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"Procambarus clarkii"  
Artigo publicado em 10/01/2012, última edição em 28/09/2015  

Nota: ATENÇÃO!

 

Esta espécie de lagostim está proibida no Brasil por se tratar de uma espécie invasora e de alto poder de proliferação, com potencial de causar graves prejuízos ambientais. Existe uma Portaria específica do IBAMA de 28 de Janeiro de 2008, proibindo a introdução, reintrodução, importação, comercialização, cultivo e transporte de animais vivos em todo o território nacional. A proibição é válida também para aquaristas amadores. Caso você veja alguém com algum animal destes, informe-o sobre a sua proibição. E caso conheça alguma loja ou criadouro que tenha estes animais, DENUNCIE.

 



Lagostim Vermelho - Procambarus clarkii (Girard, 1852)

Nomes em inglês: Louisiana crayfish, Red swamp crayfish

 

Origem:

Sua distribuição nativa original é a região nordeste do México e centro-sul dos EUA. É uma espécie introduzida em todos os continentes exceto Antártida e Oceania, sendo considerada a espécie de lagostim de água doce mais cosmopolitana. Presente como invasor inclusive no Brasil.

 

Características:

Aspecto usual dos lagostins, corpo dividido em cefalotórax e um abdômen alongado, segmentado. Cinco pares de apêndices torácicos (pereiópodes), os três primeiros quelados, o primeiro par na forma de grandes garras simétricas, bastante desenvolvidas. Antenas longas e flexíveis.

Adultos costumam ter uma coloração vermelho escura, ou em tons de marrom. O abdômen pode mostrar uma mancha mais escura, em forma de cunha. As garras possuem tubérculos vermelho-vivo. Os filhotes costumam ter uma coloração verde-acinzentada, eventualmente com bandas escuras.

Embora a variedade selvagem vermelha seja a mais comum, existem diversas outras, como a azul, branca, laranja e negra, inclusive com relatos de mudança de cor durante a sua criação em cativeiro. Veja um artigo sobre este assunto  aqui .

Podem atingir um comprimento máximo de 15 cm.





Procambarus clarkii em visão lateral. Fotos de Cinthia Emerich.


Formas laranja, branca e azul. Fotos de Andy (PlanetInverts).

 

Dimorfismo sexual:

A melhor forma de distinção é através da análise da região ventral do abdômen. Nos machos, os dois primeiros pares de pleópodes são bem desenvolvidos, adaptados como órgãos copuladores. Nas fêmeas, o primeiro par é vestigial, e o segundo não tem qualquer modificação. Existem outras diferenças, como o gancho copulador nos machos durante a fase reprodutora, e as aberturas genitais, mas são de avaliação mais difícil.






Closes na carapaça, região bucal e quelas de Procambarus clarkii. Fotos de Cinthia Emerich.

 

Habitat e Comportamento:

É um animal extremamente adaptável, tolerante e fecundo, é considerada a espécie de crustáceo decápodo com a maior plasticidade ecológica. Habita variados ambientes aquáticos, desde lagos, cursos de água, até áreas de transição que sofrem alagamentos periódicos. Ocorrem também em áreas agrícolas, canais de irrigação e reservatórios.

 

Territorial e agressivo, não podem ser mantidos com outros animais em cativeiro. Têm comportamento canibal, especialmente se criado em altas densidades. Onívoro, com dieta preferencial carnívora. Destrói plantas ornamentais. Tornam-se vulneráveis após a ecdise, podendo ser atacados por peixes e outros lagostins. Porém, mostram na natureza um comportamento social, com relações hierárquicas de dominância, tanto em adultos quanto juvenis, aparentemente baseada em tamanho. 

 

Suporta moderada salinidade, ambientes hipóxicos, temperaturas extremas e algum grau de poluição. Habita também locais que sofrem alagamentos periódicos, entocado, sobrevive emerso por até 4 meses, desde que haja alta humidade. Prefere água dura, e temperaturas mais elevadas. A temperatura ideal é entre 21 e 27º C.

 

Hábitos noturnos, permanecendo entocado durante o dia. Suas atividades principais de alimentação, cópula e lutas territoriais ocorrem à noite. Entoca-se também por períodos prolongados quando as condições são desfavoráveis, como períodos de seca e frio.

