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Parastacus varicosus  
Artigo publicado em 24/09/2020, última edição em 28/09/2020  



Lagostim-de-água-doce – Parastacus varicosus

 

Nome em português: Lagostim-de-água-doce
Nome em inglês: -
Nome científico: Parastacus varicosus Faxon, 1898

Origem: Brasil (SC e RS), Uruguai e Argentina

Tamanho: até 10 cm
Temperatura: 17-30° C
pH: neutro a discretamente ácido

Dureza: média
Reprodução
: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: pacífico


 

Importante!!

 

            O Parastacus varicosus não é mencionado nas espécies listadas como em risco na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção publicada em Dezembro de 2014 pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), ou na lista de espécies do estado do Rio Grande do Sul, publicado pelo MMA em 2014. Porém, um consenso de especialistas publicou um artigo avaliando o estado de conservação dos lagostins sul-americanos (Almerão MP, et al. 2014), onde a espécie é mencionada na categoria IUCN "dados deficientes" (DD). A página oficial do IUCN também lista esta espécie como DD.

            Desta forma, a rigor, sua coleta e manutenção em cativeiro são legalmente permitidas, mas sugerimos fortemente que não sejam feitas, dada a escassez de informações sobre o real estado de conservação desta espécie.


 

Apresentação

Os Lagostins dulcícolas brasileiros são um grupo bastante peculiar de decápodes, com particularidades que os tornam bastante distintos dos Lagostins mais comumente encontrados como animais de aquário. Existem cerca de uma dúzia de espécies de Lagostins de água doce no Brasil, todos do gênero Parastacus, muitas espécies recentemente descritas (veja a lista completa   aqui ). Embora sejam chamados de “aquáticos”, na realidade são espécies escavadoras, que passam boa parte da sua vida enterrada em tocas construídas em terrenos úmidos e alagados.

Têm uma distribuição bastante restrita no país, sendo encontrados somente nas planícies do extremo sul (estados de RS e SC), habitando preferencialmente áreas pantanosas e margens de pequenos córregos.

Nestas espécies brasileiras, existem dois padrões distintos de comportamento e modo-de-vida: as espécies chamadas de “fossoriais”, que escavam tocas profundas em locais pantanosos, vivendo em bolsões de água com baixa oxigenação no fundo destas tocas; e as espécies que habitam locais marginais de pequenos riachos de fraca correnteza, ocultos em meio aos detritos, raízes da vegetação ciliar, ou escavando tocas mais superficiais. O Parastacus varicosus pertence ao segundo grupo (“não-fossoriais”), e é uma espécie com distribuição relativamente ampla dentre os lagostins nativos.

 

            Etimologia: O nome Parastacus vem do nome de outro gênero de lagostins dulcícolas da Eurásia, Astacus (do grego αστακός, astacós, significa lagosta ou lagostim), com o prefixo grego para (junto com, além de, alterado, contrário). Os Parastacus eram originalmente classificados como Astacus. E varicosus tem origem no latim, significa “com muitas veias dilatadas”, de varic-, varix significando veia dilatada. Que por sua vez, tem origem no grego, varicose significa uvas (a semelhança de veias dilatadas com cachos de uvas). Não é claro o motivo da escolha do epíteto, talvez uma menção à esculturação proeminente na carapaça.

 

 

 

Origem

O Parastacus varicosus é encontrado numa faixa litorânea oriental do Sul da América do Sul, de Pelotas (RS, Brasil) a Montevideo (Uruguai), além de áreas na região litorânea de SC. Há registros também no nordeste da Argentina, em Entre Ríos.

O artigo original de Faxon (1898) descreve a origem do espécime-tipo como sendo de Colima, México, mas certamente trata-se de um erro. Algumas fontes antigas mencionam a ocorrência da espécie no Chile, mas é quase certo que seja um erro de identificação.


 



Distribuição geográfica de Parastacus varicosus. Imagem original Google Maps; dados de Buckup L. In: Melo GAS. 2003.




Fotos da região de Banhado onde foram encontardos os P. varicosus das fotos, em Arroio dos Ratos, RS. Fotos de Evandro Benke.



