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Besouros aquáticos 1  
Artigo publicado em 08/10/2012, última edição em 15/01/2017  



Besouros aquáticos


Quase um em cada três espécies animais no planeta são besouros. É a maior ordem de insetos, são conhecidas mais de 400.000 espécies de besouros no mundo, dos quais mais de 5.000 são aquáticas ou semi-aquáticas. Destes, cerca de 2.000 são encontrados na América do Sul.

Besouros (insetos da ordem Coleoptera) adultos são facilmente reconhecidos pelo seu corpo blindado por um espesso exoesqueleto, asas anteriores (élitros) enrijecidas, usadas para proteger as asas posteriores e parte do seu corpo. Estas asas anteriores não são usadas diretamente no voo, permanecendo imóveis como as asas de um avião, enquanto as posteriores membranosas vibram e fornecem o impulso. Linnaeus foi feliz, portanto, ao dar o nome Coleoptera a esta ordem de insetos (do grego κολεός - koleos), bainha, estojo e (πτερόν - pteron), asa.

As larvas, por outro lado, têm formas mais variadas, quase sempre com peças bucais mastigadoras, porém, algumas com peças bucais sugadoras. Podem ter pernas bem desenvolvidas, ou não. São insetos holometábolos, ou seja, possuem metamorfose completa, passando por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto.

 

Há evidências de que diversas linhas evolutivas adaptaram-se, independentemente, à vida aquática. Alguns autores acreditam que os coleópteros invadiram ambientes aquáticos cerca de dez vezes independentemente ao longo da evolução do grupo. Isto explica a grande diversidade de adaptações aquáticas, e torna a generalização de sua ecologia e ciclos de vida difícil.

As famílias com representantes aquáticos podem ser encontradas em todos os tipos de ambientes aquáticos, mas são mais numerosas em habitats lênticos (águas sem correnteza). A maioria deles são hábeis voadores, o que explica parte do seu sucesso adaptativo, permitindo maior dispersão, maior amplitude para procura de parceiros reprodutivos, ou a possibilidade de explorar ambientes com melhores condições. Permite também colonizar ambientes temporários, mesmo sujeito a perturbações periódicas. São atraídas pela luz, não raro invadindo casas.

Os besouros aquáticos são distribuídos em 20 famílias, geralmente tanto larvas quanto adultos são aquáticos (onze famílias), mas em alguns grupos, apenas uma fase da vida é aquática. Outras ainda vivem marginalmente nos corpos de água, e há, por fim, algumas famílias tipicamente terrestres, mas que possuem algumas espécies aquáticas. Quase todas as espécies possuem pupas não-aquáticas.

Destas, três famílias de destacam, tanto pela frequência, quanto pelo número de espécies: Hydrophilidae, Dytiscidae e Gyrinidae. No Brasil, todos são conhecidos popularmente como “besouro d´água”.



Gyrinus sp. (Gyrinidae), submerso com seu suprimento de ar, junto a uma Planária. Foto de Walther Ishikawa.

 

Besouros da família Gyrinidae são facilmente reconhecíveis, mas a distinção entre besouros das duas primeiras famílias pode ser difícil. Alguns sinais úteis são:

 

Hydrophilidae

Dytiscidae

Antenas e palpos bucais

Antenas curtas e palpos bucais longos.

Antenas longas e segmentadas, palpos bucais curtos.

Padrão de nado

Maus nadadores, nada com movimentos alternados das patas traseiras, como se caminhassem freneticamente à meia-água.

Bons nadadores, nada com movimentos sincrônicos das patas traseiras, usando-as como remos, como uma rã.

Suprimento de ar

Levam um suprimento de ar adicional nos pelos hidrófobos da região ventral do corpo. Quando repõe o ar, o faz com a região anterior do corpo, usando as antenas.

Levam o suprimento de ar abaixo das asas dianteiras. Quando repõe o ar, o faz com a região posterior do corpo, emergindo a extremidade do abdômen.




