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Libélulas e Donzelinhas  
Artigo publicado em 23/04/2012, última atualização em 27/04/2018  

Uma Donzelinha e uma Libélula (Micrathyria, família Libellulidae), fotografados em Vinhedo, SP. Foto de Walther Ishikawa.


Ninfas de Libélulas e Donzelinhas

 

Outro inseto que não raramente é encontrado como invasor em aquários é a ninfa de libélula. Por possuir hábitos sorrateiros, com um eficiente mimetismo, e permanecendo oculto durante a maior parte do dia, muitas vezes só são identificados depois de mais crescidos, com o risco de predar pequenos peixes e invertebrados do tanque.

São introduzidos inadvertidamente no aquário, geralmente junto a plantas ornamentais sem tratamento preventivo adequado. Existem alguns relatos de desovas diretamente no aquário, mas são bem raros.

Originalmente, este artigo abordava também alguns outros insetos aquáticos que podem ser confundidos, as Efêmeras e Perlas. Veja o artigo complementar  aqui . Destes, os únicos realmente preocupantes são as Libélulas, vorazes predadoras, capazes de dizimar uma grande população de peixes e outros animais pequenos. Donzelinhas também são predadoras, mas geralmente são pequenas, com um risco muito menor.

A identificação da ninfa de Libélula é relativamente simples, com seu corpo atarracado e sem filamentos na cauda. A diferenciação dos outros três insetos é mais sutil, pode ser feita pelo número de prolongamentos na extremidade da cauda (três para Donzelinhas e Efêmeras, duas para Perlas), e seu aspecto (lisa nas Perlas, com aspecto de penas nas Donzelinhas, variável nas Efêmeras). A presença de brânquias laterais, comprimento das antenas e o aspecto dos olhos também são sinais auxiliares.

Apesar de geralmente serem consideradas pragas, alguns aquaristas criam deliberadamente estes animais em aquários, especialmente para poder observar sua metamorfose no inseto adulto. Sugere-se um aquário dedicado, sem outros animais (exceto presas para alimentação). A manutenção de mais de uma ninfa também não é recomendada, devido ao canibalismo. Sugere-se pouca movimentação de água, por exemplo com FBF em vazão mínima. É importante deixar um espaço acima da superfície da água para que o inseto possa emergir para a metamorfose. Para tal, são interessantes também a presença de galhos e outros objetos semi-emersos. O ideal é que o tanque não seja coberto, é muito comum os insetos voadores recém-transformados tentarem voar, cair na água e morrerem. Geralmente a transformação se dá de madrugada, algumas horas antes do sol nascer. Por isso, é preciso uma boa dose de sorte para poder acompanhar o processo. Mas é uma experiência única, fascinante e maravilhosa.   

 


 


Donzelinha coletada em Mococa, SP. Foi criada em um aquário até sua metamorfose final. Fotos de Felipe Lange.










Libélula coletada em Mococa, SP, talvez uma Pantala flavescens. Foi criada em um aquário até sua metamorfose final. A segunda foto mostra a ninfa alimentando-se, a quarta e quinta flagram a ninfa imediatamente após a ecdise. Fotos de Felipe Lange.

 



Libélulas (insetos da ordem Odonata, subordem Epiprocta)

A ordem Odonata é dividida em duas sub-ordens, Zygoptera (donzelinhas) e Epiprocta (libélulas, até há muito pouco tempo atrás classificada como Anisoptera). Existem cerca de 5000 odonatas no mundo, e cerca de 250 espécies descritas no estado de São Paulo. Todas as odonatas são predadores, tanto suas ninfas quanto os insetos adultos, sendo uma peça-chave no controle biológico de insetos nocivos. As ninfas são aquáticas, exceto por algumas poucas espécies com ninfas terrestres (nenhuma brasileira). Todos os adultos são alados, diurnos e com excelente visão, poucos insetos equiparam as libélulas em termos de capacidade de vôo, tanto em termos de duração quanto velocidade e manobrabilidade. Parecem dispender menos energia voando do que as donzelinhas, permanecem com as asas mais rígidas, parecendo planar no ar. 

Tamanho: até 5 cm.

