniopsis cruentata (Latreille, 1803)

Origem: Américas, costa atlântica e pequeno foco pacífico, costa atlântica africana
Tamanho: carapaça com largura de 6,0 cm
Temperatura: 20-28° C
Salinidade: tolerante a variações, prefere alta
Reprodução
: primitiva, necessita de água salobra para as larvas
Comportamento: agressivo
Dificuldade: fácil

 

 

Apresentação

            Aratu é o nome popular de diversos caranguejos semi-terrestres do mangue, principalmente da família dos sesarmídeos. Destas, a mais importante é o Goniopsis cruentata, comestível, que muitas vezes é chamado simplesmente de “Aratu”. Possui diversos nomes populares regionais, “Aratu vermelho”, “Aratu vermelho-preto”, Aratu do mangue”, “Maria-mulata”, “Carapinha”, “Espia-moça”, “Túnica”, “Anajá”, “Bonitinho”, etc.

            O Goniopsis é um gênero grapsídeo com três espécies válidas, o G. cruentata é a única que apresenta uma distribuição atlântica. O G. pelii (Herklots, 1851) ocorre na costa oeste africana, e o G. pulchara (Lockington, 1876) é encontrado no pacífico americano.

O Aratu-vermelho é uma importante espécie comestível, sendo bastante explorada artesanalmente nos estados do Nordeste, em especial em Pernambuco. Ali, a produção de Aratu atingiu em 2004 o volume de 71,5 toneladas (IBAMA/CEPENE). Apesar da sua importância, não há portaria para sua proteção, ao contrário do Uçá e Guaiamum. O caranguejo é cozido, ou vendido inteiro, ou sua carne extraída, chamado de “catado”.

A captura do Goniopsis é feita por um artefato artesanal formado por vara, linha e isca. Os tipos de isca utilizados são tripa de galinha, carne de charque e a carne do caranguejo Aratus pisonii. Durante a pesca, as catadoras lançam a isca (presa à extremidade da linha) para a superfície do substrato. Em seguida, o Aratu utiliza o quelípodo para recolher a isca, de modo que fica preso ao anzol, e é rapidamente lançado para um saco. É uma atividade tipicamente feminina, com canções tradicionais entoadas durante a captura, para atrair o caranguejo. As catadoras também retiram alguns galhos do mangue e passam a percuti-los em recipientes de plástico ou metal, assobiando simultaneamente, com objetivo de atrair os Aratus.

            Etimologia: Goniopsis vem do grego gōnia (ângulo) e opsis (aparência, semelhança, visão), algo como “com aspecto angulado”, pela morfologia da sua carapaça; cruentata vem do latim cruentus (sanguinolento), devido à sua coloração.




Aratu vermelho, animais coletados para alimentação. Fotografado em Mangue Seco, BA. Foto cedida por Rita Ribeiro.




Aratu vermelho, fotografado em um mangue na Baía de Guaratuba, PR. Fotos cedidas por Carlos A. P. Parchen. A primeira imagem do artigo também é de sua autoria.




Distribuição geográfica de Goniopsis cruentata. Imagem original Google Maps; dados de Melo GAS 1996 e demais referências.



Origem e habitat

Ampla distribuição geográfica, extensa no Atlântico ocidental, do sul da Flórida (EUA) até Santa Catarina, sul do Brasil. Ilhas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas. No Atlântico oriental, do Senegal a Angola. É encontrado também na costa pacífica do Panamá.

Habita áreas estuarinas das zonas tropicais e subtropicais, predominando no supra e médio-litoral, permanecendo boa parte do tempo emerso. Poderosos osmorreguladores, eles ocupam habitats de salinidades diversas, mas preferem ambientes mais salinos, com valores de 22 a 35%o.

Versátil, ocupa praticamente todos os microhabitats do mangue, desde o solo lamoso e arenoso entre raízes e troncos das árvores do manguezal, até as próprias árvores, sendo considerado semi-arborícola. Não constroem tocas, invadindo habitações de outros caranguejos no solo.






Goniopsis cruentata, fotografado em Guarujá, SP. Foto de Ana Pitteri.