 

Longevidade de 3 a 5 anos (casos registrados de até 6 anos).

 

Assim como os demais crustáceos, realizam mudas (ecdises) para o crescimento, abandonando sua carapaça antiga. As ecdises são mais frequentes em animais juvenis, de início, realizam mudas a cada 5~10 dias. Indivíduos adultos realizam mudas somente uma a duas vezes ao ano. Antes da ecdise, o lagostim adquire uma coloração mais escura, e suspende sua alimentação. Surge também uma banda de cor clara entre o cefalotórax e o abdômen.




Closes de Procambarus clarkii. A segunda imagem mostra bem os dois primeiros pares de pernas ambulatórias também com pequenas quelas. Fotos de Cinthia Emerich.

 

Reprodução:

A reprodução é essencialmente sexuada, mas existem casos registrados de partenogênese. Reproduz-se em qualquer época do ano, mas é mais comum ao final da primavera e início do verão. Geralmente se reproduz de uma a três vezes ao ano.

 

Um aspecto bastante peculiar do ciclo biológico deste lagostim, e dos demais membros da família Cambaridae, é a alternância de dois morfotipos nos machos, reprodutora (forma I) e não-reprodutora (forma II). Desta forma, possuem um dimorfismo cíclico, alternando períodos de atividade reprodutiva e períodos de crescimento somático. Após um período reprodutivo que dura 8 a 9 meses ao ano, passam por uma muda, revertendo para uma forma sexualmente imatura. Nesta fase, os machos não têm ganchos copuladores e os órgãos copuladores são amolecidos e de cor clara. Porém, são bastante ativos, alimenta-se vorazmente, com um crescimento rápido. As fêmeas também apresentam esta alternância nas formas, mas este só é evidente no seu comportamento, na receptividade aos machos.



Morfotipos e dimorfismo sexual de Procambarus clarkii. A primeira imagem à esquerda mostra um macho Morfotipo I (forma reprodutiva), com o órgão copulatório mais calcificado, e os ganchos copulatórios nos ósquos dos pereiópodos 3 e 4 (seta). A segunda imagem é de um macho Morfotipo II (forma não-reprodutiva), sem os ganchos copulatórios e o órgão copulatório mais mole. A última foto é de uma fêmea, com o primeiro par de apêndices abdominais vestigiais, e o annulus ventralis. Adaptado de Loureiro TG, et al. Nauplius 2015 (Licença Creative Commons).


 

A reprodução em si se inicia com uma dança nupcial, onde o macho corteja a fêmea, e termina suavemente colocando-a com seu ventre para cima. Há a deposição do espermatóforo em uma estrutura localizada entre a base das pernas posteriores, chamada de annulus ventralis, que é o receptáculo seminal (não é o póro genital). Algumas semanas a meses depois, a fêmea se entoca e termina a maturação dos ovos, libera-os, e neste momento são fertilizados. A fêmea adulta pode sobreviver emersa, dentro da toca, em alta umidade, mas para a oviposição é necessário um local aquático. Eventualmente a oviposição pode se dar em águas livres. Uma fêmea grande pode produzir até 700 ovos, são ovos pequenos, menores do que outros lagostins, medindo 0,4 cm de diâmetro. Estes permanecem fixos nos pleópodes abdominais, e o período de incubação dura 3 semanas. Após nascerem, os filhotes permanecem fixos à região abdominal da fêmea por 8 semanas, caracterizando cuidado parental. Neste período passam por duas ecdises. Os filhotes crescem rapidamente, atingem 2 cm em um mês, e 8 cm em três meses. Atingem maturidade sexual com cerca de 6 cm (3 meses).

 

Após o período de reprodução, os machos passam por uma fase errante onde pode haver migração em massa, caminhando por vários quilômetros em áreas secas, especialmente durante a estação chuvosa. Geralmente se tratam de machos sexualmente exaustos, sendo bastante comum a mortalidade nesta fase. Podem se dispersar por mais de 17 km em 4 dias.




Filhotes das formas branca e laranja. Fotos de Andy (PlanetInverts).