Aparência

 

Seu aspecto lembra bastante os demais lagostins límnicos, com o corpo cilíndrico, primeiro par de patas adaptadas na forma de robustas quelas, um abdômen longo e musculoso terminando em urópodos dispostos em um leque caudal. Pernas ambulatórias dispostas lateralmente, além das garras maiores, os dois primeiros pares ambulatórios também possuem pequenas quelas.

Porém, uma análise mais minuciosa mostra algumas adaptações para seus hábitos escavadores, tendo um abdômen relativamente curto, devido à perda da sua importância como estrutura locomotora. Os quelípodos são curtos e globosos, e os dáctilos se movem em um plano vertical, para maior eficácia durante o processo de escavação e transporte de material.

Coloração parda, numa tonalidade cinza acastanhada.

Em relação aos demais Parastacus brasileiros, o P. varicosus pode ser identificado baseado na presença de pêlos longos, reunidos em tufos, cobrindo toda a face interna dos quelípodos; margem dorsal e ventral da palma quase retilíneas.

Seu rostro é longo, acuminado, dorsalmente plano e piloso, estendendo-se até o meio do último segmento antenular. Carenas pós-orbitais muito elevadas no trecho anterior, projetando-se, no extremo anterior, em forma de um robusto espinho cônico. No trecho posterior as carenas pós-orbitais se transformam em elevações calosas convergentes. Aréola limitada, bilateralmente, por carenas elevadas e de aspecto serrilhado em sua face externa. Margem distal do telso largamente arredondada e bilateralmente armada com um espinho nítido.






Parastacus varicosus, fotografado no Arroio dos Ratos, RS. Imagens cortesia de Evandro Benke.

 

 

Parâmetros de Água

 

Habitam ambientes bastante estáveis, são sensíveis a variações e condições inadequadas de água. Por este motivo, muitas vezes são usadas por pesquisadores como bioindicadores.

Como todos os Parastacus, são sensíveis a altas temperaturas, uma causa comum de insucesso na sua manutenção em cativeiro. São mais comuns em águas neutras, de dureza média. A temperatura média dos locais de coleta foi de 17º C no inverno e 30º C no verão. O pH era estável, entre 6.3 e 7.0.

 


Parastacus varicosus, filmado no Arroio dos Ratos, RS. Vídeo cortesia de Evandro Benke.


 

Dimorfismo Sexual e Reprodução

Todos os Parastacus brasileiros são intersexuados, apresentando orifícios genitais masculinos e femininos no indivíduo adulto, poro genital masculino no coxopodito do pereiópodo 5, e poro feminino no coxopodito do pereiópodo 3.

Ainda não é claro o padrão sexual do P. varicosus, há trabalhos de populações do Uruguai mostrando gonocorismo, e de populações brasileiras indicando hermafroditismo protrândrico, talvez por alguma influência ambiental.

Não há diferença no seu aspecto externo, todos os indivíduos apresentando orifícios masculinos e femininos no indivíduo adulto. Porém, com a dissecção e análise da anatomia interna é possível a identificação de gônadas masculinas (testículos), femininas (ovários) e transicionais (ovotestis).

Todos os lagostins têm fertilização externa. Durante a cópula, o macho deposita seu espermatóforo na superfície ventral da fêmea. Quando os oócitos maduros são liberados através dos gonóporos femininos, o espermatóforo se dissolve e os espermatozóides ficam livres. Os oócitos são então fertilizados externamente, e são agrupados em uma massa que é fixada aos pleópodos por uma substância adesiva.

Produzem ovos de grandes dimensões, apresentam desenvolvimento pós-embrionário direto, onde as fases larvais completam-se ainda dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos já com características semelhantes ao adulto, sem fase larval. Muito provavelmente esta espécie mostra cuidado parental, os filhotes permanecem fixos aos pleópodos da mãe, até ficarem independentes.

O período reprodutivo se inicia nos meses da primavera e estende-se até os meses do verão.





Juvenis de Parastacus varicosus, fotografado no Arroio dos Ratos, RS. Imagens cortesia de Evandro Benke.



