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Vermes 1  
Artigo publicado em 14/01/2012, última edição em 19/03/2017  

Verminhos no aquário... devo me preocupar??

 

           Uma dúvida muito freqüente, recorrente em fóruns de aquarismo, é sobre a identificação de pequenos vermes no aquário. O primeiro pensamento que vem à mente é a de que seja um parasita intestinal dos peixes que foi eliminado junto com as fezes. Ou a de um animal que de alguma forma vai transmitir doenças a nós, aquaristas.

            Na realidade, todo aquário tem uma fauna “invisível”, de pequenos animais vivendo abaixo do substrato, dentro dos filtros, nas folhas e raízes de plantas, na superfície de pedras e troncos, e mesmo na coluna d´água. São importantíssimos no equilíbrio biológico do aquário, em especial no papel de decomposição e reciclagem de nutrientes. E os vermes são um dos componentes mais comuns e numerosos desta comunidade.

Entretanto, a detecção de um excesso destes animais é um sinal de alerta, indica um acúmulo de matéria orgânica, seja por superpopulação, alimentação excessiva ou filtragem insuficiente.

Geralmente são introduzidos junto com plantas, sendo com freqüência detectados durante a ciclagem, enquanto o equilíbrio biológico ainda não foi plenamente atingido. Em aquários estabilizados podem ser vistos em pequeno número, principalmente durante TPAs, quando o substrato é revolvido, ou imediatamente após a limpeza do filtro.

            Com raríssimas exceções, não causam doenças, e não são prejudiciais aos peixes, plantas, ou ao aquarista. As duas grandes exceções serão abordadas em artigos específicos, que são as  Planárias  e as  Sanguessugas . Outro grupo que ganhou um artigo próprio são os  Nemertinos , por serem muito confundidos com as Planárias. Sugerimos a leitura também destes artigos, já que uma situação comum em aquários é a explosão populacional de Microturbelários, um tipo de Planária.




Oligoquetas tubificídeos. Fotos de Marne Campos.



Verme Oligoqueta Dero. Foto de Walther Ishikawa.

 

Taxonomia

 

É interessante lembrar que o termo “verme” se refere a um grupo taxonômico obsoleto. Na classificação original de Lineu, ele designava verme como sendo todo invertebrado que não pertencia ao grupo dos artrópodes. É uma palavra que continua sendo usado informalmente, para todo animal alongado e/ou achatado, sem esqueleto interno ou externo, e sem membros.

O grupo inclui uma grande variedade de animais que têm estes traços em comum, mas pertencem a filos completamente distintos. Mesmo entre os animais corriqueiramente chamados de vermes, podem pertencer a grupos bem distantes filogeneticamente. Comparando uma planária, um Tubifex e um microverme, a distância filogenética entre eles é tão grande quanto entre um camarão e um caramujo.

Para complicar mais ainda, numa designação mais informal, o termo “verme” pode incluir também larvas de insetos, e até alguns vertebrados. Uma dúvida bastante comum entre aquaristas é a respeito do Bloodworm (“Verme-sangue”, numa tradução literal), um popular alimento vivo, que na realidade não é um verme verdadeiro, mas sim a larva de um mosquito. Outra confusão frequente (novamente devido ao nome enganador) é a Lernaea, um crustáceo ectoparasita comum em Kinguios, chamado popularmente de "Verme-âncora".

             Vermes são encontrados nos mais variados habitats, terrestres, marinhos, dulcícolas, muitas espécies sendo parasitas. Dentre aqueles de vida livre, que podem dar as caras nos nossos aquários, três filos importantes são os Anelídeos (poliquetas, oligoquetas, sanguessugas, etc), os Platelmintos (planárias e outros) e os Nematóides. Devido à sua importância, como vermes não inócuos à população do aquário, as Planárias e Sanguessugas serão abordadas em artigos específicos.

