INÍCIO ARTIGOS ESPÉCIES GALERIA SOBRE EQUIPE PARCEIROS CONTATO
 
 
    Espécies
 
Mosquitos Culicini  
Artigo publicado em 12/05/2013, última edição em 01/03/2022  

Culex (Microculex) cf. intermedius, coletados em fitotelma de uma bromélia em Ubatuba, SP. Há alguns sabetinos misturados também. Foto de Walther Ishikawa.


Este artigo é um dos três que complementam o artigo principal sobre larvas de mosquitos, que pode ser acessado  aqui . As referências bibliográficas estão todas reunidas neste primeiro texto.




Mosquitos Culicini


Trataremos neste artigo dos mosquitos culicídeos (família Culicidae) da subfamília Culicinae, tribo Culicini. De longe, os mais numerosos e importantes deste grupo são os pernilongos comuns do gênero Culex. Há mais dois gêneros na subfamília, Deinocerites, associado a tocas de caranguejos semi-terrestres, e Lutzia, grandes mosquitos que eram anteriormente classificados como um subgênero de Culex.




 

Culex

 

O Culex (Culex) quinquefasciatus Say 1823 é um dos mosquitos mais freqüentes em áreas habitadas pelo homem com saneamento precário. Esta espécie é adaptada ao desenvolvimento de imaturos em água estagnada com forte carga orgânica. Possui vários nomes populares, como pernilongo, muriçoca, carapanã, sovela e zancudo.

Existem diversas outras espécies de Culex no território brasileiro, adultos muito parecidos com o C. quinquefasciatus, de identificação bastante difícil para o não-especialista. O gênero inclui alguns dos mosquitos mais versáteis, como o C. nigripalpus, com capacidade de se reproduzir em virtualmente qualquer ambiente aquático, desde marismas com água salobra, buracos de árvores, água depositada em folhas, recipientes artificiais, e áreas recentemente inundadas.



Doenças humanas: C. quinquefasciatus é o vetor primário e principal da filariose linfática conhecida como elefantíase (filariose bancroftiana) no Brasil. Sua predileção pelo sangue do homem (único hospedeiro da Wuchereria bancrofti) e a sua preferência por sugar durante a noite (período de aumento da microfilaremia periférica) facilitam muito o contato das microfilárias com este culicídeo, tornando-o mais eficaz que os outros mosquitos susceptíveis. Também tem sido incriminado como vetor de arbovírus dentro de vilas rurais e cidades, como o vírus Oropouche, onde atua como vetor secundário. É a única espécie do gênero Culex com importância como vetor de doenças humanas.


 

Ovos: Geralmente depositam seus ovos em conjuntos, com aspecto de "jangada", que flutuam na superfície da água. Sensíveis à dessecação, estes ovos murcham fora d'água.

Larvas: Têm o aspecto habitual das larvas da subfamília Culicinae, adquirindo uma posição oblíqua em relação à superfície da água. A cabeça é maior e mais larga do que outros mosquitos. Possui um sifão longo e fino (4 ou 5 vezes o valor da largura basal no C. quinquefasciatus).

Adultos: São mosquitos de porte médio, cor de palha (coloração geral marrom escuro ou claro), sem brilho metálico, tarsos escuros, sem marcação clara. Suas asas não possuem manchas.

Habitat: O Culex quinquefasciatus é considerado cosmopolita, foi originalmente descrito de espécimes de New Orleans, EUA. Tipicamente urbano e antropofílico, é encontrado em maior quantidade nos aglomerados humanos, dentro das cidades e vilas rurais.

Seus criadouros preferenciais são os depósitos artificiais, com água rica em matéria orgânica em decomposição e detritos, de aspecto sujo e mal cheiroso. Estão sempre próximos às habitações, pois esse Culex é extremamente beneficiado pelas alterações antrópicas no ambiente peridomiciliar. Porém, outras espécies são essencialmente silvestres.

Comportamento: Na fase adulta, as fêmeas hematófagas têm hábitos noturnos, tendem a frequentar os domicílios nos quais encontram abrigo e alimentação. Perturbam bastante o sono das pessoas, principalmente pela sua habitual atividade noturna, mas não costumam ser tão agressivos como os Aedini. São muito atraídos pela luz artificial.

