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Caramujo Planorbídeo  
Artigo publicado em 10/01/2012, última edição em 18/11/2013  



Caramujo Planorbídeo

 

Os caramujos mais comumente encontrados em aquários de água doce são os Planorbídeos. Estes caramujos são encarados com um misto de amor e ódio, por um lado, existem lindas variedades ornamentais, como a rosa, azul e leopardo. Por outro lado, geralmente aparecem como invasores indesejados, podendo formar grandes populações, sendo assim consideradas pragas pela maioria dos aquaristas. Como um agravante, muitas espécies estão envolvidas no ciclo de vida do agente da esquistossomose.



Biomphalaria sp. Foto de Walther Ishikawa.


 

Taxonomia: Planorbis? Biomphalaria? Helisoma?

 

Como frequentemente acontece com caramujos dulcícolas, a identificação destes animais é bastante confusa. São popularmente conhecidos em inglês como Caramujos “Ramshorn”, uma contração de “ram´s horn” (chifre de carneiro, por isto a pronúncia correta não é “ram-xorn”). Pertencem à família Planorbidae, e na realidade englobam principalmente três tribos distintas: Planorbini, de espécies européias; Planorbulini, de espécies norte-americanas; e Biomphalariini, de espécies sul-americanas e africanas. E no aspecto externo, os Planorbis, Planorbella e Biomphalaria são indistinguíveis.




Três espécies brasileiras de Biomphalaria, em comparação com três planorbídeos exóticos comuns no aquarismo de outros países. Vejam que a distinção baseadas somente na concha é muito difícil. Fotos gentilmente cedidas por Jose Liétor Gallego.

 

Os caramujos planorbídeos comuns brasileiros são quase todos do gênero Biomphalaria. Por exemplo, estes pequenos caramujos marrons que são inadvertidamente introduzidos no aquário juntamente com plantas, ou coletados em riachos e lagos. Algumas fontes na internet descrevem estes animais como sendo Helisoma nigricans, mas este não é mais um táxon válido, atualmente esta espécie é considerada um Biomphalaria.


Biomphalaria sp. (antigo Helisoma nigricans). Foto de Cinthia Emerich.

 

Até existem alguns raros relatos de espécies norte-americanas invasoras da espécie Planorbella (antigo Helisoma) duryi no Brasil, mas são incomuns. Seu aspecto externo é muito semelhante a um Biomphalaria, e acredita-se que tenha sido introduzido na natureza por aquaristas.


Planorbis sp., exemplar norte-americano. Foto de Leonard.


 

Mas e os planorbídeos ornamentais vendidos nas lojas? Por exemplo, aqueles belíssimos “Red Ramshorns” em tons de rosa e vermelho? Quase todas as fontes na internet (inclusive em português) descrevem estes caramujos como Planorbis, porque são traduções de textos estrangeiros. Ou talvez para não passar a impressão negativa de que é a mesma espécie que transmite doenças.

 

Entretanto, é quase certo que todos os “Ramshorn” ornamentais à venda nas lojas brasileiras sejam Biomphalaria, lembrando que variedades albinas destas espécies (que são idênticas aos Planorbis albinos “Red Ramshorn”) são usadas há muito tempo em pesquisas de esquistossomose. Em diversas ocasiões, estes caramujos ornamentais brasileiros foram dissecados para identificação, e todos eram Biomphalaria albinos, principalmente B. glabrata (por exemplo, animais coletados em aquários de SP e MG) e B. tenagophila, (por exemplo, coletados em aquários de SC). Estas são as duas maiores espécies brasileiras de Biomphalaria, ambas vetores de esquistossomose.

 

O fato dos caramujos ornamentais serem potenciais vetores de doenças é um dado importantíssimo, muitas vezes desconhecido por nós aquaristas. Vale lembrar também que, por um motivo não muito claro, Biomphalarias albinas são mais susceptíveis à infecção pelo miracídeo do que variedades selvagens.


"Pink Ramshorn". Foto de Leonard.



"Blue Ramshorn". Foto de Bill Southern.


"Pink Ramshorn". Foto de Leonard.




Planorbídeo "Red Ramshorn" (Biomphalaria sp.), fotos de Chantal Wagner.



Planorbídeo "Azul Celeste" (provável Biomphalaria sp.), exemplar argentino. Foto cedida por Valeria Castagnino.


