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Vermes 2 - Sanguessugas  
Artigo publicado em 14/01/2012, última edição em 02/01/2021  



Sanguessugas

 

            Embora tenham um aspecto um pouco distinto, sanguessugas também são vermes anelídeos, mas pertence a outra subclasse, Hirudinea. Existem cerca de 1000 espécies de sanguessugas, vivendo em ambientes marinhos, dulcícolas e terrestres.

            Cerca de três quartos dos hirudíneos conhecidos são hematófagos, e o restante, predadores. Muitas fontes descrevem as espécies hematófagas como sendo parasitas, mas geralmente elas abandonam a presa após se alimentarem. Desta forma, talvez possam ser mais bem descritos como predadores ultra-especializados. Geralmente são especializados em presas específicas, com espécies que se alimentam somente de sangue de peixes, mamíferos, e assim por diante. Existem até animais especializados em sugar sangue de outras sanguessugas hematófagas.

            Embora existam grandes sanguessugas hematófagas brasileiras (uma das maiores espécies no mundo é amazônica, Haementeria ghiliani, de 30 cm), é bastante improvável que um destes animais venha a surgir no seu aquário. Porém, animais menores são invasores bastante comuns, sendo introduzidos inadvertidamente junto com plantas. São predadores de pequenos invertebrados, geralmente não oferecendo perigo aos peixes.






Haementeria ghiliani
, a maior sanguessuga do mundo. Animal coletado na Guiana Francesa, sobre o braço do Dr. Roy Sawyer. Foto de Timothy Branning (Smithsonian National Museum of Natural History). 





Sanguessuga glossifonídea. Note os discos de sucção nas extremidades. Foto de Walther Ishikawa.




 

 

 

Helobdella triserialis, coletadas em Marília, SP. As duas últimas fotos são em um aquário, imagens ventrais mostrando seus dois discos de sucção. Animais gentilmente cedidos por Max Wagner para as fotos.



Assim como os oligoquetas, todas as sanguessugas são hermafroditas. A maioria tem ciclos de vida anuais, as principais exceções pertencem ao grupo das hematófagas. Os Glossifonídeos são um grupo bem interessante, carregam ovos aderidos à face ventral do seu corpo. Mesmo depois de nascidos, os adultos carregam os filhotes por algum tempo, numa forma avançada de cuidado parental, inclusive alimentando sua prole.

Os Glossiphoniidae são o principal grupo de sanguessugas predadoras sulamericanas, em especial o gênero Helobdella são bastante comuns. Possuem o corpo largo e achatado, e a região anterior mais fina, com o disco de sucção anterior pouco desenvolvido. Com alguma frequência são introduzidas inadvertidamente em aquários com plantas aquáticas sem tratamento adequado. Quase todas são predadoras de gastrópodes e larvas de insetos, não oferecem perigo à fauna, exceto pequenos caramujos. Porém, há alguns registros obscuros de Helobdella coletadas aderidas à brânquias de peixes, como Geophagus.





Sanguessuga glossifonídea, adulto carregando filhotes. Fotos cedidas por Raquel Toledo. 



Sanguessuga Helobdella, adulto carregando filhotes. Fotos de Walther Ishikawa.




Sanguessugas glossifonídeas, com filhotes à esquerda, e um outro animal sem filhotes à direita. Fotos de Walther Ishikawa.





Glossifonídeo com filhotes. Note como a mãe ondula seu corpo, para criar uma corrente de água para os filhotes.




 


Glossifonídeo Helobdella sp. com seus filhotes. Animais gentilmente cedidos por Cláudio Moreira para as fotos.




            Seu aspecto lembra bastante os demais anelídeos, mas tendem a ter o corpo mais achatado, e extremidades mais finas do que a região central do corpo. Não possuem cerdas (exceto uma única espécie primitiva), e se movem usando seus dois discos de sucção, na cabeça e na cauda, com movimentos típicos de contração e extensão, do tipo "mede-palmos", bastante útil na sua identificação. Algumas espécies nadam com movimentos ondulantes. O disco da cauda é maior e mais evidente do que o anterior. Algumas sanguessugas possuem múltiplos pares de olhos, cujo número e disposição são úteis na identificação da sua espécie. Sua cor é variável, geralmente em tons escuros e ocres, mas alguns têm cores mais brilhantes e padronagens variadas.





