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Vermes 2 - Sanguessugas  
Artigo publicado em 14/01/2012, última edição em 19/09/2020  


Sanguessugas

 

            Embora tenham um aspecto um pouco distinto, sanguessugas também são vermes anelídeos, mas pertence à outra subclasse, Hirudinea. Existem cerca de 500 espécies de sanguessugas, vivendo em ambientes marinhos, dulcícolas e terrestres.

            Cerca de três quartos dos hirudíneos conhecidos são hematófagos, e o restante, predadores. Muitas fontes descrevem as espécies hematófagas como sendo parasitas, mas geralmente elas abandonam a presa após se alimentarem. Desta forma, talvez possam ser mais bem descritos como predadores ultra-especializados. Geralmente são especializados em presas específicas, com espécies que se alimentam somente de sangue de peixes, mamíferos, e assim por diante. Existem até animais especializados em sugar sangue de outras sanguessugas hematófagas.

            Embora existam grandes sanguessugas hematófagas brasileiras (uma das maiores espécies no mundo é amazônica, Haementeria ghiliani, de 30 cm), é bastante improvável que um destes animais venha a surgir no seu aquário. Porém, animais menores são invasores bastante comuns, sendo introduzidos inadvertidamente junto com plantas. São predadores de pequenos invertebrados, geralmente não oferecendo perigo aos peixes.





Heamenteria ghiliani
, a maior sanguessuga do mundo. Animal coletado na Guiana Francesa, sobre o braço do Dr. Roy Sawyer. Foto de Timothy Branning (Smithsonian National Museum of Natural History). 





Sanguessuga glossofonídea. Note os discos de sucção nas extremidades. Foto de Walther Ishikawa.




 

 

 

Helobdella triserialis, coletadas em Marília, SP. As duas últimas fotos são em um aquário, imagens ventrais mostrando seus dois discos de sucção. Animais gentilmente cedidos por Max Wagner para as fotos.



            Assim como os oligoquetas, quase todas as sanguessugas são hermafroditas. A maioria tem ciclos de vida anuais. Os Glossofonídeos são um grupo bem interessante, carregam ovos aderidos à face ventral do seu corpo. Mesmo depois de nascidos, os adultos carregam os filhotes por algum tempo, numa forma de cuidado parental.



Sanguessuga glossofonídea, adulto carregando filhotes. Fotos cedidas por Raquel Toledo. 



Sanguessuga glossofonídea, adulto carregando filhotes. Fotos de Walther Ishikawa.



Sanguessugas glossofonídeas, com filhotes à esquerda, e um outro animal sem filhotes à direita. Fotos de Walther Ishikawa.








Glossofonídeo com filhotes. Note como a mãe ondula seu corpo, para criar uma corrente de água para os filhotes.




 


Glossofonídeo Helobdella sp. com seus filhotes. Animais gentilmente cedidos por Cláudio Moreira para as fotos.




            Seu aspecto lembra bastante os demais anelídeos, mas tendem a ter o corpo mais achatado, e extremidades mais finas do que a região central do corpo. Não possuem cerdas (exceto uma única espécie primitiva), e se movem usando seus dois discos de sucção, na cabeça e na cauda, com movimentos típicos de contração e extensão, do tipo "mede-palmos", bastante útil na sua identificação. Algumas espécies nadam com movimentos ondulantes. O disco da cauda é maior e mais evidente do que o anterior. Algumas sanguessugas possuem múltiplos pares de olhos, cujo número e disposição são úteis na identificação da sua espécie. Sua cor é variável, geralmente em tons escuros e ocres, mas alguns têm cores mais brilhantes e padronagens variadas.



Sanguessuga caminhando no vidro do aquário, com típicos movimentos de contração e extensão. Fotos de Walther Ishikawa.



Sanguessuga com uma belíssima padronagem, fotografada no North Folk Holston River, North Carolina, EUA. Foto gentilmente cedida por Daniel Schilling.



            Além dos Glossophonidae, as espécies mais comuns em aquários são da família Erpobdellidae, como a Semiscolex similis, e a Salifidae invasora Barbronia weberi. São predadoras de pequenos invertebrados, não oferecendo perigo aos peixes. Têm o corpo alongado e fino, embora achatado, com um aspecto uniforme, sem grandes variações na sua largura.




Provável sanguessuga Barbronia weberi. Note os discos de sucção nas extremidades. Pupas de mosquito também são visíveis na foto. Imagem de Walther Ishikawa.








Sanguessuga salifídea asiática Barbronia weberi, encontrada como invasora em diversos países, inclusive no Brasil. Aparentemente o principal veículo de dispersão foi o aquarismo. Estes exemplares foram encontrados em um aquário na Alemanha. Fotos gentilmente cedidas por Bernd Kaufmann.






Barbronia weberi, encontrada em um aquário de camarões ornamentais em São Paulo, SP. Fotos gentilmente cedidas por Mil Marques.




Provável Barbronia weberi, encontrada no interior de um filtro canister, em Arujá, SP. Este vídeo mostra claramente a forma serpiginosa como as sanguessugas nadam. Vídeo cortesia de Robson Alexandre.













