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"Biomphalaria" 2  
Artigo publicado em 10/01/2012, última edição em 21/07/2019  



Caramujo Biomphalaria

 

Para a primeira parte do artigo, clique  aqui  .




Criação em Aquários

 

A criação em cativeiro de Biomphalaria já foi bastante estudado, em especial do B. glabrata, por serem vetores de esquistossomose. Estas informações podem ser extrapoladas para a criação destes animais em aquários ornamentais.

A expectativa de vida do B. glabrata é estimada em 12~18 meses na natureza, e o tempo de geração é de cerca de 5 semanas. Embora suportem ambientes hipóxicos, há melhor crescimento e reprodução em águas aeradas. Parece haver maior taxa de reprodução quando criados em recipientes rasos de plástico.

A melhor temperatura para a criação é de 24~28o C, valor ideal de 25o C. Suportam uma faixa ampla de pH, entre 4,9 e 8,9, mas a faixa ideal se situa em 7,0 + 0,2. Um valor muito baixo de pH leva a erosão das suas conchas, dentre outros efeitos danosos. Ao contrário do que muito se divulga, um pH muito elevado também é deletério para estes animais. Basta lembrar que estes caramujos são encontrados em águas ácidas / neutras na natureza (5,0~7,0), são raras em águas alcalinas. Existe outro trabalho recente avaliando a influência da dureza da água na fecundidade destes caramujos. A fecundidade é crescente à medida em que se aumenta a dureza da água, mas a diferença é mínima entre 40 e 120 mg/L de CaCO3. Lembrando que há maior mortalidade dos caramujos em durezas excessivas (acima de 75), assim, sugere-se uma dureza entre 40 e 60 mg/L.





Biomphalaria glabrata "Red Ramshorn" em aquário. Note as grandes dimensões que esta espécie pode atingir. Foto de Elton Ishikawa.

 



Biomphalaria glabrata fotografada em Ubatuba, SP. Mede cerca de 35 mm. Foto de Walther Ishikawa.








Biomphalaria intermedia, as duas primeiras fotos mostram animais coletados na natureza, e a última foto mostra seus descendentes criados em aquário. Note a diferença na estrutura e erosão das conchas. Fotos de Walther Ishikawa.




 

Esquistossomose

 

O Brasil é considerado o maior foco endêmico de esquistossomose do mundo, estima-se em 200 milhões o número de pessoas infectadas no mundo, e entre 2,5 a 6 milhões no nosso país (dados do SUS, 2011). Embora em declínio devido às campanhas governamentais, ainda é uma doença que representa um grave problema de saúde pública. No Brasil, a esquistossomose (também chamada de xistose ou barriga d´água) é causada pelo verme trematóide Schistosoma mansoni, que precisa de um caramujo aquático para completar seu ciclo de vida. Das onze espécies brasileiras de Biomphalaria, três são hospedeiras intermediárias do verme.



 






Biomphalaria glabrata
, forma selvagem, fotografada no Suriname. É o principal vetor de Esquistossomose no Brasil. Fotos gentilmente cedidas pela Associação Francesa de Conquiliologia.








Biomphalaria glabrata, animais usados em pesquisas envolvendo Esquistossomose. Fotos gentilmente cedidas pelo Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz).




De forma bastante simplificada, o ciclo de vida destes parasitas depende de um hospedeiro definitivo (geralmente, o homem) e um hospedeiro intermediário, que é o caramujo. Pessoas doentes eliminam os ovos do parasita nas fezes (ou muito raramente na urina), que em ambientes aquáticos eclodem, gerando larvas de vida livre (miracídeos). Estas larvas penetram o corpo do caramujo, onde se desenvolvem, e voltam a ter vida livre na forma de cercárias. Quando uma pessoa entra na água contaminada, as cercárias penetram a pele e atingem a circulação sanguínea, sofrem metamorfose e se dirigem ao fígado, onde completarão seu ciclo. Quando penetram a pele, as larvas causam um prurido no local, motivo pela qual estes locais são chamados de “lagoas de coceira”.