Comparação entre as regiões cefálicas de um Besouro Hidrofilídeo (esquerda) e Distiscídeo (direita): note os grandes palpos maxilares no primeiro (que parecem até antenas), com três segmentos, e as longas antenas multissegmentadas no segundo. Fotos de Walther Ishikawa.


Comparação entre as regiões ventrais de um Besouro Hidrofilídeo (esquerda) e Distiscídeo (direita): note o plastrão de ar no primeiro, com um aspecto metálico, e a ausência de plastrão no segundo. Hidrofilídeos repõem o suprimento de ar emergindo a cabeça, e os Ditiscídeos emergindo a extremidade do abdomen (segunda imagem). Fotos de Walther Ishikawa.


Comparação do padrão de nado entre um Besouro Distiscídeo e Hidrofilídeo (veja texto).

 

As larvas das duas famílias também são bem parecidas, alongadas, com pernas bem desenvolvidas, grandes mandíbulas curvas e aspecto agressivo. Algumas dicas para identificação:

Hydrophilidae: Cabeça sem constrição posterior. Uma unha na extremidade das pernas. Pernas com quatro segmentos. Abdômen sem estruturas especiais na extremidade.

Dytiscidae: Cabeça geralmente com constrição posterior. Duas unhas na extremidade das pernas. Pernas com cinco segmentos. Abdômen termina geralmente em um par de urogomphi.

 


 

Besouros Hidrofilídeos:

São conhecidos em inglês como “water scavenger beetles” (besouro aquático lixeiro), pelos seus hábitos alimentares, ou no Reino Unido como “silver water beetle” (besouro aquático prateado), pelo aspecto metálico que sua região ventral adquire debaixo d´água, devido ao suprimento de ar que leva. São os besouros aquáticos mais comuns no Brasil, e os maiores besouros são deste grupo (até 5,5 cm). Seu nome vem do grego hydor (água) e philos (amigo).

São besouros ovais e achatados, o aspecto mais comum é negro e brilhante, mas podem ter padronagens e cores variadas, podem ser foscos ou metalizados. Membros com proporção usual, ao contrário dos Gyrinidae. Uma característica marcante destes besouros e a presença de longos palpos maxilares, estruturas bucais longas, frequentemente confundidas com antenas, as quais são curtas e achatadas.

Os Hidrofilídeos têm larvas predatórias, e os adultos são onívoros ou herbívoros, geralmente detritófagos e carniceiros, se alimentando de material em decomposição. Algumas poucas espécies se alimentam também de pequenos animais. Larvas são vorazes predadoras, se alimentam de pequenos invertebrados, muitas delas apresentando comportamento canibal.

Os adultos respiram ar, armazenam ar abaixo das asas dianteiras, mas também levando um suprimento de ar adicional na região ventral do seu corpo, junto a pelos hidrófobos, chamado de plastrão. Este plastrão fica com um belo efeito metalizado quando visto de baixo d´água, e é uma forma de diferenciar estes besouros dos Dytiscidae. Larvas podem possuir brânquias, absorvendo oxigênio diretamente da água, ou possuírem tubos traqueais, indo à superfície de tempos em tempos para obter ar.


Vivem em diversos ambientes, águas paradas ou com correnteza. Toleram salinidade, e até certo grau de poluentes. Nadam, mas são maus nadadores, dando a impressão de estarem andando freneticamente à meia água, com movimentos alternados das patas.








Besouros hidrofilídeos fotografados em Poços de Caldas, MG. Medem cerca de 2 cm. Vejam o grande plastrão metálico na região ventral. Em algumas fotos também é visível seus palpos bucais bastante longos. A primeira imagem do artigo também é destes animais. Fotos de Walther Ishikawa.





Outro diminto besouro hidrofilídeo medindo cerca de 5 mm, também fotografados em Poços de Caldas, MG, coletados no mesmo córrego dos besouros acima. Fotos de Walther Ishikawa.







Besouros hidrofilídeos medindo cerca de 10 mm, fotografados num pequeno córrego junto ao Rio Paraná, em Foz do Iguaçu, PR. Fotos de Walther Ishikawa.