 



Mosquito
Culex sp. Foto de Sonia Furtado.




 
















Ovos, larvas, pupa e fêmea adulta de
Culex (Culex) quinquefasciatus, ovos coletados em um pequeno córrego na Praça da Nascente, São Paulo, SP, larvas em uma poça d´água em depressão rochosa no litoral de Ilhabela, SP (em água salobra). Os adultos se desenvolveram destas larvas. Fotos de Walther Ishikawa.




Ovos, larvas e pupas de Culex (Culex) bidens, coletados em Vinhedo, SP. A última imagem mostra as pupas em dois estágios, note a tromba fina e longa. Fotos de Walther Ishikawa.




Culex sp., pelo menos duas espécies, fotografadas em Marília, SP. Note a diferença, por exemplo, nos sifões. Foto de Walther Ishikawa.




Culex (Culex) do complexo coronator, (coronator ou usquatus), grupo de espécies com sifão bastante longo. Algumas imagens mostram a coroa subapical de espinhos no sifão, característico deste complexo. Fotografados em Itatiba, SP. Fotos de Walther Ishikawa.







Balsa de ovos de Culex
sp., coletada em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





Larva de Culex (Culex) cf. nigripalpus, esta espécie tem o 4o segmento abdominal claro, especialmente nas primeiras fases de larva. Fotos de Walther Ishikawa.







Culex (Culex) cf. acharistus, larvas coletadas em uma poça d´água no solo, em um parque abandonado em Ubatuba, SP. Na última foto, um casal de adultos, metamorfoseados a partir destas pupas. Fotos de Walther Ishikawa.








Culex (Culex) cf. chidestri, coletadas em uma poça d´água em depressão rochosa, no Parque Cantareira, Núcleo Engordador, São Paulo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Culex (Carrolia) sp., fotografado em Belém, PA. Este subgênero é o único Culex com brilhos metálicos. Foto cortesia de César Favacho.





          O subgênero Melanoconion é constituído de pequenas espécies com ampla distribuição nas Américas (principalmente América do Sul), com cerca de 160 espécies, sendo o segundo subgênero em termos de riqueza (após Culex, com 198 espécies). Algumas espécies são vetores de arboviroses, inclusive humanas, como o Vírus do oeste do Nilo, e muitas de importância veterinária. 
A estratégia de oviposição dos Melanoconion é bastante variada, embora alguns produzam jangadas como os do subgênero Culex, a maioria deposita ovos agrupados fora da água, em substratos ou plantas. Existem até espécies que depositam ovos individuais fora d´água. O tipo de desenvolvimento também é variável, a maioria eclode rapidamente (RH), mas existem espécies que produzem ovos com resistência à dessecação (DH), que eclodirão meses após a oviposição. 
Criam-se em locais muito diversificados, desde recipientes naturais como bromélias, até grandes coleções líquidas no solo, como bolsões de rios, charcos, alagados e lagos. Muitas larvas possuem rica pigmentação para camuflagem. 











Larva de Culex (Melanoconion) vaxus, grupo Educator, coletadas em uma lagoa em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Pupas em dois estágios de desenvolvimento, e o mosquito adulto Culex (Melanoconion) vaxus. Na última foto, a fêmea à esquerda. Fotos de Walther Ishikawa.











Larvas e pupas de Culex (Melanoconion) spp, provavelmente duas espécies, fotografadas em uma lagoa em Santo Antônio do Pinhal, SP.
Fotos de Walther Ishikawa.












Larvas, pupas e adulto macho de Culex (Melanoconion) sp, talvez mais de uma espécie, fotografadas em uma lagoa próxima ao mar em Ubatuba, SP. O adulto macho foi criado a partir de uma das pupas. Fotos de Walther Ishikawa.



        O subgênero Microculex é constituído de pequenas espécies sem importância médica, fêmeas adultas sugam sangue de pássaros e animais de sangue frio. Muitas espécies são especializadas em se reproduzir em fitotelmata (bolsões de água) de bromélias. As larvas têm tipicamente o sifão bastante longo e fino, muitos com o corpo bastante colorido. Informações sobre os ovos são quase inexistentes, existe somente uma descrição de C. gaudeator (América Central) depositando uma massa de ovos gelatinosa que flutua na superfície da água.