Identificação: Animais com as seis patas bem visíveis, grandes olhos, corpo achatado e relativamente curto, vivem no substrato. Corpo menos alongado do que ninfas de donzelinhas. Ao contrário destas, não possuem guelras externas na extremidade do abdômen. Ao invés, possuem espículas e orifícios no abdômen que levam a uma câmara branquial interna. Antenas curtas, quase imperceptíveis. Existem espécies fossoriais (como os Gomphidae), com pernas adaptadas para escavação e prolongamentos tubulares na extremidade do abdômen para auxiliar na respiração quando enterrados no substrato. 

Habitat e ciclo de vida: Vivem em águas paradas ou com correnteza. Como muitos outros insetos, são bioindicadores de qualidade de água. Ovos são depositados na água pelos adultos voadores. Algumas espécies têm ovos envoltos em material gelatinoso, formando uma fita. À medida que se desenvolvem, realizam ecdises (troca de exoesqueleto), passando por 10 a 12 estágios de ninfa. O tempo de desenvolvimento da ninfa é bastante variável. Chegado o momento, a ninfa sai da água, procura um substrato sólido e o adulto emerge, geralmente de madrugada.

Alimentação e respiração: Invertebrados, pequenos peixes e girinos, geralmente ficam imóveis e capturam alimentos que se aproximam. Capturam suas presas usando uma mandíbula retrátil (chamada de máscara), na realidade um ‘labium’ que recobre a porção ventral da cabeça. Trocas gasosas na câmara branquial interna, não necessitam vir à superfície para respirar.

Perigo para humanos ou peixes: Inofensivo para humanos. Voraz predador, pode se alimentar de alevinos e peixes pequenos. Por outro lado, é predado por peixes maiores.


Curiosidades:

  • A língua assassina do Alien, personagem da série de filmes desenhada pelo suíço H.R.Giger foi baseada na boca de uma ninfa de libélula.
  • Apesar de geralmente rastejarem no substrato, podem nadar rapidamente expulsando água da sua câmara retal, um mecanismo semelhante a uma propulsão a jato.
  • Existem registros de libélulas voando a velocidades de até 56 km/h.
  • Recentemente foi descoberto que a espécie Pantala flavescens (que ocorre no Brasil) é o inseto com a maior distância migratória conhecida. Análises genéticas mostraram que espécimes da América do Norte, América do Sul e Ásia representam uma única população global, que realiza migrações cruzando oceanos, numa distância de 14.000 a 18.000 km (o recorde anterior, a famosa Borboleta Monarca, migra até 8.000 km). É uma espécie bastante prolífica, que se reproduz em corpos d´água temporários.
  • Insetos com metamorfose incompleta têm suas fases imaturas geralmente chamadas de ninfas (e não larvas). Ninfas aquáticas (como das libélulas) podem ser chamadas também de Náiades, que são as ninfas aquáticas da mitologia grega. Porém, estas duas denominações estão em revisão, alguns autores propõem que todos os insetos imaturos Pterygota possam ser chamadas de larvas.
  • Existe uma espécie sueca que passa 20 anos como ninfa, e a forma adulta vive somente alguns dias.
  • "Libélula" também tem uma etimologia interessante, é o diminutivo de libra, a balança, uma alusão à sua forma de voar, pairando no ar.


Pequena Libélula fotografada em Mangal das Garças, Belém – PA. Foto de Cinthia Emerich.






Libélula da família Libellulidae, Macrothemis imitans, fotografados em Amparo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





Duas libélulas Erythrodiplax
(Libellulidae) fotografadas em Vinhedo, SP. Foto de Walther Ishikawa.








Diastatops cf. intensa (Libellulidae), fotografada no Parque Juquery, Franco da Rocha, SP. Fotos de Walther Ishikawa.






Ninfa de libélula da família Libellulidae, possivelmente Pantala flavescens, cerca de 3cm, coletado em Vinhedo, SP. Esta espécie tem ampla área de distribuição (América do Norte, Sul, Ásia e África), vive em lagoas temporárias, completando seu desenvolvimento muito rapidamente. Detém o recorde atual de inseto com maior distância migratória (veja texto). Fotos de Walther Ishikawa.




Ninfa da família Libellulidae, fotografado na APP Lagoa Encantada, Vila Velha, ES. Foto de Flávio Mendes.