Aparência

 

São caranguejos achatados de porte médio, carapaça quadrada, um pouco mais larga do que comprida, e pernas dispostas lateralmente. Olhos nas bordas ântero-laterais da carapaça, pedunculados mas curtos. Margem ântero-lateral com um único dente. Mero dos quelípodos com margem interna expandida em larga lâmina com margem espinhosa ou dentada. Adultos têm uma coloração bem característica, mas juvenis podem ser confundidos com os de outras espécies de Aratus (Sesarma, Armases e Aratus).

Possui uma belíssima coloração e padronagem, com carapaça avermelhada, arroxeada ou marrom-escura, pernas avermelhadas com pintas brancas ou alaranjadas, região ventral clara. As pernas possuem longas cerdas e pelos.

 






Goniopsis cruentata juvenil, fotografado em Peruíbe, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Uma grande exúvia, também fotografado em Peruíbe, SP. Fotos de Walther Ishikawa.


Dimorfismo Sexual

 

Como quase todos os caranguejos, a distinção pode ser feita facilmente através da análise do abdômen, que fica dobrado sobre a porção ventral da carapaça. Fêmeas possuem o abdômen largo, onde incubam seus ovos. Nos machos, o abdômen é estreito.

Machos adultos também possuem garras maiores e mais robustas.




Aratu vermelho, fotografado em um estuário de um grande rio em Aquiraz, Ceará. Foto de Walther Ishikawa.



Reprodução

Seu ciclo de vida é muito semelhante ao de outros crustáceos semi-terrestres estuarinos. Durante a estação reprodutiva, estes caranguejos lançam milhares de larvas na água durante a maré cheia. Estas são levadas pela correnteza até o mar, onde completam seu desenvolvimento, até retornarem para o estuário.

Reproduz-se continuamente ao longo do ano, exceto nos meses mais frios, em climas temperados. Pode realizar desovas múltiplas.

Apesar da sua importância, os dados sobre a reprodução desta espécie são incompletos, o seu desenvolvimento larvar não foi totalmente estudado em laboratório. Sabe-se que é um animal com um padrão primitivo de reprodução, com ovos bem pequenos (0.3 mm) e numerosos, podendo chegar a 171.000 ovos. O período de incubação é de cerca de 18 dias. Os zoea I nascem com 0.9 mm, e passam por pelo menos três estágios de zoea durante seu desenvolvimento. Necessita de altas salinidades, próxima à marinha (33%o).

 



Aratu vermelho, fotografado no Parque Estadula da Ilha do Cardoso (PEIC), em Cananéia, SP. Fotos de André Benedito.


Comportamento

 

São animais agressivos, onívoros, parte da sua alimentação é baseada na predação de caranguejos menores, como Uca e Aratus. Desta forma, não é recomendável sua manutenção com outros caranguejos, especialmente de menor tamanho. Bastante ativos tanto de dia quanto de noite. Rápidos e ágeis, são bem difíceis de serem capturados.

 

Alimentação

 

Onívoros, alimenta-se desde folhas de mangue a cadáveres de crustáceos, incluindo-se os da própria espécie. Ingerem propágulos de diversas espécies de árvores do mangue, influenciando sua distribuição. G. cruentata é um grande predador dos manguezais, caçando ativamente espécies menores de caranguejos, especialmente as diversas espécies de Uca, e o Aratus pisonii.

Porém, análise de conteúdos estomacais mostram que, apesar de onívoro e predador, uma grande quantidade de sedimento foi encontrado no estômago, indicando que, em termos de volume, detritos representam o componente principal da sua dieta. Entretanto, mostrou também uma varieade muito maior de alimentos do que outros caranguejos de manguezais, confirmando seu caráter oportunista e generalista.

Em cativeiro, necessitam de um balanço adequado entre Fósforo e Cálcio, com predomínio deste último. Muitos criadores fornecem suplementos de cálcio, como alimentos para répteis e comprimidos mastigáveis de uso humano. É conveniente também evitar um excesso de proteínas na dieta, mantendo uma dieta básica de vegetais. Outros alimentos não recomendados são o espinafre (rico em ácido oxálico) e salsinha (alto teor de ácido prússico, bastante tóxico para os caranguejos).

 


Goniopsis cruentata, fotografado no manguezal de São Francisco do Sul, SC. Foto cedida por Germano Woehl Jr. (Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade).