             Além de detalhes da morfologia do seu corpo, estes principais vermes  podem ser diferenciados de forma relativamente fácil através da forma como caminham. Oligoquetas caminham como minhocas (que também é um oligoqueta), ou seja, através de uma combinação de movimentos serpiginosos, serpentiformes, e de contração e extensão peristáltica do seu corpo. Sanguessugas usam basicamente seus dois anéis de sucção nas duas extremidades do seu corpo, inicialmente apoiam-se no disco na extremidade caudal, esticam seu corpo, "tateando" com sua cabeça um ponto de apóio, quando o encontram, fixam-se, soltam sua extremidade caudal e se contraem, como uma mola. É descrito como em "mede-palmos", semelhante a algumas lagartas. Planárias deslizam através da superfície onde caminham usando seus cílios microscópicos, parecem deslizar de uma forma bastante semelhante a caramujos:



                A forma do nado pode ajudar também na diferenciação, especialmente das Planárias. Estes vermes chatos não têm capacidade de nado, se ficarem à meia-água, ficam passivamente ao sabor da correnteza, afundando lentamente. Todos os outros vermes ao menos tentarão nadar com movimentos serpentiformes e ondulatórios. Os Oligoquetas têm um nado mais ordenado, costumam nadar mantendo a cabeça relativamente fixa, como uma serpente. E nadam impulsionados para frente, ao contrário dos Nematóides, que se movem lateralmente. Alguns oligoquetas podem ter também um nado helicoidal, em um trajeto semelhante a uma mola. Sanguessugas nadam de forma semelhante aos oligoquetas.




Oligoqueta (provavelemnte Dero ou Allonais) e Aeolosomata em um aquário. Foto de Walther Ishikawa.


Os três vermes comuns em Aquário: Oligoquetas, Aeolosomatas e Nematóides


Vermes Oligoquetas


            O filo dos Anelídeos compreende os vermes segmentados, com cerca de 17.000 espécies vivendo em ambientes terrestres, marinhos e de água doce. São tradicionalmente divididos em três grupos, Oligoquetas, Poliquetas e Sanguessugas, e é esta classificação que usaremos aqui. Mas recentes análises cladísticas demonstram que a classificação é um pouco mais complexa, as Sanguessugas sendo um sub-grupo dos Oligoquetas, e os Oligoquetas um sub-grupo das Poliquetas.

            A minhoca comum é o Oligoqueta mais conhecido, possuem corpo cilíndrico segmentados e poucas cerdas. Dois terços das cerca de 5000 espécies de Oligoquetas pertencem ao grupo dos "Megadrila" (Crassiclitellata), de maiores dimensões, e essencialmente terrestres, como a minhoca. Porém, 4 das 14 famílias têm representantes aquáticos ou semi-aquáticos, chamados de Aquamegadrili (em oposição a Terrimegadrili). Estes grandes vermes podem ser encontrados quando se desmonta o substrato de um aquário plantado, ou dentro de filtros. Um mito bastante difundido entre aquaristas é a de que são realmente minhocas terrestres, introduzidos inadvertidamente com alguma planta ou substrato fértil. Trata-se de um engano, já que minhocas comuns respiram ar através da sua pele (respiração cutânea), e morrem depois de pouco tempo submersas. Inclusive, este é o motivo das minhocas saírem da terra depois de chuvas, quando o solo fica encharcado, podendo morrer afogadas. Este mito é reforçado pelo fato das minhocas terrestres se enterrarem no substrato quando introduzidos no aquário (por exemplo, para alimentação de jumbos), mas trata-se de um reflexo, eles morrem em meio ao substrato pouco tempo depois.






Grandes oligoquetas (o maior media 5,7 cm) encontrados dentro de um filtro interno de aquário. Muitas vezes estes vermes são confundidos com minhocas terrestres. Fotos de Walther Ishikawa.



Com exceção destes vermes maiores, a maioria dos Oligoquetas de água doce são bem menores, medindo de 1 milímetro a poucos centímetros, e são chamados genericamente de "Microdrila", com cerca de 13 famílias. Todas são aquáticas, com exceção da Enchytraeidae, que inclui a Enquitréia (Enchytraeus albidus) e Verme Grindal (Enchytraeus buchholzi). São seres essencialmente bentônicos, movendo-se no substrato como minhocas, ou nadam à meia-água com movimentos serpentiformes. Sua cor é variável, desde animais brancos ou incolores até de cores avermelhadas e escuras. As mais comuns pertencem à família Naididae (previamente Tubificidae).

            Não representam qualquer perigo aos animais do aquário, muito menos a humanos. Entretanto, por serem animais detritívoros, a presença de um grande número destes vermes indica excesso de matéria orgânica. Alguns chamam estes vermes de "detritus worms" ou "threadworms". São hermafroditas, com alta fecundidade, se reproduzindo rapidamente quando há alimento disponível. São tolerantes à poluição, e suportam também algum grau de salinidade.




Oligoquetas tubificídeos. Fotos cedidas por Marne Campos.



