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Briozoários  
Artigo publicado em 23/07/2012, última edição em 24/12/2013  



Briozoários

 

Briozoários são pequenos invertebrados coloniais, bastante comuns no mar, mas que ocorrem também em água doce. São animais belos e fascinantes, que formam intrincadas colônias.


Pertencem ao filo Ectoprocta, resultado da divisão do antigo filo Bryozoa. No Brasil, as espécies de água doce são representadas pela classe Phylactolaemata. Apesar da atual classificação, continuam sendo chamados popularmente de “briozoários”, ou de “animais-musgo” (“moss animals”, Bryozoa - do grego bryon, musgo + zoon, animal).


São animais bastante numerosos, existem cerca de 3500 espécies vivas descritas, destas, 50 espécies das Phylactolaemata (restrita às águas continentais). No estado de São Paulo são descritas seis espécies dulcícolas, mas acredita-se que este número deva ser bem maior. São elas:

  • Fredericella sultana (Blumenbach 1779)
  • Stolella agilis Marcus 1942
  • Stolella evelinae Marcus 1941
  • Plumatella fruticosa Allman 1844
  • Plumatella repens (Linnaeus 1758)
  • Hyalinella carvalhoi Marcus 1942


Das espécies brasileiras, as Plumatellas são as mais comuns. São organismos coloniais, sésseis e cosmopolitas. A única exceção é o gênero Monobryozoon, não-séssil, que vive entre grânulos de areia no fundo do mar. Algumas espécies têm relações comensais com outros organismos, inclusive algumas dulcícolas, que crescem entrelaçadas a esponjas. Existem até algumas espécies marinhas bioluminescentes. Vivem em águas limpidas, se alimentando de plâncton.




Uma colônia de briozoário, provável Cristatella mucedo. Imagens gentilmente cedidas por Daniel Stoupin, assim como a primeira foto do artigo.



Colônias de briozoários crescem a partir de um único indivíduo, que após sua fase larval livre se fixa em algum substrato sólido, e começa sua reprodução assexuada por brotamento. Desta forma, toda colônia de briozoários é formada por clones do primeiro animal, que é chamada de ancestrula. Os indivíduos dentro da colônia são chamados de zoóides, cada zoóide mora dentro de uma cápsula secretada pelo organismo (zooecium), que pode ser de diferentes formas, e interconectadas de diferentes maneiras, dependendo da sua morfologia. As paredes dessas zooecia são reforçadas por diferentes substâncias sólidas, as mais comuns são quitina, carbonato de cálcio ou uma combinação de ambos. Cada zooecium tem uma abertura no topo, por onde o animal extende seu anel de tentáculos (chamado lophophore) quando se alimenta. Semelhante a cracas e poliquetas marinhos, estes tentáculos são rapidamente retraídos ao menos sinal de perigo. Algumas espécies estrangeiras (Pectinella) produzem também uma matriz gelatinosa no zooecium, formando grandes colônias arredondas e translúcidas parecidas com “cérebros”.




Uma grande colônia do briozoário Pectinella magnifica, fotografada no Lago Table Rock, Missouri (esta espécie não ocorre no Brasil). Fotos gentilmente cedidas por Karen Montgomery.


Dentro das colônias, os zoóides não ficam totalmente isolados, cada um deles é conectado com seu vizinho por um canal de protoplasma, permitindo assim um fluxo de nutrientes entre os indivíduos.


A maioria das colônias são totalmente sésseis, mas existem espécies (especialmente dentre as dulcícolas) que conseguem lentamente “caminhar”. Algumas espécies de Cristatella podem se mover até 10 cm por dia. Mas o recorde é de uma espécie marinha australiana, Selenaria maculata, com uma colônia em forma de disco que literalmente caminha sobre seus tentáculos, numa velocidade de um metro por hora.


Todos os briozoários são hermafroditas, apesar das colônias crescerem de forma assexuada, novas colônias podem ser formadas por reprodução sexuada ou assexuada. Na reprodução sexuada, geralmente os gametas são liberados diretamente na água, mas em algumas espécies a fecundação é interna, com variadas formas de cuidado parental. São liberadas na forma de uma “larva” natante, na realidade uma pequena colônia formada por um a quatro zooides envolta por um manto ciliado. Nadam por cerca de 24 horas, encontram um substrato adequado, o manto se desprende a uma nova colônia tem início. 30 minutos após a fixação, os lophophoros já são estendidos para capturar alimentos.


