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"Bloodworm"  
Artigo publicado em 31/05/2012, última edição em 23/08/2021  




Bloodworms - Mosquitos Quironomídeos

 

 

Provavelmente, o primeiro contato que aquaristas têm com estes insetos é como alimentos vivos para seus peixes, ou, mais raramente, como invasores de lagos externos. Porém, estes Dípteros têm muitos aspectos interessantes na sua biologia e ciclo de vida, que vale a pena ser mais conhecidos.

 

Chironomidae é a maior e mais frequente família de insetos aquáticos, composta por cerca de 355 gêneros, e próximo de 20.000 espécies. No Brasil são registradas aproximadamente 379 espécies, em cinco subfamílias. A identificação das larvas não é fácil para o leigo, algumas dicas são:

  • Chironominae: subfamília mais comum, quase todos vermelhos (hemoglobina). Quase todos controem tocas fixas. Dois pares de olhos, um acima do outro.
  • Orthocladiinae: cor variável, nunca vermelhos (espécies brasileiras). Modo de vida muito variável, vida livre, ou em tocas fixas. Espécies foréticas, marinhas e semi-terrestres. Geralmente um único par de olhos.
  • Podonominae: cor variável, nunca vermelhos. Olhos mais irregulares, ou com pequenos ocelos acessórios. Raros registros no Brasil, quatro espécies do gênero Podonomus.
  • Tanypodinae: predadores, não constroem tocas, espécimes grandes podem ser vermelhos. Muitas vezes com cabeças longas. Olhos únicos e alongados.
  • Telmatogetoninae: exclusivamente marinhos, nunca vermelhos. Olhos variáveis. Somente dois gêneros no país, Telmatogeton e Thalassomyia, total de cinco espécies.





Larvas de quironomídeos da subfamília Chironominae, chamados popularmente de "Bloodworm". Cerca de 11mm, coletados em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





São pequenos mosquitos inofensivos muito comuns, não-hematófagos, por este motivo chamadas em inglês de non-biting midges. Suas larvas formam um dos mais importantes grupos de insetos aquáticos, ocorrendo em elevadas densidades (há registros de até 70.000 insetos por metro quadrado), colonizando o sedimento e vegetação aquática, com elevada capacidade adaptativa, com modificações permitindo explorar e colonizar ambientes que nenhum outro inseto foi capaz. Vivem em lagos, pântanos, rios, córregos, nascentes, e até águas oceânicas. Muitas espécies são comuns também em ambiente terrestre, ou habitam locais com condições ambientais extremas, como fontes termais, fitotelmata, etc. É também o grupo de insetos predominante na região Ártica, e o único inseto endêmico da Antártida.





A cor vermelha só se desenvolve com o crescimento da larva. À esquerda, uma larva em estágio inicial, ainda pálida. À direita a pupa, também com a cor vermelha. Pequenos protozoários sésseis podem ser vistos na região cefálica da larva. Fotos de Walther Ishikawa.






Larvas de quironomídeo da subfamília Tanypodinae. A antena fina e retrátil pode ser vista na última imagem da primeira série de fotos. Possuem olhos únicos, outra característica típica desta subfamília, muitas vezes (como neste caso) com cabeças alongadas. Cerca de 8mm, coletado em Itatiba, SP. Fotos de Walther Ishikawa.










Três larvas da subfamília Tanypodinae, coletadas em Vinhedo, SP (duas primeiras) e Santo Antonio do Pinhal, SP (terceira). Fotos de Walther Ishikawa.




Larvas da subfamília Tanypodinae, coletadas em fitotelma de bromélia, em Campos de Jordão, SP. Foto de Walther Ishikawa.




 

Suas larvas são alongadas e cilíndricas, semelhantes a vermes, medindo até 3 cm (geralmente bem menores). Têm cabeças esclerotizadas e bem delimitadas, e não possuem patas verdadeiras, somente dois pares de pró-patas nas duas extremidades, no primeiro segmento torácico, junto da cabeça, e também no último abdominal. Muitas constroem tocas tubulares usando seda e debris, vivendo no seu interior, raramente ou nunca saindo delas. Através de constante ondulação do corpo no interior do tubo, a larva mantém uma constante renovação da água para trocas gasosas e para alimentação. Nadam mal, geralmente se rastejam no substrato levando suas tocas, ou vivendo no interior das tocas fixas. Algumas são minadoras, obrigatórias ou facultativas. Constroem tocas em plantas (Cricotopus), ou madeira submersa (Stenochironomus). Outras vivem no interior de esponjas de água doce, ou colônias de briozoários. Quando precisam nadar, movem-se de forma serpenteante, em “figura de 8”.




Vivem em tocas tubulares feitas de debris. Fotos de Walther Ishikawa.



Outra espécie, as tocas tubulares numa folha, à esquerda. Fotos de Walther Ishikawa.




Tocas no fundo lodoso de um lago, em Vinhedo, SP.
Foto de Walther Ishikawa.








Massa de ovos de quironomídeo, surgiu num paludário em Vinhedo, SP. Na primeira foto, junto a um caramujo Drepanotrema. As demais mostram a eclosão dos ovos.
Fotos de Walther Ishikawa.


 

São insetos “verdadeiros aquáticos”, não necessitando fazer visitas à superfície para respirar oxigênio atmosférico. São apnêusticas e capazes de respirar o oxigênio dissolvido na água através de difusão pela superfície do corpo. Expansões na extremidade posterior das larvas também contribuem para a obtenção do oxigênio dissolvido. Muitos têm hemoglobina no seu fluido corpóreo, o que dá uma bela coloração vermelha, daí seu nome Bloodworm (verme-sangue). Mas existem espécies de variadas cores, como branco, verde e castanho. Geralmente, espécies que vivem em ambientes pobres em oxigênio têm cor vermelha mais intensa, e é o que permite a estas larvas viverem em algumas condições bastante desfavoráveis. Quando o oxigênio ligado à hemoglobina é depletado, as larvas passam a um metabolismo anaeróbio, com fermentação alcoólica a partir de glicogênio. O ATP é gerado a partir do etanol.