Sanguessuga caminhando no vidro do aquário, com típicos movimentos de contração e extensão. Fotos de Walther Ishikawa.




Sanguessuga com uma belíssima padronagem, fotografada no North Folk Holston River, North Carolina, EUA. Foto gentilmente cedida por Daniel Schilling.




Provável Myzobdella platensis (Piscicolidae) aderidas a uma Traíra (Hoplias malabaricus), fotografada em Doutor Pedrinho, SC. Foto de Douglas Meyer (iNaturalist, Licença Creative Commons).




Além dos Glossiphoniidae, as espécies mais comuns em aquários são da família Erpobdellidae, como a Semiscolex similis, e a Salifidae invasora asiática Barbronia weberi. São predadoras de pequenos invertebrados, não oferecendo perigo aos peixes. Têm o corpo alongado e fino, embora achatado, com um aspecto uniforme, sem grandes variações na sua largura. 

Um grupo hematófago que pode ser confundido com estas sanguessugas alongadas é a Piscicolidae. Embora não haja registro oficial no Brasil, são encontradas algumas Myzobdella, como na foto acima, provavelmente introduzidas com peixes de pesca. Geralmente os piscicolídeos mostram o corpo divido em segmento anterior e posterior (isto é mais fácil de ser visto quando estão contraídos), e o disco de sucção anterior é destacado em relação ao restante do corpo. 





Provável sanguessuga Barbronia weberi. Note os discos de sucção nas extremidades. Pupas de mosquito também são visíveis na foto. Imagem de Walther Ishikawa.








Sanguessuga salifídea asiática Barbronia weberi, encontrada como invasora em diversos países, inclusive no Brasil. Aparentemente o principal veículo de dispersão foi o aquarismo. Estes exemplares foram encontrados em um aquário na Alemanha. Fotos gentilmente cedidas por Bernd Kaufmann.







Barbronia weberi, encontrada em um aquário de camarões ornamentais em São Paulo, SP. Fotos gentilmente cedidas por Mil Marques.




Sanguessugas (provável Barbronia ou Semiscolex), encontrada no interior de um filtro canister, em Arujá, SP. Este vídeo mostra claramente a forma serpiginosa como as sanguessugas nadam. Vídeo cortesia de Robson Alexandre.













Provável Erpobdella ou Semiscolex, surgiram em grande quantidade em um aquário de criação de invertebrados no Rio de Janeiro, RJ. são simpátricos com os Helobdella mostrados no final do artigo. Veja o destaque dos olhos, inicialmente foram identificados como Barbronia, mas o padrão de olhos são distintos. Vídeos e fotos cortesia de Cláudio Moreira.



Muitos glossifonídeos têm sua dieta principal composta de caramujos, sendo popularmente conhecidos como "Snail Leeches". Possuem o corpo achatado e largo, como muitas outras sanguessugas desta família. São mais facilmente visíveis depois de se alimentarem, porque possuem o corpo translúcido, e após a alimentação seu tubo digestivo se preenche do tecido do caramujo predado, de cor mais escura. O tubo digestivo possui muitas ramificações diverticulares terminando em fundo cego (caecum), conferindo um aspecto semelhante a uma pintura rupestre após a alimentação. Não oferece perigo para peixes e camarões, mas obviamente não é recomendável tê-los em aquários com caramujos ornamentais. Entretanto, a predação é mais ativa com caramujos filhotes, de menores dimensões.












Helobdella triserialis alimentando-se de pequenas Pomacea. A última foto mostra as sanguessugas com os túbulos gástricos repletos. Note os pequenos filhotes, alimentando-se junto ao adulto. Animais gentilmente cedidos por Max Wagner para as fotos.





Sanguessuga glossifonídea "Snail leech" de cerca de 11 mm, se alimentando de um caramujo Physa. O vídeo foi acelerado, para demonstrar mais claramente a predação. Na realidade, a sanguessuga demorou cerca de uma hora para se alimentar do caramujo. Vídeo cortesia de Alan Couch.