Comportamento

 

É uma espécie com hábitos fossoriais menos exacerbados, encontrado em águas lênticas e lóticas de pequeno volume e correnteza fraca, ocultando-se sob detritos nos remansos dos arroios ou entre as raízes da mata ciliar, construindo suas galerias nas margens ou no fundo do leito dos cursos d´água. Escavam galerias rasas e espiraladas que terminam numa câmara de habitação onde geralmente há somente um indivíduo, mas eventualmente podem ser encontrados dois lagostins.

Os animais têm hábitos noturnos, deixando as suas habitações subterrâneas para partir em busca de alimento no interior da água ou nos ambientes emersos paludosos mais próximos. Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação completa da carapaça.

 

 
 

Alimentação

 

Estes animais são onívoros oportunistas, sendo que a dieta consiste principalmente de detritos de origem vegetal. Análises histológicas viscerais também sugerem uma dieta rica em carboidratos e pobre em proteína, condizente com detritos vegetais.

  

 



Parastacus varicosus, fotografado no Arroio dos Ratos, RS. Imagens cortesia de Evandro Benke.



Manutenção em cativeiro

 

Como já mencionado, os lagostins nativos são animais ameaçados, embora o Parastacus varicosus não conste em relações oficiais como o Livro Vermelho do Ministério do Meio Ambiente e IBAMA, por carência de dados (DD pelos critérios do IUCN). Desta forma, sugere-se que esta espécie não seja coletada na natureza, ou criada em aquários.

 
 

 

Bibliografia: 

  • Buckup L. Família Parastacidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
  • Rudolph E, Almeida A. On the sexuality of South American Parastacidae (Crustacea, Decapoda). Invertebrate Reproduction and Development. 01/2000; 37:249-257.
  • da Silva-Castiglioni D. Biologia reprodutiva do lagostim Parastacus varicosus Faxon, 1898 (Decapoda: Parastacidae) da Bacia do Rio Gravataí, Rio Grande do Sul. 2006. Tese (Mestrado em Biologia Animal) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
  • Faxon CE. Observations on the Astacidae in the United States National Museum and in the Museum of Comparative Zoology, with descriptions of new species. Smithsonian Institution Press, Washington, 1898.
  • Hobbs Jr. HH. 1989. An illustrated checklist of the American crayfishes (Decapoda: Astacidae, Cambaridae, and Parastacidae). Smithsonian Contributions to Zoology 480:1–236.
  • da Silva-Castiglioni D, Oliveira GT de, Bond-Buckup G. Dinâmica do desenvolvimento das gônadas de Parastacus varicosus (Crustacea, Decapoda, Parastacidae). Iheringia, Sér. Zool. 2006 Dec; 96(4): 413-417.
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  • Rudolph E, Verdi A, Tapia J. (2001) Intersexuality in the burrowing lagostins Parastacus varicosus Faxon, 1898 (Decapoda, Parastacidae). Crustaceana 74, 27-37.
  • Buckup, L. 2010. Parastacus varicosus. The IUCN Red List of Threatened Species 2010: e.T153641A4525510. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2010-3.RLTS.T153641A4525510.en
  • Oliveira GT, Oliveira LFF de, Silva-Castiglioni D da, Dutra BK, Bond-Buckup G. Metabolismo intermediário do tecido branquial do lagostim Parastacus varicosus (Decapoda, Parastacidae) na Bacia do Rio Gravataí, Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Biociências (Online), v. 8, p. 53-58, 2010.
  • Rogers DC, Magalhães C, Peralta M, Ribeiro FB, Bond-Buckup G, Price WW, Guerrero-Kommritz J, Mantelatto FL, Bueno A, Camacho AI, González ER, Jara CG, Pedraza M, Pedraza-Lara C, Latorre ER, Santos S. Chapter 23 - Phylum Arthropoda: Crustacea: Malacostraca. In: Thorp and Covich's Freshwater Invertebrates (Fourth Edition), Editors: D. Christopher Rogers, Cristina Damborenea, James Thorp. Academic Press, 2020. p. 809-986.



Agradecemos ao amigo Evandro Benke pela cessão de fotos e vídeos para o artigo.

 
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