Provável Barbronia sp., surgiram em grande quantidade em um aquário de criação de invertebrados no Rio de Janeiro, RJ. são simpátricos com os Helobdella mostrados no final do artigo. Veja o destaque dos olhos, distintos do B. weberi. Vídeos e fotos cortesia de Cláudio Moreira.



            Muitos glossifonídeos têm sua dieta principal composta de caramujos, sendo popularmente conhecidos como "Snail Leeches". Possuem o corpo achatado e largo, como muitas outras sanguessugas desta família. São mais facilmente visíveis depois de se alimentarem, porque possuem o corpo translúcido, e após a alimentação seu tubo digestivo se preenche do tecido do caramujo predado, de cor mais escura. O tubo digestivo possui muitas ramificações diverticulares terminando em fundo cego (caecum), conferindo um aspecto semelhante a uma pintura rupestre após a alimentação. Não oferece perigo para peixes e camarões, mas obviamente não é recomendável tê-los em aquários com caramujos ornamentais. Entretanto, a predação é mais ativa com caramujos filhotes, de menores dimensões.











Sanguessuga glossifonídea "Snail leech" de cerca de 11 mm, se alimentando de um caramujo Physa. O vídeo foi acelerado, para demonstrar mais claramente a predação. Na realidade, a sanguessuga demorou cerca de uma hora para se alimentar do caramujo. Fotos e Vídeo cortesia de Alan Couch.











Helobdella triserialis alimentando-se de pequenas Pomacea. A última foto mostra as sanguessugas com os túbulos gástricos repletos. Note os pequenos filhotes, alimentando-se junto ao adulto. Animais gentilmente cedidos por Max Wagner para as fotos.






Porém, curiosamente são descritas associações entre diversas Sanguessugas (especialmente Helobdella) e Gastrópodes. Na América do Sul, as mais conhecidas são com Ampulárias (Pomacea canaliculata e P. diffusa são descritas no Brasil) e Planorbídeos (Biomphalaria, Drepanotrema), como a Helobdella triserialis. Inclusive, há uma espécie que vive exclusivamente na cavidade do manto de uma Ampulária, a Helobdella ampullariae Ringuelet, 1945, associada permanentemente com a Pomacea (antiga Pomella) megastoma ou P. canaliculata. Não se sabe ainda que tipo de relacionamento estes animais possuem, se há parasitismo ou comensalismo. Alguns autores sugerem a primeira opção, dado que estas sanguessugas são carnívoras, e um dos alimentos é a hemolinfa de gastrópodes.





Sanguessuga Helobdella sobre a concha de uma Pomacea canaliculata dourada, à esquerda das fotos. Fotografada no Rio Tietê, Barra Bonita, SP. Fotos de Walther Ishikawa.















Sanguessuga Helobdella cf. stagnalis coletada junto a uma ampulária Asolene em Foz do Iguaçu, PR. Note o filhote prestes a se desprender de um dos indivíduos. Fotos e vídeos de Walther Ishikawa.



As espécies hematófagas que se alimentam do sangue de peixes pertencem às duas famílias da ordem Rhynchobdellida: Glossiphoniidae (como os gêneros Helobdella e Placobdella) e Piscicolidae. Estas são bem mais raras como visitantes indesejados de aquários, porém a sua identificação não é fácil. Com os glossofonídeos é mais fácil, por terem o corpo mais achatado e largo (nem todos são hematófagos), a região anterior mais fina, com o disco de sucção anterior pouco desenvolvido. Porém, os piscicolídeos têm o corpo comprido, bem semelhante aos erpobdelídeos. Geralmente os piscicolídeos mostram o corpo divido em segmento anterior e posterior (isto é mais fácil de ser visto quando estão contraídos), e o disco de sucção anterior é destacado em relação ao restante do corpo. Mas nem sempre estas diferenças são tão fáceis de serem vistas.

Na dúvida, é mais seguro a retirada de qualquer sanguessuga que apareça em aquários. Além da predação em si, é importante lembrar que estes animais também são vetores de doenças e outros parasitas de peixes, como tripanossomos e o vírus SVC.





Glossofonídeo Heamenteria sp., uma família hematófaga, com registros de hematofagia em banhistas de rios e lagos. Fotografado em Extremoz, RN. Imagem gentilmente cedida por Francierlem Fonseca.



 


 

 

 

 


Glossofonídeo Helobdella sp. com seus filhotes. As últimas imagens mostram bem o único par de olhos, um dos sinais característicos deste gênero. Animais coletados no RJ, gentilmente cedidos por Cláudio Moreira para as fotos.





Como curiosidade, as Sanguessugas não são exclusivas de água doce. Existem espécies terrestres, semi-aquáticas e marinhas, estas últimas podendo ter belas cores e padronagens. Alguns exemplos podem ser vistos abaixo:





Sanguessuga marinha, aderida sobre a região branquial de um grande tubarão, fotografada em Mount Mokarran, nas Bahamas. Foto gentilmente cedida por Kevin Bryant.





Sanguessuga terrestre
, medindo cerca de 12 cm, fotografada em Cotia, SP. Foto de Rodrigo Paiva Lazaro.









Sanguessuga terrestre
, fotografada em Arroio dos Ratos, RS. Fotos de Evandro Benke.






Para a Bibliografia e  Créditos Fotográficos, veja  aqui

 
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