Porém, curiosamente são descritas associações entre diversas Sanguessugas (especialmente Helobdella) e moluscos, principalmente gastrópodes. Na América do Sul, as mais conhecidas são com Ampulárias (Pomacea canaliculata e P. diffusa são descritas no Brasil) e Planorbídeos (Biomphalaria, Drepanotrema), como a Helobdella triserialis. Inclusive, há uma espécie que vive exclusivamente na cavidade do manto de uma Ampulária, a Helobdella ampullariae Ringuelet, 1945, associada permanentemente com a Pomacea (antiga Pomella) megastoma ou P. canaliculata. Não se sabe ainda que tipo de relacionamento estes animais possuem, se há parasitismo ou comensalismo. Alguns autores sugerem a primeira opção, dado que estas sanguessugas são carnívoras, e um dos alimentos é a hemolinfa de gastrópodes.






Sanguessuga Helobdella sobre a concha de uma Pomacea canaliculata dourada, à esquerda das fotos. Fotografada no Rio Tietê, Barra Bonita, SP. Fotos de Walther Ishikawa.






Sanguessuga Helobdella coletada sobre uma Pomacea, em Mongaguá, SP. A segunda foto mostra o animal contraído e estendido. Fotos de Felipe Araújo.















Sanguessuga Helobdella adiastola coletada junto a uma ampulária Asolene em Foz do Iguaçu, PR. Note a típica placa nucal, e o par de olhos bem próximos. Veja também o filhote prestes a se desprender de um dos indivíduos. Fotos e vídeos de Walther Ishikawa.



As espécies hematófagas brasileiras que se alimentam do sangue de peixes e outros vertebrados pertencem quase todas ao gênero Haementeria (também da família Glossiphoniidae). Além da espécie gigante mencionada no início do artigo, existem várias espécies menores, com registros frequentes de hematofagia em banhistas quando mergulham em lagoas e charcos. Possuem bactérias simbiontes em glândulas conectadas ao esôfago, que produzem enzimas que auxiliam na obtenção de alguns nutrientes a partir do sangue ingerido.

Estas são bem mais raras como visitantes indesejados de aquários, porém a sua identificação não é fácil. Costumam ter o corpo mais rugoso e pigmentado, e não tão largo como os Helobdella, mas nem sempre a diferenciação é fácil. Lembrando que poucas espécies de Helobdella parecem ser hematófagas, já tendo sido identificadas aderidas às brânquias de Geophagus.

Outro grupo importante de sanguessugas hematófagas brasileiras são as Oxyptychus (Macrobdellidae), grandes e robustas, alimentam-se de sangue de anfíbios e mamíferos. Possuem típicas faixas longitudinais coloridas, e são mais aparentadas com as sanguessugas européias de uso medicinal. 

Na dúvida, é mais seguro a retirada de qualquer sanguessuga que apareça em aquários. Além da predação em si, é importante lembrar que estes animais também são vetores de doenças e outros parasitas de peixes, como tripanossomos e o vírus SVC.







Glossifonídeo Haementeria sp., um gênero hematófago, com registros de hematofagia em banhistas de rios e lagos. Fotografado em Extremoz, RN. Imagem gentilmente cedida por Francierlem Fonseca.




Glossifonídeo Haementeria sp., durante hematofagia na perna do autor da foto. Fotografado em Salobrinho, Ilhéus, BA. Foto de Omar Rojas-Padilla (iNaturalist, Licença Creative Commons).





Haementeria ghiliani
, fotografada em Cayenne, Guiana Francesa. Fotos disponibilizados por Anonyme973 para Wikimedia Commons
(Licença Creative Commons).






Macrobdelídeo Oxyptychus striatus predando ovos de anuros Rhinella, fotografados em Santa Rosa del Conlara, Argentina. Esta espécie também é encontrada no Brasil. Fotos gentilmente cedidas por Maria Clara Masetti e Julián Faivovich.


 


 

 

 

 


Glossifonídeo Helobdella sp. com seus filhotes. As últimas imagens mostram bem o único par de olhos, um dos sinais característicos deste gênero. Animais coletados no RJ, gentilmente cedidos por Cláudio Moreira para as fotos.






Segunda parte do artigo, incluindo Bibliografia e Créditos fotográficos pode ser visto   aqui

 
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