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"Aegla parana"  
Artigo publicado em 07/12/2020, última atualização em 13/12/2020  



Égla – Aegla parana

 

Nome em português: Égla, Caranguejo de Rio, Tatuí de água doce, Scrabei
Nome em inglês: -
Nome científico: Aegla parana Schmitt, 1942

Origem: Brasil, sudoeste, sul e sudeste do PR, norte de SC, Argentina

Tamanho: carapaça com comprimento de até 5,4 cm
Temperatura: 16-23° C
pH: sem dados

Dureza: sem dados
Reprodução
: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: pacífico



 

 

Importante!!

 

            O Aegla parana é uma espécie listada como “não-preocupante” (LC) na relação das espécies em risco de extinção publicado pelo Ministério do Meio Ambiente e IBAMA (2014), e também na recente re-avaliação feita pela Sociedade Brasileira de Carcinologia (2016).

            Porém, recentes descoberas mostram que provavelmente trata-se de um complexo de espécies crípticas, ao invés de somente uma espécie. Se confirmado, é provável que haja mudança no estado de ameaça das novas espécies individualizadas, que ganhariam uma avaliação de risco maior.

            Desta forma, nossa sugestão é a de que, embora perfeitamente legal, a coleta e manutenção em cativeiro desta espécie sejam evitadas, pelo menos por ora.


 
 


Apresentação

 

            Apesar de serem muitas vezes referidos como “caranguejos”, na realidade estes crustáceos pertencem a outra infra-ordem, Anomura, a mesma dos caranguejos-ermitões. A família Aeglidae possui somente um gênero atual, Aegla, com próximo de uma centena de espécies válidas, muitas de descrição recente. São exclusivos de ambientes dulcícolas da região sul da América do Sul, o Brasil possui o maior número de espécies, das quais 90% são endêmicas. A maior parte apresenta um elevado grau de endemismo, ocorrendo em localidades bastante restritas. Veja  neste link uma listagem atualizada das espécies conhecidas de Aegla. São os únicos anomuros encontrados em água doce, exceto por uma única espécie de ermitão dulcícola de uma ilha do pacífico.

            Estudos filogenéticos recentes demonstraram que o A. parana é uma das espécies de eglídeos brasileiros que formam grupos não monofiléticos, há a suspeita que se trate de um complexo de espécies ao invés de somente uma. Isto é relevante, dado que o grau de ameaça da espécie é classificado atualmente como LC (pouco preocupante), baseado na sua ampla distribuição.

            Não são muito populares no Brasil como animais de aquário, mas em outros países (como na Argentina) são criados há algum tempo com sucesso.

 

            Etimologia: Aegla vem da deusa mítica grega Aegle, uma das três Hespérides, donas do jardim dos pomos de ouro, situado no extremo ocidental do mundo. E parana é uma menção ao Estado brasileiro onde são tipicamente encontrados.

 





Aegla parana
fotografada na Cachoeira do Rio dos Pardos, em Porto União, SC. Fotos gentilmente cedidas por Fábio André Pinheiro de Araújo.

 


 

Origem

 

            Églas são crustáceos com distribuição restrita à porção sul da América do Sul, vivendo em ambientes dulcícolas das regiões temperadas do continente. Vivem em riachos límpidos de leito rochoso, geralmente montanhosos, alguns também em lagoas e represas.

            O Aegla parana é uma espécie encontrada no Brasil e em uma pequena região da Argentina (Parque Nacional do Iguaçu, província de Misiones), com uma distribuição na região sudoeste, sul e sudeste do Paraná e norte de Santa Catarina, formando uma faixa ao longo da divisa entre os dois Estados. Ocorrência na Bacia do Rio Paraná, no alto e baixo Iguaçu, Timbó e Canoinhas.

 



Distribuição geográfica de Aegla parana. Imagem original Google Maps; dados de Bond-Buckup G, et al. 1994 e Trevisan A, 2013.

 


 

Aparência

 

Lembra bastante um caranguejo, com cefalotórax achatado, pernas dispostas lateralmente e primeiro par na forma de grandes garras (quelípodos). Entretanto, numa análise mais cuidadosa, destacam-se antenas finas e bastante longas, e abdômen relativamente desenvolvido, parecendo um lagostim com a cauda dobrada. O próprio cefalotórax é oval, novamente lembrando um lagostim achatado. Numa visão superior, só são visíveis três pares de pernas ambulatórias (ao invés dos quatro pares dos caranguejos), já que o último par é atrofiado, fica oculto sob o abdômen e não possui função locomotora. Coloração variada, geralmente de cor marrom-escura avermelhada, mas alguns animais possuindo tons azulados.

Aegla parana é a maior espécie conhecida de Aegla, machos atingindo 53,5 mm e fêmeas 41,2 mm. É facilmente reconhecível por possuir muitos espinhos na carapaça, quelas e pernas ambulatórias, comparável somente ao A. spinosa, de distribuição distinta. Em especial, a margem ventral do mero do segundo pereiópode com espinhos é bastante característico.