Ninfa de Brachymesia furcata, cerca de 1,6cm, coletado em Vinhedo, SP. Foto de Walther Ishikawa.




Ninfa da família Libellulidae, fotografado no AP. Foto de Flávio Mendes.







Perithemis mooma
e Perithemis lais (com uma donzelinha), família
Libellulidae, fotografados em Vinhedo, SP. Em inglês, esta família é chamada de "Amberwing" (asas de âmbar). Fotos de Walther Ishikawa.









Duas pequenas ninfas de libélulas da família Libellulidae, Elasmothemis constricta, medindo cerca de 0,6cm, e exúvia da mesma espécie medindo 3cm, fotografados em Amparo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Ninfa da família Libellulidae, medindo 3cm, fotografada no Parque do Jaraguá, SP. Foto de Walther Ishikawa.







Ninfa de libélula da família Aeshnidae, talvez um Anax, cerca de 3cm, fotografado em Gravataí, RS. Na seunda imagem ventral pode ser visto o lábio achatado, característico desta família. Fotos de Walther Ishikawa.




Pequena ninfa da família Aeshnidae, fotografada na APP Lagoa Encantada, Vila Velha, ES. Foto de Flávio Mendes.




Ninfa de libélula da família Aeshnidae, surgiu como invasor em um aquário ornamental, introduzido com plantas. Fotos de Márcio Vargas.




Diminuta ninfa de Aeshnidae, surgiu como invasor em um aquário ornamental, introduzido com plantas. Fotos de Fernando Barletta.







Grande ninfa de libélula da família Aeshnidae, fotografado em Poços de Caldas, MG. Fotos de Walther Ishikawa.

 


Donzelinhas, Agulhinhas (insetos da ordem Odonata, subordem Zygoptera)

No Brasil todos os insetos da ordem Odonata são chamados popularmente de “libélulas” (e diversos nomes regionais, como "lavadeira", "lava-bunda", "jacinta" e "pito"), apesar de que em vários outros países é feita a distinção entre as duas subordens, inclusive em Portugal. Deixamos aqui a denominação de Donzelinhas (em inglês “Damselfly”, em oposição a “Dragonfly” para as libélulas verdadeiras), mais utilizada em Portugal, porque são dois grupos com características próprias. São também chamadas de "Libelinhas" ou "Agulhinhas". A distinção dos adultos é bem simples, enquanto as libélulas verdadeiras mostram grandes olhos que têm contato entre si, corpo mais robusto e pousam com as asas abertas, as donzelinhas são mais esbeltas, têm olhos grandes, mas afastados, e pousam com asas fechadas, como uma borboleta. Geralmente são insetos menores do que os do outro grupo. Também são predadores, tanto suas ninfas quanto os insetos adultos. Possuem pior capacidade de vôo do que as libélulas, sendo capturados mais facilmente. A movimentação das asas é diferente, parecendo tremulá-las.

Tamanho: até 3,5 cm.

Identificação: Lembram as ninfas de libélulas, mas têm corpo mais alongado e três guelras externas na extremidade do abdômen, parecidas com penas.

Habitat e ciclo de vida: Muito semelhante à das libélulas.

Alimentação e respiração: Também muito semelhante à das libélulas. Também possuem a mandíbula retrátil.

Perigo para humanos ou peixes: Inofensivo para humanos. Pode se alimentar de alevinos e peixes pequenos, mas o risco é menor do que ninfas de libélulas, pelo seu reduzido tamanho. É predado por peixes maiores.


Curiosidades:

  • Por não possuírem a câmara branquial interna, não conseguem a “propulsão a jato” das ninfas de libélulas. Ao invés, usam as guelras caudais para nadar, semelhante à nadadeira caudal de um peixe.
  • Uma espécie típica do Sul, a Agulhinha-gigante (Mecistogaster amalia) uma espécie encontrada no sul do Brasil, se reproduz somente em bolsões d´água (fitotelmas) de bromélias de maiores dimensões da região. Esta espécie caça aranhas apanhando-as diretamente nas suas teias.
  • Fêmeas de diversos gêneros mergulham na água para depositar seus ovos em caules e raízes submersas. Levam um estoque de ar junto aos pêlos hidrófobos do seu corpo, e alguns gêneros carregam um bolsão adicional de ar nas suas asas. Durante a oviposição, o macho ronda a área vigiando-a.