 

Impactos da invasão:

Este crustáceo é criado como alimento humano, com uma grande indústria no sul dos EUA e China. A introdução acidental destes animais representa a principal forma de invasão na maioria dos países. É usado como agente de controle biológico da esquistossomose na África. Outras formas de introdução exótica são como iscas de pesca, e animais de aquário. No Brasil, existem populações invasoras no estado de São Paulo, inclusive na APA Parque do Jaraguá (2015). Quase certamente são resultado de liberação de animais de aquário na natureza.

 

O impacto destes lagostins já é bem estudado em outros países.

São vetores assintomáticos do fungo Aphanomyces astaci, conhecido como “praga do lagostim”, responsável pela dizimação de uma grande população de lagostins nativos europeus (família Astacidae). São vetores também de diversos outros patógenos, como vírus, dentre os quais o White Spot Syndrome Virus (WSSV), bactérias (Vibrio, etc), e hospedeiros intermediários de vários vermes trematóides, dentre eles, do gênero Paragonimus, que causa doença em humanos, havendo ingestão de carne crua ou mal cozida destes animais. Acumulam metais pesados e toxinas (como de cianobactérias), podendo intoxicar seres humanos e outros animais que deles se alimentam.

 

Determinam mudanças dramáticas na fauna e flora nativa. Competem com lagostins nativos, além de predação e competição com outros organismos aquáticos, como anfíbios, moluscos, peixes, etc. Se alimentam de plantas, causando redução massa e diversidade de macrófitas.

 

Constrói tocas, levando a bioturvação e liberação de nutrientes do substrato. Causam alteração da qualidade da água e sedimentos, podendo induzir explosão populacionais de cianobactérias.

 

Causam uma série de impactos negativos em atividades de pesca e agricultura (como rizicultura), construindo tocas, destruindo barragens, levando a vazamentos de água. Alimenta-se de plantas cultivadas. Causa dano a redes, se alimentando também de ovos e alevinos em sistemas de piscicultura.

 

Em 28 de janeiro de 2008, o IBAMA emitiu uma portaria (nº 05) que proíbe a introdução, reintrodução, importação, comercialização, cultivo e transporte de indivíduos vivos do lagostim vermelho em todo território nacional. A proibição é válida também para aquaristas amadores, não sendo permitida a criação deste animal em aquários.


Lagostim invasor, capturado em Embu, SP (2001). Casal adulto retirado de uma mesma toca. Foto cedida pelo Dr. Sérgio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).


Lago de um pesqueiro, onde os animais foram coletados. No detalhe, o lagostim retirado da toca. Fotos cedidas pelo Dr. Sérgio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).




Foto de uma toca, nas margens do lago acima. Na segunda foto, o lagostim dentro da toca. Fotos cedidas pelo Dr. Sérgio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP).

 

 

Bibliografia:

  • http://www.issg.org/database/species/ecology.asp?si=608&fr=1&sts=sss&lang=EN
  • http://www.institutohorus.org.br/index.php?modulo=inf_ficha_procambarus_clarkii
  • http://www.fao.org/fishery/culturedspecies/Procambarus_clarkii/en
  • http://www.conepe.org.br/sistema/arquivos_pdf/ibama/portariasibama0102030405de290108.pdf
  • Anastácio PMSG. Ciclo Biológico e Produção do Lagostim Vermelho da Louisiana (Procambarus clarkii, Girard) na Região do Baixo Mondego. Dissertação (Mestrado – Ecologia Animal) – Departamento de Zoologia, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Coimbra, 1993.
  • Loureiro TG, Anastácio PMSG, Bueno SLS, Araujo PB, Souty-Grosset C, Almerão MP. Distribution, introduction pathway and invasion risk analysis of the North American crayfish Procambarus clarkii (Crustacea, Decapoda, Cambaridae) in Southeast Brazil. Journal of Crustacean Biology. 2015 35(1): 88-96.
  • Loureiro TG, Anastácio PMSG, Araujo PB, Souty-Grosset C, Almerão MP. Red swamp crayfish: biology, ecology and invasion - an overview. Nauplius. 2015  June; 23(1): 1-19.


Agradecimentos especiais ao Prof. Dr. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP – Laboratório de Estudo dos Eglídeos da USP), pela cessão das fotos do lagostim invasor.



As imagens adaptadas de Loureiro TG, et al. (Nauplius, 2015) estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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