Besouro hidrofilídeo terminando de construir sua bolsa de ovos, em Ribeirão Preto, SP. Fotos e vídeos gentilmente cedidos por Vagner Ramos.











Larva de besouro hidrofilídeo medindo cerca de 25 mm, coletado em Vinhedo, SP. Na terceira imagem pode ser vista predando uma larva de mosquito Anopheles. Fotos de Walther Ishikawa.






Minúsculo besouro hidrofilídeo medindo cerca de 2 mm, talvez um Chaetarthria, fotografado em um aquaterrário junto a caramujos Biomphalaria e Drepanotrema. Coletados em uma lagoa em Vinhedo, SP. Notem o plastrão metálico ventral. Fotos de Walther Ishikawa.





Alguns exemplos de hidrofilídeos criados em aquários, este exemplar mede cerca de 9 mm, e foi coletado em Nova Iguaçu, RJ. Fotos de Sérgio K. Saruwataru.



Outro invasor de aquário, foto de Rogério Bragil.




Besouro hidrofilídeos em aquário, coletado em Pará de Minas, MG. Fotos de Ricardo T. Almeida.




Pequeno besouro hidrofilídeo coletado em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.


Besouros Ditiscídeos:

Uma família bastante numerosa, com 2500 espécies conhecidas, 430 na América do Sul. A maioria destes besouros são ferozes predadores, tanto na sua fase de larva quanto adulta, sendo conhecidos em inglês como “predacious diving beetle”, e suas larvas como “water tiger” (tigre d´água). Sua dieta principal é constituída de invertebrados, mas predam também pequenos peixes e girinos. Estes animais devoram sua presa, ou injetam enzimas digestivas usando suas mandíbulas, para depois sugarem o material liquefeito (digestão extraintestinal).

Semelhantes aos Hidrofilídeos, também possuem forma oval, achatados, vivem à meia água. São ótimos nadadores, nadando com movimentos sincrônicos das patas traseiras, como remos. O aspecto mais comum é negro e brilhante, mas podem ter padronagens e cores variadas. Alguns machos adultos possuem placas com ventosas no primeiro par de patas, usadas para se aderir melhor à fêmea durante a cópula. Seu nome vem do grego dyticos (que mergulha, que gosta de mergulhar).

A ovoposição muitas vezes é no interior de plantas aquáticas. As larvas são alongadas, com fortes mandíbulas, de aspecto agressivo. As mandíbulas são ocas, com um “canal mandibular”, através do qual injetam neurotoxinas e enzimas proteolíticas nas presas. Possuem a extremidade do abdômen mais alongado, com cerdas que são utilizadas para respiração.

Adultos e larvas respiram ar, os adultos armazenam um suprimento em baixo das suas asas, e as larvas possuem tubos traqueais, indo à superfície de tempos em tempos para obter ar.

Vivem em diversos ambientes, águas paradas ou com correnteza. Resistentes, toleram salinidade e poluentes. São encontrados inclusive em alguns ambientes inóspitos, como lagos ácidos.

 


Besouro ditiscídeo criado em aquário, coletado em Pará de Minas, MG. Foto de Ricardo T. Almeida.




Ditiscídeo Megadytes sp., coletado em Botucatu, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Um besouro ditiscídeo que foi criado por um longo período em um aquário. Nas imagens podem ser vstas também camarões Macrobrachium sp. Fotos de Ricardo Koszegi Ronsini.



Detalhe do primeiro par de pernas de um besouro ditiscídeo, mostrando suas ventosas. Fotos de Heath Blackmon.













Besouro ditiscídeo Hydacticus sp., medindo cerca de 22 mm, fotografado em Ubatuba, SP. O inseto foi atraído pela luz de uma casa. Fotos de Walther Ishikawa.





Larva de besouro ditiscídeo, Hydacticus sp., medindo cerca de 18 mm, fotografado em Monte Verde, MG. Fotos de Walther Ishikawa.