Existem dez espécies de Biomphalaria no Brasil, e uma sub-espécie. Destas, somente três são hospedeiras naturais do Schistosoma, mas duas outras são hospedeiras potenciais, havendo infecção em laboratório. O aspecto externo da concha e corpo é muito semelhante, a identificação da espécie é praticamente impossível para o não-especialista. Algumas fontes sugerem que os giros carenados do B. tenagophila podem auxiliar na identificação, mas mesmo este aspecto não é tão fácil de ser visto. Na prática, as possibilidades diagnósticas só podem ser um pouco estreitadas nos caramujos de maiores dimensões, sabendo-se o tamanho máximo que eles podem atingir. As espécies são as seguintes:   

 

Hospedeiras naturais do S. mansoni:

Biomphalaria glabrata - concha de até 40 mm de diâmetro.

Biomphalaria tenagophila - concha de até 35 mm de diâmetro.

Biomphalaria straminea - concha de até 17 mm de diâmetro.

Hospedeiras potenciais do S. mansoni:

Biomphalaria amazonica - concha de até 8 mm de diâmetro.

Biomphalaria peregrina - concha de até 16 mm de diâmetro.

Não-hospedeiras:

Biomphalaria intermedia - concha de até 12 mm de diâmetro.

Biomphalaria kuhniana - concha de até 8 mm de diâmetro.

Biomphalaria schrammi - concha de até 7 mm de diâmetro.

Biomphalaria oligoza - concha de até 5 mm de diâmetro.

Biomphalaria occidentalis - concha de até 21 mm de diâmetro.

Biomphalaria tenagophila guaibensis - concha de até 35 mm de diâmetro.

 

 


Biomphalaria sp. Foto de Walther Ishikawa.



Características e Ciclo de vida

 

Possuem conchas achatadas e em forma de disco, com um padrão planispiral, lembrando os extintos Ammonites. O nome Planorbídeo vem daí. Um detalhe curioso da concha destes animais é que eles têm espiralização sinistra, de forma idêntica aos Physa. Mas por ter este aspecto em disco, e ser carregada de forma invertida pelo animal, à primeira vista parece ter espiralização destra. Carrega a concha “de pé” quando caminha, o que permite a diferenciação dos Drepanotrema, outro planorbídeo brasileiro muito parecido, mas que carrega sua concha deitada.



Filhote de Biomphalaria sp., ainda com um aspecto mais globoso da concha. Foto de Walther Ishikawa.




Filhote de Biomphalaria sp. Foto de Walther Ishikawa.


Vivem em regiões tropicais, não sendo encontrado em locais muito frios, ao contrário dos Physa. Porém, são um pouco mais tolerantes a águas ácidas, ocorrendo também em rios da bacia amazônica, mas não em pHs abaixo de 5,6. Sobrevivem fora da água por períodos relativamente longos, retraídos dentro da concha. Algumas espécies até podem adquirir modificações morfológicas durante a fase juvenil, que aumentam sua sobrevida durante o período de seca. Durante esta retração os caramujos podem abrigar larvas de S. mansoni, tornando o seu controle mais difícil.



Biomphalaria sp. se alimentando de um pedaço de alface. Note as erosões na concha. Foto de Walther Ishikawa.

 

Semelhante aos Physa e Lymnaea, são caramujos pulmonados, necessitando retornar à superfície de tempos em tempos para respirar ar. Por este motivo, sobrevivem em águas estagnadas e pobres em oxigênio. Como recurso adicional possui hemoglobina na sua hemolinfa, o que confere uma bela coloração vermelha aos indivíduos albinos. Como os demais pulmonados, não possuem opérculo. Mostram antenas longas e delgadas, como finos tentáculos. Ao contrário dos caracóis terrestres, os olhos se localizam junto à base destas antenas.



Ovos de planorbídeo no vidro do aquário. foto de Bill Southern.

 

Alimentam-se essencialmente de algas e detritos, mas podem se alimentar de plantas aquáticas com folhas mais tenras. Consomem restos de alimentos, plantas e animais mortos. São animais hermafroditas, capazes de auto-fecundação. Deposita seus ovos envoltos numa massa gelatinosa, enfileirados e aderidos em substratos sólidos, como o vidro do aquário. Os ovos eclodem entre 3 a 5 dias, gerando pequenos caramujos, miniatura dos pais. Bastante prolíficos, superpopulações em aquários é bastante comum, geralmente relacionada a alimentação excessiva. Existe um interessante trabalho brasileiro, demonstrando que um único indivíduo de B. glabrata pode produzir cumulativamente 10 milhões de descendentes em 3 meses.



Biomphalaria sp. Foto de Juan Felipe Zulian Santos.




Biomphalaria sp.. Foto de Walther Ishikawa.




 

Esquistossomose

 

O Brasil é considerado o maior foco endêmico de esquistossomose do mundo, estima-se em 200 milhões o número de pessoas infectadas no mundo, e entre 2,5 a 6 milhões no nosso país (dados do SUS, 2011). Embora em declínio devido às campanhas governamentais, ainda é uma doença que representa um grave problema de saúde pública. No Brasil, a esquistossomose (também chamada de xistose ou barriga d´água) é causada pelo verme trematóide Schistosoma mansoni, que precisa de um caramujo aquático para completar seu ciclo de vida. Das dez espécies brasileiras de Biomphalaria, três são hospedeiras intermediárias do verme.