Close de Oligoquetas tubificídeos (Limnodrilus?). Notem o corpo segmentado do verme, e o tubo digestivo visível no interior do seu corpo. Fotos de Marne Campos.


            Examinando-os com uma câmera macro, ou num microscópio, alguns sinais característicos podem ser vistos, que permitem sua correta identificação. Possuem o corpo longo e cilíndrico, como os nematóides, mas têm aspecto segmentado, com múltiplos anéis (o nome anelídeo vem daí). É só imaginar uma minhoca (que também é um oligoqueta) em miniatura. Algumas finas cerdas (setae) podem ser vistas (oligoqueta significa poucas cerdas, assim como poliqueta significa muitas cerdas), um sinal bastante útil na diferenciação com outros vermes. Diferente das planárias, possuem um tubo digestivo, com boca e ânus, geralmente visível através do seu corpo translúcido.

            Muitas vezes diferenciá-los de nematóides a olho nu pode ser bastante difícil. Como já foi mencionado, uma dica é seu padrão de nado, embora ondulatório como os nematóides, oligoquetas têm um nado mais ordenado, costumam nadar mantendo a cabeça relativamente fixa, como uma serpente. E nadam impulsionados para frente, ao contrário dos nematóides, que se movem lateralmente. Alguns oligoquetas podem ter também um nado helicoidal, em um trajeto semelhante a uma mola.


Oligoqueta naidídeo. Reparem no corpo segmentado e nas finas cerdas (setae).



Oligoqueta Dero sp. Finas cerdas e corpo segmentado são visíveis. Este gênero possui a extremidade caudal abaulada e nodular, com pequenas projeções correspondendo às brânquias, que podem se abrir como um leque. Foto de Walther Ishikawa.







Oligoqueta Dero sp. coletado juntamente com ampulárias Asolene, em Foz do Iguaçu, PR. Fotos de Walther Ishikawa.



Oligoqueta Dero sp., estes vídeos mostram bem o padrão de locomoção e nado destes vermes. Microturbelários também são visíveis nos vídeos, assim como em algumas fotos acima. Vídeos de Walther Ishikawa.




Tubifex


Um oligoqueta comumente visto no aquarismo é o Tubifex (Tubifex tubifex), que constrói tocas tubulares com muco e sedimento. Além desta espécie, muitas outras próximas da mesma família são chamadas popularmente de Tubifex, como o Limnodrilus hoffmeisteri. Podem ser vistos formando colônias aos milhares, semi-enterrados no substrato de rios poluídos. Sua cabeça fica no fundo da toca, e sua cauda fica exposta, em contínua movimentação a fim de gerar fluxo de água. Possui cor vermelha por possuir eritrocruorina, uma proteína semelhante à hemoglobina, o que permite viver em ambientes com baixa oxigenação. Até a algum tempo era muito utilizado como alimento vivo, mas estão cada vez mais em desuso. Por serem coletados em ambientes sujos, podem carrear diversos patógenos, como o Myxobolus cerebralis.

Alguns criadores têm tentado criar espécies de oligoquetas aquáticos como alimento vivo, como os do gênero Dero. São chamados popularmente de Microfex, medindo em torno de 6 mm









Vermes Tubifex. Fotos e vídeo gentilmente cedidos por Frau-Doktor.






Colônia de vermes Tubifex, fotografado em um lago temporário em St. Joan les Fonts, Girona, Espanha. Imagem gentilmente cedida por RCG Zootecnia Domestica (Licença Creative Commons BY SA 3.0). O artigo original da imagem pode ser visto 
aqui .



Vermes Tubifex em um aquário de invertebrados. Vídeo gentilmente cedido por Cláudio Moreira.



Aulophorus


Outro gênero de verme oligoqueta visto com alguma frequência em aquários é o Aulophorus. Era inicialmente classificado como Poliqueta, foi recentemente movido para o grupo dos Oligoquetas, muitos autores até o consideram como um sub-gênero de Dero. São pequenos vermes, muitos dos quais também constroem tocas tubulares com muco e sedimento, semi-enterrados no substrato, como os Tubifex. Porém, são menores, de cor rosa mais clara, e não realizam os típicos movimentos serpentiformes para manter a circulação de água. Sua cabeça fica no fundo da toca, e sua cauda fica exposta, onde muitas espécies mostram uma pequena coroa de brânquias, semelhante a pequenos tentáculos. A espécie mais comum é Aulophorus furcatus, cosmopolita, medindo até cerca de 30 mm. São comuns em águas estagnadas e ricas em macrófitas, diretamente expostas ao sol.