Larvas, pupas e o adulto de Culex (Microculex) cf. intermedius, coletados em fitotelma de uma bromélia em Ubatuba, SP. Foto de Walther Ishikawa.



Adulto de Culex (Microculex) cf. carioca, fotografado em uma bromélia em Paraty, RJ. Foto de Walther Ishikawa.



Larvas de Culex (Microculex) da série pleuristriatus, coletadas em fitotelma de bromélia em Paraty, RJ. Os Microculex da série pleuristriatus são os únicos que têm o sifão mais curto e grosso. Fotos de Walther Ishikawa.



Larva de Culex (Microculex) cf. imitator, coletada em fitotelma de bromélia em Paraty, RJ, juntamente com um Phoniomyia. Fotos de Walther Ishikawa.















Larvas e pupa de Culex (
Microculex) sp. da série pleuristriatus, coletadas em fitotelma de bromélia em Ubatuba, SP. Fotos de Walther Ishikawa.







Larvas de Mosquitos Culicídeos fotografados em um fitotelma de bromélia, em Ubatuba, SP. Um Culex (Microculex) cf. imitator retrosus, (sifão fino), três Culex (Microculex) cf. pleuristriatus (sifão grosso) e um Anopheles (Kerteszia) cruzii. Fotos de Walther Ishikawa.










Culex (
Microculex) cf. imitator, coletadas em fitotelma de bromélia em Ubatuba, SP. Nas fotos podem ser vistas também outro Microculex da série pleuristriatus, além de um verme oligoqueta. Fotos de Walther Ishikawa.







Culex (Microculex) dubitans, série imitatorcoletadas em fitotelma de bromélia em Ubatuba, SP. O adulto macho foi criado a partir da pupa. Fotos de Walther Ishikawa.







Larva de Culex (
Microculex) sp. (reducens?),  coletada em fitotelma de bromélia no PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), Iporanga, SP. Foto de Walther Ishikawa.






Larva e pupa de Culex (
Microculex) sp., coletada em fitotelma de bromélia em Santo Antônio do Pinhal, SP. Foto de Walther Ishikawa.




Pequeno Culex (provável Microculex ou Melanoconion) alimentando-se de um anuro, fotografado na Reserva Águia Branca, Vargem Alta, ES. Foto de Leonardo Merçon.




Deinocerites



         Todas as 18 espécies conhecidas do mosquito Deinocerites têm um modo de vida bastante peculiar e interessante, são especializadas em viverem associados a tocas de caranguejos de manguezais. Os adultos usam a região da entrada das tocas como áreas de refúgio durante o dia, e os imaturos se desenvolvem em bolsões de água acumulados no fundo das tocas. Distribuem-se principalmente na América Central, e regiões adjacentes das Américas do Norte e Sul. No Brasil, ocorrem somente até o Maranhão, com ocorrência certa de uma única espécie (Deinocerites magnus) e provável de uma segunda (Deinocerites cancer).

         Ao contrário dos Culex, os Deinocerites depositam os ovos separadamente, em locais úmidos acima do nível da água. Eclodem em alguns dias, e as larvas se arrastam até a água. As larvas vivem nos buracos de caranguejo das famílias Gecarcinidae (Guaiamuns) e Ocypodidae (Chama-marés e Uçás), com água doce ou salobra, onde também se abriga a maior parte dos adultos. Muitas vezes dividem este habitat com outros mosquitos, dos gêneros Culex (Culex) e Culex (Melanoconion). Raramente utilizam outros locais para se criar, como buracos de árvore e escavações em pedra. A fase de larva dura cerca de duas a três semanas, e a de pupa somente alguns dias.

         Os adultos são noturnos e crepusculares, voam pouco e têm um dos maiores espectros de hospedeiros, principalmente aves, sugando também do homem (muito raro) até batráquios e répteis. Sua importância epidemiológica é restrita ou quase nula. Algumas vezes esses mosquitos foram encontrados com arbovírus, mas não se sabe qual a importância desses achados.