Larvas e pupas de quironomídeos da subfamília Chironominae, note a intensa coloração. Coletados em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.

 

Larvas são raspadoras ou coletoras de detritos, embora poucas espécies sejam predadoras. Algumas espécies que vivem em água corrente constroem teias para capturar debris, como o Rheotanytarsus, cujos casulos são dotados de hastes, onde a larva tece a rede. De tempos em tempos a rede é comida, e outra é construída. Mesmo algumas espécies que constroem tocas tubulares simples podem tecer pequenas redes no interior destas, que retém as partículas. Periodicamente a larva muda de posição e cria uma contracorrente para desobstruir o casulo e, então ingere a teia junto com os detritos aderidos.










Larvas de quironomídeos da subfamília Chironominae, provável Polypedilum, coletados no fitotelma de uma bromélia, em Paraty, RJ.
Fotos de Walther Ishikawa.









Larva de quironomídeo Chironominae minadora de plantas aquáticas, fotografada em Foz do Iguaçu, PR. Foi coletada acidentalmente junto a ovos de Asolene. A primeira imagem mostra também um diminuto ostracóide. Na primeira foto também podem ser vistos seus dois pares de olhos, em posição superior/inferior. Fotos de Walther Ishikawa.



Larva de quironomídeo Chironominae, Stenochironomus ou Xestochironomus. São minadoras de madeira e folhas submersas e de macrófitas aquáticas. Fotografado no Parque Juquery, Franco da Rocha, SP. Foto de Walther Ishikawa.





Minúsculo quironomídeo de vida livre, provável Tanypodinae, fotografado em Foz do Iguaçu, PR. Foi coletada acidentalmente junto a ovos de Asolene. Fotos de Walther Ishikawa.








Larvas de quironomídeos Chironominae minadoras de troncos submersos, talvez Stenochironomus, encontradas em um tronco de pinheiro submerso na Cachoeira do Jamil, São Paulo, SP. Fotos de Alex Marques Gerola.






Outra pupa, bem vermelha, e o saco de ovos em espiral. Fotos de Walther Ishikawa.



Outro tipo de massa de ovos, flutuante, de outra espécie (Goeldichironomus?). Fotos de Walther Ishikawa.









Massas de ovos nas margens de uma lagoa em Vinhedo, SP. Note que há dois tipos de massas de ovos, em arranjo espiral (Chironomus?) e em zigue-zague (
Goeldichironomus?). Fotos de Walther Ishikawa.








As mesmas massas de ovos das fotos acima, após 24h (duas primeiras imagens) e 48h (última). A massa em zigue-zague mostra um aumento do seu volume, agora com aspecto alongado e serpentiforme. 
Fotos de Walther Ishikawa.






Pupa, note os cornos torácicos com aspecto de tufos. Fotos de Walther Ishikawa.


 

 

Ciclo de Vida

 

Ovos enfileirados são depositados na água pelos adultos voadores, envoltos em uma massa gelatinosa. A massa ovígera tem formas variadas (cilíndrica, esférica, fita, espiral, zigue-zague, etc). O desenvolvimento embrionário dura aproximadamente 40 horas, nascendo a larva aquática. Após uma fase larval com quatro estágios de duração variável (semanas em áreas tropicais, a 7 anos em regiões polares), transforma-se em pupas que lembram vagamente pupas de culicídeos, mas com abdômen mais longo, bastante ativas. Seus cornos torácicos lembram tufos de pelos brancos, usados em trocas gasosas. Assim como as larvas, as pupas também não necessitam ir à superfície para obter ar, permanecendo no fundo. Só se dirigem à superfície no momento da eclosão do adulto. Pupas de espécies que vivem em água corrente podem construir casulos aderidos a substratos com seda. Os adultos voadores emergem diretamente da superfície da água. Adultos vivem poucos dias, têm boca atrofiada, a maioria não se alimenta. Algumas sugam água e néctar. Podem ser identificadas com relativa facilidade, pela posição típica do primeiro par de pernas quando pousam (veja fotos).







GIF animado mostrando um Quironomídeo adulto emergindo da pupa. Fotos de Walther Ishikawa.





Quironomídeo adulto, com bela coloração. Note a típica postura com o primeiro par de pernas elevado. Foto de Marcos Teixeira de Freitas.








Quironomídeos adultos machos, fotografados em Vinhedo, SP. Os mosquitos das duas primeiras fotos (o primeiro pousado em uma janela contra a luz), lembram bastante Goeldichironomus, com manchas escuras no tórax. Fotos de Walther Ishikawa.






Quironomídeo adulto, talvez um Axarus, fotografado em Fortaleza, CE. Imagem gentilmente cedida por Oscar Neto.





Quironomídeo adulto (Parachironomus?) fotografado em Campos do Jordão, SP. Foto de Walther Ishikawa.







Quironomídeo adulto fotografado em Tamoios, RJ. Fotos de Lucas Rimis.


 


Quironomídeo (talvez Oukuriella sp.) fotografado em São Pedro do Suaçuí, MG. Foto de Geferson Coelho.














Quironomídeos da subfamília Chironominae, provável Stenochironomus, fotografados em Vinhedo, SP. Note o exacerbado dimorfismo sexual. A segunda fêmea da segunda foto está com ácaros aderidos ao seu tórax. Fotos de Walther Ishikawa.


 





Veja a segunda parte do artigo  aqui .

 
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