Assim como os Tubifex, alguns aquaristas criam estes vermes como alimentos vivos, mantendo colônias sobre substratos vegetais em decomposição, como casca de melancia e folhas de alface. Possui taxa reprodutiva muito elevada, com rendimento superior aos Tubifex. São muito sensíveis à hipóxia, necessitando areação constante e TPAs frequentes no recipiente de criação.













Vermes Aulophorus furcatus em um aquário de invertebrados. As imagens mostram bem a coroa de brânquias tentaculares na extremidade anal do animal. Fotos e vídeos gentilmente cedidos por Leandro Crespo.









Grande colônia de vermes oligoquetas, prováveis Aulophorus que se desenvolveram no substrato de um aquário. No vídeo, note a reação dos vermes quando se bate no vidro do aquário. Fotos e vídeo gentilmente cedidos por Thiago Oliveira.





Colônia de diminutos vermes em um aquário, logo acima da superfície. Parecem ser Aulophorus, notem os curtos tentáculos na extremidade caudal de alguns animais, e o corpo segmentado de diversos comprimentos. Fotos de Walther Ishikawa.




Chaetogaster limnaei limnaei

 

Dentre os Oligoquetas Naidídeos, uma espécie tem particular interesse para nós, aquaristas que criam invertebrados dulcícolas: o Chaetogaster limnaei limnaei. Esta espécie cosmopolita infesta inúmeras espécies de caramujos de água doce, tanto pulmonados (BiomphalariaPhysaPseudosuccinea, etc) quanto prosobrânquios (Melanoides, etc). São bastante numerosos em Biomphalarias. Curiosamente, não são encontradas em Pomacea.

São pequenos vermes alongados e translúcidos. Analisando-os com um microscópio, setae são visíveis somente na sua região ventral, daí seu nome. Reproduz-se essencialmente por paratomia, reprodução assexuada onde novos organismos se desenvolvem até haver divisão em dois ou mais indivíduos. Vive na superfície do caramujo, como um organismo ecto-comensal, especialmente na cavidade do manto e cavidade pulmonar, e se fixa ao hospedeiro através de uma ventosa caudal e quatro feixes de cerdas. Podem ser bastante numerosos, havendo registros de até 70 vermes/caramujo. São sensíveis a temperaturas elevadas, com acentuada redução na taxa de reprodução acima de 24º C. Por este motivo, são bastante raros em aquários tropicais.

Estes vermes flexionam seus corpos procurando seus alimentos, são um dos únicos Oligoquetas carnívoros, caçando micro-organismos aquáticos, como protozoários e rotíferos, mas alimentam-se também de diatomáceas e outras algas, além de detritos. Acredita-se que estes vermes colonizam os caramujos buscando refúgio nas suas conchas, e se alimentando de restos de alimentos deixados pelo caramujo. Desde a década de 40, estes vermes são bastante estudados por parasitologistas, porque observou-se que eles também predavam miracídeos e cercarias de vermes trematóides, inclusive oSchistosoma mansoni.

Como dito, a maioria dos autores considera estes vermes como sendo comensais, porque se beneficia da relação com seu hospedeiro sem prejudicá-lo. Outros autores sugerem um papel protetor destes vermes de infecção por trematóides, desta forma, classificando-os como mutualistas, ou seja, com efeitos positivos recíprocos entre o verme e o caramujo. Entretanto, alguns poucos trabalhos tem sugerido também um potencial efeito negativo da presença destes vermes, especialmente quando presentes em grande número. Physas com superinfecção tendiam a procurar menos alimentos, cresciam mais lentamente e tinham menor fecundidade.

Existe outra sub-espécie, C. limnaei vaghini, com comportamento distinto e endoparasita, habitando o sistema renal do hospedeiro, e se alimentando de células renais. Alguns autores defendem que se trata de duas espécies distintas, baseado em análises genéticas.





Chaetogaster limnaei limnaei sobre o caramujo Biomphalaria glabrata. Fotos gentilmente cedidas pelo Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz).




Chaetogaster limnaei limnaei coletados sobre o caramujo Bithynia tentaculata em uma lagoa da Holanda. A primeira imagem mostra um pequeno Copépode que acabou de ser ingerido. A segunda mostra um verme alongado, em processo de reprodução por paratomia. Fotos gentilmente cedidas por Jaap Cost Budde.






 

Veja a segunda parte do artigo  aqui , juntamente com a Bibliografia, créditos fotográficos e agradecimentos.

 
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