         São semelhantes aos Culex com respeito à morfologia externa dos adultos, de tamanho médio e de cores pardas, diferindo principalmente por apresentar antenas bem mais longas, em especial o primeiro segmento flagelar. Os palpos maxilares são curtos. As larvas têm como característica marcante o formato da cabeça, mais larga junto à base da antena, e à presença de um único par de brânquias anais curtas e bulbosas.

         A cópula dá-se em pequenas nuvens ou individualmente. Os machos de Deinocerites são vistos sobrevoando ou pousados sobre o exato local, no criadouro, onde se acha a pupa que originará a fêmea, para fecundá-la imediatamente após a emergência. As fêmeas adultas recém metamorfoseadas são sexualmente receptivas aos machos, diferente da maioria das outras espécies, onde há uma demora de alguns dias. Machos passam um bom tempo repousando na superfície da água onde exibem um comportamento chamado espectador pupal (“pupal attendance”). As antenas excepcionalmente longas dos Deinocerites têm menos fímbrias acústicas mas mais sensillas olfatórias e mecanoceptoras. Usando-as, os machos procuram pupas fêmeas, agarrando suas trombas respiratórias com as pernas dianteiras, e afastando outros machos com as outras pernas. O macho aguarda a eclosão da fêmea, e inicia a cópula mesmo antes da fêmea sair completamente da pupa. A cópula pode durar 30 minutos ou mais. Este comportamento especial só é conhecido em um único outro mosquito, Opifex fuscus da Nova Zelândia. Outra diferença desta espécie é que a primeira desova da fêmea ocorre antes do primeiro repasto, somente com reservas da fase de larva. 


Doenças humanas: Não são considerados vetores de doenças humanas.




Larvas de Deinocerites cancer, exemplares da Flórida, EUA. Note o típico aspecto largo da cabeça distalmente. Foto do Florida Medical Entomology Lab, UF/IFAS.




Deinocerites cancer, fotografados em Vero Beach, Indian River County, Florida, EUA. Fotos de Sean McCann.





Lutzia



O gênero Lutzia era até muito recentemente classificado como um subgênero de Culex. São duas espécies que ocorrem no Brasil, muito parecidas, Lutzia bigoti, com ampla distribuição, e Lutzia allostigma, amazônico. São grandes mosquitos de aspecto tigrado, zoofílicos, com raros relatos de hematofagia em seres humanos. Suas larvas são vorazes predadoras de outras larvas de mosquitos, habitando coleções líquidas no solo.

Doenças humanas: Não são considerados vetores de doenças humanas.






Lutzia bigoti, fotografada em Rio Acima, MG. Foto de Bruno Magalhães Nakazato.



Lutzia bigoti, fotografada em Foz do Iguaçu, PR. Foto de Ben Phalan.




A principal fonte bibliográfica deste artigo foi o livro Principais Mosquitos de Importância Sanitária no Brasil. Rotraut A. G. B. Consoli & Ricardo L. de Oliveira Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1994. 228 p. O livro pode ser baixado gratuitamente através do link  aqui 


Este artigo só foi possível com a colaboração de diversos amigos e colegas, aos quais somos muito gratos. Agradecimentos à fotógrafa Sonia Furtado, aos biólogos César Favacho, Bruno Magalhães Nakazato, Leonardo Merçon ( Instituto Últimos Refúgios ), Ben PhalanSean McCann (EUA), pela cessão das suas fotos para o artigo. Agradecemos também aos biólogos Ivy Luizi Rodrigues de Sá pela identificação do Melanoconion, e Adriano Mendonça pela identificação dos MicroculexSomos gratos também ao Florida Medical Entomology Lab. (Universidade da Flórida), na pessoa do Sr. Naoya Nishimura, pela permissão de uso das fotos de larvas de Deinocerites.  


As fotografias de Walther Ishikawa, Leonardo MerçonSean McCann estão licenciadas sob uma licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos re 
« Voltar  
 

Planeta Invertebrados Brasil - © 2022 Todos os direitos reservados

Desenvolvimento de sites: GV8 SITES & SISTEMAS