 

Todas as peças deste ciclo precisam estar presentes para que haja propagação da doença. Desta forma, tomadas as devidas precauções, é extremamente improvável que um caramujo infectado surja em aquários. O caramujo precisa ter sido coletado em algum local que receba os excrementos de pessoas doentes, como esgoto não-tratado.

 

Mas obviamente, se um caramujo (ou planta ornamental) for coletado numa área endêmica, o risco de doença existe. Um detalhe importante que deve ser sempre lembrado, se por ventura o caramujo estiver parasitado, a contaminação humana se dá pelo simples contato com a água do aquário. Se houver parasitas, o problema não vai ser a manipulação do caramujo, mas simplesmente colocar a mão dentro da água (numa TPA, por exemplo) vai ser suficiente para que haja contágio. Embora as cercárias eliminadas pelos caramujos morram rapidamente se não encontrarem um hospedeiro adequado (em cerca de 24 horas), o caramujo infectado elimina as cercárias de forma contínua, durante vários meses. Ou seja, a quarentena de caramujos infectados é pouco eficaz.



Outro detalhe importante que deve ser lembrado é que não há transmissão vertical do verme no caramujo. Ou seja, somente animais coletados na natureza oferecem perigo. Filhotes nascidos em cativeiro não estão infectados, mesmo que nasçam de pais portando o verme. Mesmo os ovos coletados em ambientes contaminados são totalmente seguros.








Biomphalaria tenagophila
, outra espécie vetora de esquistossomose, fotografadas em um arrozal proximo de Porto Alegre (RS), e na região da Baixada do Massiambú, Município Palhoça da Grande Florianópolis (SC). Fotos de Walther Ishikawa e Aisur Ignacio Agudo-Padrón.

 



Mesmo que o risco de contágio de aquaristas por esquistossomose seja bastante baixo, existe um problema tão (ou mais) grave que nos envolve diretamente. Hoje, o aquarismo representa uma via importante de dispersão destes caramujos na natureza. Somente como exemplo, a introdução do B. straminea em Santa Catarina (vetor de esquistossomose) foi muito provavelmente através de aquaristas. Biomphalarias já foram detectadas até em Hong Kong, introduzidas por aquaristas. E o recente processo de “urbanização” da esquistossomose tem como principal suspeito o aquarismo. Em Belo Horizonte surgiu recentemente um foco urbano da doença em um lago ornamental do Parque Julien Rien. Como vimos, a presença de caramujos vetores é uma condição necessária e indispensável, embora não suficiente, para o surgimento da doença. Desta forma, o foco da doença só surgiu porque haviam condições adequadas no local, ou seja, havia uma colônia de caramujos transmissores, que quase certamente são animais provenientes de aquários. Imaginem um foco de esquistossomose em um parque público com intensa visitação de famílias e crianças. Existem inclusive propostas de pesquisadores ligados à Fiocruz para que se façam campanhas de conscientização entre aquaristas e lojistas, e se proíba a criação de Biomphalarias albinas.

 

Desta forma, muito cuidado ao desprezar podas de plantas e água de TPAs, atentando para estes resíduos não atingirem corpos d´água naturais. Cuidado idêntico deve ser tomado em aquários com variedades ornamentais destes caramujos. E nunca compre plantas ornamentais ou caramujos de procedência duvidosa.










Estufa de criação de Biomphalaria glabrata, Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz. As demais fotos mostram alguns animais usados em pesquisas envolvendo Esquistossomose. Fotos gentilmente cedidas pelo Dr. Pedro Luiz Silva Pinto.




 

 

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Agradecimentos aos aquaristas Juan Felipe Zulian Santos, Tibério Graco, Andressa Malgueiro e João Vítor Serrano Linhares, aos malacologistas Aisur Ignacio Agudo-Padrón e José Liétor Gallego (Espanha), e aos colegas da Associação Francesa de Conquiliologia (AFC) , pela cessão das fotos para o artigo. Agradecimentos especiais ao Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz), por permitir fotografar os animais do seu laboratório, e valiosas informações.



As fotografias de Chantal Wagner, Cinthia Emerich e Walther Ishikawa estão licenciados sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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