Larva de Megadytes sp., coletado em Botucatu, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Larva de Dytiscidae, coletado em Mococa, SP. Este inseto foi criado por algum tempo no aquário, alimentado com larvas de mosquitos. Fotos de Felipe Lange.





Pequenino besouro ditiscídeo, talvez um Liodessus, medindo cerca de 2 mm. Note a escala com a larva de mosquito. Fotografado em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Ditiscídeo Laccophilus, com uma bela padronagem, coletado em Botucatu, SP. Estes animais foram criados por vários meses em um aquário comunitário. Fotos de Walther Ishikawa.







Laccophilus,
outra espécie, fotografado no Parque Nacional do Pico do Jaraguá, SP. Fotos de Walther Ishikawa.







Ditiscídeo, provável 
Copelatus, medindo cerca de 7 mm. Fotografado em uma poça d´água em uma depressão rochosa às margens de um rio, em Amparo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.


Besouros Girinídeos:

Com cerca de 1100 espécies descritas (200 na América do Sul), esta família é um dos mais notáveis e curiosos dentre os besouros aquáticos. São pequenos besouros ovoides e achatados que vivem no filme d´água, com metade do seu corpo submersa e metade emersa, interagindo nos dois meios (um típico exemplo de plêuston). Possuem uma adaptação admirável para este modo de vida: seus olhos são divididos em dois, um par para visão aérea, e outro para visão aquática, permitindo ver simultaneamente os dois ambientes. Possuem o órgão de Johnston bastante desenvolvido, usando-a para captar de volta ondas refletidas, e usando-a para localizar predadores.

Adultos são vistos em grupos nadando na superfície d´água em alta velocidade, com trajetos circulares. Por este motivo, são conhecidas em inglês como “whirligig beetle” (besouro carrossel). O nome Gyrinidae tem origem grega, de gyros (volta, círculo, movimento circular). Estas grandes colônias são às vezes compostas por mais de uma espécie diferente (existe uma descrição de até 13 espécies coexistindo nos Estados Unidos). Ao sinal de perigo, podem mergulhar na água levando um suprimento de ar sob as asas e em uma bolha de ar na extremidade do abdômen.

São pequenos (até 1,5 cm), de cor escura, geralmente negra e brilhante. Primeiro par de patas longas, especializadas em capturar presas. Demais patas curtas, altamente modificadas como nadadeiras.

Os adultos são principlamente necrófagos, mas podem se alimentar também de invertebrados que caem na superfície da água. Larvas são vorazes predadoras, também se alimentam de pequenos invertebrados. Larvas possuem brânquias laterais. Possuem poucos predadores, porque, assim como os Ditiscídeos, produzem uma secreção de gosto desagradável. Em algumas espécies esta secreção tem um cheiro de maça madura, daí seu outro nome popular em inglês, “apple beetle”. 







Pequenos besouros girinídeos, Gyrinus sp., medindo cerca de 10 mm, fotografados em Vinhedo, SP. Note as antenas, curtas e grossas, parecendo pequenos chifres. Fotos e vídeo de Walther Ishikawa.


Close na cabeça de um besouro girinídeos, em perfil, mostrando seus "quatro olhos", uma fantástica adaptação para enxergar simultaneamente acima e abaixo d´água. Foto de Heath Blackmon.


Gyrinus sp., fotografados em Vinhedo, SP. Os olhos separados em dois pares são visíveis na primeira imagem. Fotos de Walther Ishikawa.



Enhydrus sp., fotografado ha Floresta da Tijuca, RJ. Foto de Laíza Mussap Cukier.




Gyrinus sp. de outra espécie, fotografados em Monte Verde, MG. Fotos de Walther Ishikawa.







Gyrinus sp., fotografados em Vinhedo, SP. Quando ameaçados, estes besouros submergem levando uma bolha de ar como suprimento junto à extremidade do abdômen. Fotos de Walther Ishikawa.


A segunda parte do artigo, abordando as demais famílias de Besouros Aquáticos, juntamente com a Bibliografia e Créditos fotográficos, pode ser vista  aqui  .

 
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