A maioria das espécies dulcícolas (todas as brasileiras) também se reproduz de forma assexuada através da liberação de formas capsuladas ovóides chamadas de estatoblastos, resistentes à dissecação, frio extremo, toxinas e anóxia, liberados muitas vezes em número muito grande. Já foram registradas até 800.000 de Plumatella por metro quadrado na costa do lago Michigan, nos EUA. Medindo cerca de um milímetro, podem ser vistos a olho nu como um sedimento marrom enegrecido junto às margens d´água. Permanecem dormentes por um período de um a seis meses, e eclodem quando as condições voltam a ser favoráveis. Estes estatoblastos são muito resistentes, já foram documentados casos de organismos dispersos através de aves migratórias, com estatoblastos resistindo intactos ao trato digestivo destas aves.  







Briozoários que surgiram em um lago externo em Mönchengladbach, Alemanha. Fotos gentilmente cedidas por Wolfgang Gerkes.






Briozoários que surgiram em um lago externo em Mönchengladbach, Alemanha. Juntamente a estes animais, podem ser vistos também protozoários coloniais Vorticella. Fotos gentilmente cedidas por Wolfgang Gerkes.



Briozoários no aquário

 

Os Briozoários são, com alguma frequência, encontrados em aquários de água doce. Por serem animais que preferem locais escuros, corrente de água, e partículas em suspensão, os locais mais comumente encontrados é no interior de filtros. Podem ser detectados também aderidos a troncos e plantas aquáticas, mas geralmente em locais de maior movimentação de água, como próximos à saída de filtros. Algumas espécies são mais resistentes a extremos de temperatura (como a Internectella, do mesmo grupo da Fredericella, que vive em águas termais de até 37º C), mas todas elas são sensíveis a poluentes e outras substâncias tóxicas, sendo muitas vezes usadas como indicadores da qualidade d´água. Na realidade, estes organismos possuem estruturas hibernantes que permitem à colônia sobreviver em condições bastante adversas, com um novo crescimento da colônia após sua aparente morte. Mas um crescimento exuberante da colônia só ocorre se as condições estiverem adequadas.



Colônia de briozoário sobre um musgo, em um aquário plantado. Foto de Felipe Aoki.





Uma grande colônia de briozoário encontrado no interior de um filtro, fotos de Airton Zanetti.



Desde o século 18, espécies dulcícolas, inclusive de gêneros encontrados no Brasil (como Fredericella e Plumatella) causam sérios problemas de entupimento de encanamentos de abastecimento de água, nos canos que recebem água não-tratada de reservatórios naturais. Desta forma, seria de se esperar que causassem problemas semelhantes em aquários, obstruindo canos de filtros, etc. Por um motivo desconhecido, isto não acontece, talvez por serem animais mais sensíveis, que não têm um crescimento tão explosivo no ambiente do aquário.


Da mesma forma, a detecção destes animais no aquário não deve ser motivo de preocupação, como ocorreria nas explosões populacionais de vermes oligoquetas ou ostracóides. Pelo contrário, estes seres proliferam somente em aquários maturados e estáveis, representando um ótimo bio-indicador de que o aquário vai bem! Só é importante lembrar que Briozoários fazem parte da dieta natural de diversos animais, como diversos peixes de fundo, como cascudos. Em especial, as Ampulárias são grandes devoradoras de Briozoários, e não devem ser mantidos junto com estes animais.


Colônia de briozoário em um tronco, no aquário. Foto de Daniel Machado.



Briozoários no sump, aderida ao vidro. Foto de Daniel Machado.





Colônia de briozoário em uma rocha, no aquário. Fotos de Daniel Machado.



 

Bibliografia:

  • http://www.biota.org.br/
  • http://www.earthlife.net/
  • http://www.bryotechnologies.com/



Artigo escrito por Walther Ishikawa, com colaboração de João Victor Lucas.


Agradecimentos aos colegas aquaristas Airton Zanetti e Daniel Machado, ao colega alemão Wolfgang Gerkes, e à colega norte-americana Karen Montgomery pela cessão das fotos para o artigo. Outras fotos foram cedidas pelo zoólogo e fotógrafo Daniel Stoupin, que mantém uma fantástica página sobre macrofotografia,  Microworlds . E parte deste artigo foi baseado nas informações do  EarthLife Web , uma ambiciosa iniciativa do biólogo Gordon Ramel em sistematizar as informações sobre as formas de vida do planeta, ao qual também somos gratos.
 
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