A morfologia dos quelípodos é bastante importante para o diagnóstico da espécie nos Aeglas. As quelas do macho do A. parana possuem crista palmar discreta e sub-retangular, e a margem interna da face ventral do ísquio possui dois espinhos robustos. A margem externa proximal do dedo móvel não possui lobo.

Seu rostro é muito longo nos adultos, estiliforme, carenado em todo seu comprimento. Outro detalhe anatômico útil é o espinho ântero-lateral da carapaça longo, ultrapassando a metade da córnea. Ângulo látero-dorsal da segunda pleura projetado por um espinho.

 

 


Imagem em close da carapaça de Aegla parana, destacando os espinhos, rostro e outros detalhes. Foto gentilmente cedida por Márcio Netto Lebre.







Aegla parana
fotografada em Bituruna, PR. Fotos gentilmente cedidas por Renata Daldin Leite.



Parâmetros de Água

 

Todos os Aeglas habitam ambientes bastante estáveis, são bem sensíveis a variações e condições inadequadas de água. Um aspecto bastante importante é sua sensibilidade a altas temperaturas, uma causa comum de insucesso na sua manutenção em cativeiro. Somente como exemplo, o Aegla laevis sobrevive por 30 minutos a 28º C, e por 20 minutos a 31º C.

Por viverem em água corrente e fria, demandam também alta taxa de oxigenação, sugerindo-se superdimensionar a filtragem e circulação de água no tanque. São mais comuns em águas neutras, de dureza média. Como os demais crustáceos, são bem sensíveis a compostos nitrogenados, assim como a metais.

 

 


Aegla parana fotografada em Dois Vizinhos, PR. Foto gentilmente cedida por Renata Daldin Leite.



Aegla parana fotografada em Rio Azul, PR. Foto gentilmente cedida por Renata Daldin Leite.




Dimorfismo Sexual

 

Bem demarcado, machos são maiores e possuem garras mais robustas e assimétricas (heteroquelia). Fêmeas possuem abdômen mais largo, e pleópodes mais desenvolvidos.





Exemplares de Aegla parana do Museu de História Natural Capão da Imbuia, em Curitiba, PR. Fotos de Renata Daldin Leite.


 


Reprodução

Atingem maturidade sexual tardiamente, possivelmente relacionado ao seu grande tamanho. Estima-se que a maturidade é atingida somente com 23 mm de carapaça nos machos, e 17 mm nas fêmeas.

Tem ciclo anual, reproduzem-se somente uma vez ao ano. O período reprodutivo dos Églas varia de acordo com a distribuição geográfica, sendo mais ampla quanto mais austral for a distribuição. No caso, o pico reprodutivo da espécie ocorre em julho quando as temperaturas e chuvas são menores.

Produzem poucos ovos de grandes dimensões, apresentam desenvolvimento pós-embrionário direto, onde as fases larvais completam-se ainda dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos já com características semelhantes ao adulto. É provável que esta espécie tenha também cuidado parental, mas não existem ainda informações.

 
 

 


Aegla parana fotografada em Pinhão, PR. Note as grandes dimensões do animal. Foto gentilmente cedida por Renata Daldin Leite.



Comportamento

 

São animais totalmente aquáticos, devem ser criados em aquários, não necessitando de uma porção emersa.

Apesar das grandes garras, não são animais agressivos, podendo ser mantidos com peixes ou com outros Aeglas, independente do sexo. Comportamento gregário, em especial animais juvenis. Hábitos noturnos, passando o dia entocado, saindo à noite para se alimentar.

Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação completa da carapaça.

 
 





Aegla parana fotografada em Chopim, Palmas, PR. Os espinhos na carapaça, quelas e pernas são bem visíveis nestas imagens. Fotos gentilmente cedidas por Márcio Netto Lebre.



Alimentação

 

Não é exigente quanto à alimentação, na natureza são onívoros, se alimentando de detritos e material orgânico em decomposição, vegetal e animal.



 

 

Bibliografia:
  • Bond-Buckup G. Família Aeglidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
  • Bond-Buckup G, Buckup L.1994. A família Aeglidae (Crustacea, Decapoda, Anomura). Arch. Zool., São Paulo, 2 (4): 159-346.
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  • Castilho AL. Variação longitudinal do crustáceo Aegla parana Schmitt, 1942 na bacia do rio Iguaçu, Paraná, Brasil. Projeto de pesquisa – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Câmpus Botucatu, Instituto de Biociências de Botucatu, Departamento de Zoologia. Botucatu, SP 2017.
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  • Schafaschek AM. Biologia de Aegla parana Schmitt, 1942 (Crustacea, Decapoda, Aeglidae) na sub-bacia do Rio Negro, bacia do Alto Iguaçu, sul do Brasil. Dissertação (Mestrado em Ciências Biológicas, área de Zoologia) – Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2019.




Agradecemos ao médico veterinário Fábio André Pinheiro de Araújo e aos zoólogos Renata Daldin Leite e Márcio Netto Lebre pela cessão das fotos para o artigo.
 
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