Momentos mágicos: Donzelinhas submersas, depositando ovos em plantas aquáticas. Primeira foto na APP Lagoa Encantada, Vila Velha - ES, de Flávio Mendes, e as demais em Vinhedo - SP, de Walther Ishikawa. Note o aspecto metalizado do animal, devido ao ar acumulado junto ao seu corpo hidrofóbico. A quarta imagem depois do primeiro vídeo mostra a fêmea repondo seu estoque de ar.







Ninfa de Donzelinha, a segunda imagem mostra bem o “labium” retrátil. Na última imagem, após capturar um alevino. Fotos de Felipe Aoki.




Donzelinha da família Megapodagrionidae, Allopodagrion contortum, fotografada no Parque Juquery, Franco da Rocha, SP. Foto de Walther Ishikawa.




Donzelinha Chalcopteryx rutilans, família Polythoridae, fotografada no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, MT.
Foto gentilmente cedida por Lucas Buttura de Oliveira.





Diminuta
ninfa de Donzelinha, coletada em fitotelma de uma bromélia, em Ubatuba, SP. Foto de Walther Ishikawa.





Casal de Donzelinhas durante oviposição, em Vinhedo - SP, foto de Walther Ishikawa.





Ninfa de donzelinha Ischnura fluviatilis (Coenagrionidae), cerca de 2cm, coletado em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Donzelinha no momento da metamorfose no inseto adulto. Foto de Rodrigo Borçato.



Ninfa de donzelinha em um paludário. Foto de Walther Ishikawa.




Agulhinha-de-mancha-vermelha, Hetaerina rosea (Calopterygidae), um casal de adultos na primeira foto, mostrando o dimorfismo sexual (fêmea à esquerda, macho à direita), e uma ninfa na segunda foto. Os machos têm territórios bem demarcados, os quais defendem com bastante violência. Imagens gentilmente cedidas por Éden Timotheus Federolf.







Ninfa de agulhinha da família Calopterygidae, talvez um Hetaerina sp., fotografado junto à cachoeira Cascatinha, em Águas da Prata, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Agulhinha-gigante, Mecistogaster amalia (Pseudostigmatidae), uma espécie encontrada no sul do Brasil, em clareiras de matas, onde caça aranhas em suas teias. Esta grande donzelinha se reproduz somente em bolsões d´água de bromélias de maiores dimensões da região, como a Vriesea gigantea (primeira foto). Suas fitotelmas chegam a abrigar três litros. Imagens gentilmente cedidas por Éden Timotheus Federolf.







Donzelinha Neoneura sylvatica, família Protoneuridae, fotografado na Represa de Vinhedo, em Vinhedo, SP. Na última imagem, um casal em desova. Fotos de Walther Ishikawa.





Bibliografia:

  • Wade S, Corbin T, McDowell LM. (2004). Critter Catalogue. A guide to the aquatic invertebrates of South Australian inland waters. Waterwatch South Australia.
  • McCafferty WP. Aquatic Entomology: The Fishermen's Guide and Ecologists' Illustrated Guide to Insects and Their Relatives. Jones & Bartlett Learning, 1983 - 448 p.
  • Heckman CW. 2006. Encyclopedia of South American aquatic insects: Odonata - Anisoptera. Illustrated keys to known families, genera, and species in South America. Olympia, Springer Science. 725p.
  • Carvalho AL. 2007. Recomendações para a coleta, criação e colecionamento de larvas de Odonata. Arquivos do Museu Nacional, 65(1): 3-15.
  • Troast D, Suhling F, Jinguji H, Sahlén G, Ware J. A Global Population Genetic Study of Pantala flavescens. PLoS One. 2016 Mar 2;11(3):e0148949.




Agradecimentos aos colegas aquaristas Rodrigo Borçato, Márcio Vargas, Fernando Barletta e Felipe Lange, e também a Eden Timotheus Federolf (  Organização Palavra da Vida - Sul ), Flávio Mendes e Lucas Buttura de Oliveira pela cessão das fotos para o artigo.




As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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