Manutenção em Aquaterrários

 

É uma espécie semi-terrestre, necessitando uma área seca predominante, e uma área aquática. Embora tolerem uma ampla faixa de salinidade, necessitam de água salobra para uma manutenção saudável.

É uma espécie agressiva, e relatos de predação são comuns, especialmente com animais menores.

Pelo seu hábito de escalar objetos, é aconselhável que haja pedras, troncos e outros objetos no terrário. São exímios escaladores, o tanque deve ser sempre mantido bem tampado, para evitar fugas. Pelo mesmo motivo, deve-se atentar a troncos e outros objetos que possam ser usados como apoio pelos animais para fugas. Consegue escalar até os cabos elétricos de filtros, uma sugestão é ocluir bem qualquer pequena fresta na tampa do paludário por onde estes fios adentram o tanque, por exemplo, com massas ou papel alumínio.





Caranguejos coletados em um estuário em São Sebastião, SP. Acima à esquerda, dois Uca burgersi. Acima à direita, dois Armases angustipes acima e Uca leptodactyla abaixo. O pequeno caranguejo abaixo à esquerda é um Goniopsis cruentata juvenil, coletado por engano (pensou-se que se tratava de outra espécie, como um Armases). Foto de Walther Ishikawa.

 



Goniopsis cruentata, o mesmo animal da foto acima, criado em um paludário salobro por alguns meses. na primeira foto, o animal ainda pequeno, na última foto, após cerca de 6 meses. O caranguejo foi separado dos demais animais devido à sua agressividade. Foto de Walther Ishikawa.


Bibliografia:

  • Melo GAS. Manual de Identificação dos Brachyura (caranguejos e siris) do litoral brasileiro. São Paulo: Plêiade/FAPESP Ed., 1996, 604p.
  • Spivak ED. Cangrejos estuariales del Atlántico sudoccidental (25º-41ºS) (Crustacea: Decapoda: Brachyura). Invest. Mar. Valparaíso, 25: 105-120, 1997.
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  • Maciel DC, Alves AGC. Conhecimentos e práticas locais relacionados ao aratu Goniopsis cruentata (Latreille, 1803) em Barra de Sirinhaém, litoral sul de Pernambuco. Biota Neotrop. 2009, 9(4): 029-036.
  • Silva ZS, Oshiro LMY. Crescimento em Goniopsis cruentata (Latreille) (Crustacea, Brachyura, Grapsidae) em laboratório. Rev. Bras. Zool. 2002, vol.19, n.3, pp. 915-923.
  • Silva ZS, Oshiro LMY. Aspectos reprodutivos de Goniopsis cruentata (Latreille) (Crustacea, Brachyura, Grapsidae) na Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2002  Sep; 19(3): 907-914.
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  • Botelho RO, Andrade CER, Santos MCF. Estudo da População de Aratu-do-Mangue, Goniopsis cruentata (Latraille, 1803) (Crustacea, Decapoda, Grapsidae) no Estuário do Rio Camaragibe (Alagoas - Brasil). Bol. Tec. Cient. CEPENE 2004. 12(1): 91-98.
  • Santos MCF, Botelho ERO, Ivo CTC. Biologia populacional e manejo da pesca de aratú, Goniopsis cruentata (Latreille, 1803) (Crustacea: Decapoda: Grapsidae) no litoral sul de Pernambuco – Brasil. Bol. Tec. Cient. CEPENE 2001. 9: 87-123.
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  • Moura NFO, Coelho PA, Souza RF. A pesca artesanal do aratu, Goniopsis cruentata (Latreille, 1803) (Crustácea, Brachyura, Grapsidae) no litoral norte de Pernambuco – Brasil. 2003. Boletim Técnico e Científico do CEPENE/IBAMA, Tamandaré.
  • Lima-Gomes RC, Cobo VJ, Fransozo A. Feeding behaviour and ecosystem role of the red mangrove crab Goniopsis cruentata (Latreille, 1803) (Decapoda, Grapsoidea) in a subtropical estuary on the Brazilian coast. (2011) Crustaceana 84 (5-6): 735-747.


Agradecimentos aos colegas Carlos A. P. Parchen, Rita Ribeiro, Ana Pitteri, André Benedito e Germano Woehl Jr. ( Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade ), pela cessão das fotos para o artigo.


As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciados sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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