Biomphalaria sp. Foto de Walther Ishikawa.

 

De forma bastante simplificada, o ciclo de vida destes parasitas depende de um hospedeiro definitivo (geralmente, o homem) e um hospedeiro intermediário, que é o caramujo. Pessoas doentes eliminam os ovos do parasita nas fezes (ou muito raramente na urina), que em ambientes aquáticos eclodem, gerando larvas de vida livre (miracídeos). Estas larvas penetram o corpo do caramujo, onde se desenvolvem, e voltam a ter vida livre na forma de cercárias. Quando uma pessoa entra na água contaminada, as cercárias penetram a pele e atingem a circulação sanguínea, sofrem metamorfose e se dirigem ao fígado, onde completarão seu ciclo. Quando penetram a pele, as larvas causam um prurido no local, motivo pela qual estes locais são chamados de “lagoas de coceira”.

 

Todas as peças deste ciclo precisam estar presentes para que haja propagação da doença. Desta forma, tomadas as devidas precauções, é extremamente improvável que um caramujo infectado surja em aquários. O caramujo precisa ter sido coletado em algum local que receba os excrementos de pessoas doentes, como esgoto não-tratado.

 

Mas obviamente, se um caramujo (ou planta ornamental) for coletado numa área endêmica, o risco de doença existe. Um detalhe importante que deve ser sempre lembrado, se por ventura o caramujo estiver parasitado, a contaminação humana se dá pelo simples contato com a água do aquário. Se houver parasitas, o problema não vai ser a manipulação do caramujo, mas simplesmente colocar a mão dentro da água (numa TPA, por exemplo) vai ser suficiente para que haja contágio. Embora as cercárias eliminadas pelos caramujos morram rapidamente se não encontrarem um hospedeiro adequado (em cerca de 24 horas), o caramujo infectado elimina as cercárias de forma contínua, durante vários meses. Ou seja, a quarentena de caramujos infectados é pouco eficaz.



Outro detalhe importante que deve ser lembrado é que não há transmissão vertical do verme no caramujo. Ou seja, somente adultos coletados na natureza oferecem perigo. Filhotes nascidos em cativeiro não estão infectados, mesmo que nasçam de pais portando o verme. Mesmo os ovos coletados em ambientes contaminados são totalmente seguros.


 

Mesmo que o risco de contágio de aquaristas por esquistossomose seja bastante baixo, existe um problema tão (ou mais) grave que nos envolve diretamente. Hoje, o aquarismo representa uma via importante de dispersão destes caramujos na natureza. Somente como exemplo, a introdução do B. straminea em Santa Catarina (vetor de esquistossomose) foi muito provavelmente através de aquaristas. Biomphalarias já foram detectadas até em Hong Kong, introduzidas por aquaristas. E o recente processo de “urbanização” da esquistossomose tem como principal suspeito o aquarismo. Em Belo Horizonte surgiu recentemente um foco urbano da doença em um lago ornamental do Parque Julien Rien. Como vimos, a presença de caramujos vetores é uma condição necessária e indispensável, embora não suficiente, para o surgimento da doença. Desta forma, o foco da doença só surgiu porque haviam condições adequadas no local, ou seja, havia uma colônia de caramujos transmissores, que quase certamente são animais provenientes de aquários. Imaginem um foco de esquistossomose em um parque público com intensa visitação de famílias e crianças. Existem inclusive propostas de pesquisadores ligados à Fiocruz para que se façam campanhas de conscientização entre aquaristas e lojistas, e se proíba a criação de Biomphalarias albinas.

 

Desta forma, muito cuidado ao desprezar podas de plantas e água de TPAs, atentando para estes resíduos não atingirem corpos d´água naturais. Cuidado idêntico deve ser tomado em aquários com variedades ornamentais destes caramujos. E nunca compre plantas ornamentais ou caramujos de procedência duvidosa.



Biomphalaria sp. Foto de Walther Ishikawa.

 

 

Bibliografia:

 

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  • http://portal.saude.gov.br/svs

  • http://www.conchasbrasil.org.br



Ficha escrita por Walther Ishikawa

 

Agradecimentos especiais aos aquaristas Juan Felipe Zulian Santos e Valeria Castagnino (Argentina), e ao malacologista espanhol Jose Liétor Gallego pela cessão das fotos para o artigo.


As fotografias de Walther Ishikawa, Chantal Wagner e Cinthia Emerich estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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