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Outros Dípteros 2  
Artigo publicado em 13/11/2012, última edição em 24/10/2017  


Outros Dípteros - Brachycera

            Dando continuidade ao artigo sobre dípteros aquáticos, neste segundo texto abordaremos insetos da sub-ordem Brachycera (dípteros muscóides, moscas e afins), chamados por alguns de "Dípteros superiores". O primeiro artigo abordou os Nematocera, o link do artigo pode ser visto  aqui .



Mosca de Praia, Mosca de Salmoura (família Ephydridae)

            Representado por 1800 espécies válidas, 317 espécies neotropicais, esta família inclui pequenas moscas escuras que vivem em locais alagados, muito frequentes no litoral, daí seu nome. São adaptados a viverem em locais extremamente inóspitos, sendo comumente vistos em pequenos lagos salgados da praia, se alimentando de animais mortos trazidos pela maré.
            Grande maioria das espécies têm larvas aquáticas ou semi-aquáticas. Ovos são depositados na água pelos adultos voadores. Suas larvas são semelhantes às larvas da mosca doméstica comum, translúcidas e fusiformes. Cápsula cefálica ausente, podem ter uma cauda bifurcada na extremidade, terminando em tubos respiratórios. Rastejam no substrato com movimentos peristálticos, ou vivem na superfície. Pupas fusiformes, têm um longo par de tubos respiratórios, característicos desta família. Como muitos outros Brachycera, na pupação a larva não abandona a exúvia, que se esclerotiza, a pupa se desenvolve no interior desta, formando um "Pupário"
(pupa do tipo "coarctata". Isto não ocorre nos Nematocera, com pupas do tipo "obtecto").

Possuem grande tolerância a habitats extremamente inóspitos, como fontes termais sulfurosas altamente alcalinas e lagos salinos. Dessa forma esses dípteros apresentam uma ampla distribuição geográfica. Resistentes a poluição. Locais comumente vistos são brejos, margens de lagoas e rios e litoral marinho (em inglês são conhecidos como “shore flies” ou “brine flies”). A espécie Helaeomyia petrolei é o único animal que vive naturalmente em poças de petróleo cru. Ephydra brucei vive em fontes termais e gêisers onde a temperatura ultrapassa 45º C. Existem registros de larvas sobrevivendo em cadáveres embebidos em formol.

Alimentação bastante diversificada, microalgas, detritos e materiais orgânicos variados, alguns são filtradores, outras são minadoras de plantas aquáticas, e ainda outras parasitóides de ovos de aranhas ou de rãs. Algumas poucas são predadoras. Geralmente as larvas respiram através de difusão, não necessitando ir à superfície. Algumas espécies respiram ar através dos seus espiráculos posteriores, outras obtêm oxigênio de plantas aquáticas, construindo tocas nos seus caules, ou inserindo estruturas tubulares nestas. Adultos polifagos, exceto poucas espécies predadoras.

 



Espécime coletado num pequeno lago que havia sido desinfectado com água sanitária, para matar larvas de mosquito da Dengue. Fotos de Walther Ishikawa.


Sua pupa, note o longo par de chifres respiratórios. Note também que a região abdominal permanece revestida pela exúvia da larva ("pupário"). Fotos de Walther Ishikawa.



Larva de Mosca de Praia, Ephydra sp., imagens cedidas por Matheus Peixoto. A larva foi descoberta numa criação abandonada de Artêmia (ambiente de alta salinidade).




Pupa de outra espécie, num paludário de água salobra. Fotos de Walther Ishikawa.




Grupo de Efidrídeos caminhando sobre a superfície da água. Fotografado nas margens de um riacho em Barra do Ribeiro, RS. Fotos de Walther Ishikawa.




Grande concentração de efidrídeos sobre a superfície da água, às margens do Rio Grande, em Guaraci, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Efidrídeo, provável Ochthera. Note suas pernas dianteiras raptoriais. Fotografado em Belém (PA), foto de César Favacho.







Larva de Efidrídeo encontrado em um aquário, no Rio de Janeiro RJ, medindo 5~7 mm, talvez um Brachydeutera. Note o aspecto bastante não-usual, com duas grandes brânquias externas na região caudal. Esta larva vive na superfície da água, respirando ar. O vídeo abaixo mostra melhor sua anatomia. Fotos de Leandro Crespo.




Vídeos do mesmo Efidrídeo das fotos acima. Vídeo cortesia de Leandro Crespo.



Moscas do Brejo, Moscas "Matadoras de Caramujos" (família Sciomyzidae)

            Pequenas moscas, com a maioria das larvas aquáticas ou semi-aquáticas, algumas poucas espécies com larvas terrestres. Cerca de 533 espécies no mundo, 30 neotropicais. Em inglês chamadas de "Marsh fly" ou "Snail-killing fly".
            Larvas de até 2,0 cm, com corpo alongado, fusiforme com as extremidades afiladas. Corpo flácido e carnoso, rugoso e pregueado, semelhante a couro, porém translúcido. Curtos tubérculos arredondados em cada segmento corporal. Extremidade caudal margeada por estruturas flácidas semelhantes a tentáculos. Cabeça pequena, arredondada e retrátil nos primeiros segmentos torácicos.
            Vivem em águas estagnadas, em charcos e pântanos, ou próximo às margens de lagoas e rios com pouca correnteza. Geralmente vivem flutuando imediatamente abaixo da superfície da água (hiponêuston). Para isto fazem uso de pêlos impermeáveis na região posterior, além de uma grande bolha de ar no seu estômago. Alguns depositam seus ovos em objetos pouco acima da superfície d´água, outros depositam ovos diretamente na concha de caramujos vivos. Quando nascem, estas larvas entram na concha do caramujo e se alimentam de seus tecidos sem causar sua morte imediata. A pupação muitas vezes se dá no interior de uma concha de caramujo.
            Larvas predadoras, se alimentam quase que exclusivamente de caramujos e seus ovos. Durante a fase larval, uma única larva vai se alimentar de cerca de 24 caramujos. Espécies deste grupo são usadas como agentes de controle biológico de caramujos hospedeiros de doenças humanas, como a Fascíola e a Esquistossomose. Adultos se alimentam de néctar. Larvas obtêm oxigênio do ar, ou possuem respiração cutânea.







Larvas de Sciomyzidae, espécie desconhecida, cerca de 20 mm. Vivia na superfície da água, se locomovendo com movimentos de flexão e extensão da sua região cefálica, enquanto mantinha o resto do corpo flutuando, como nas últimas duas fotos. Coletado em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Sciomyzidae adulto, fotografado em Abaetetuba, PA. Foto cortesia de Bruno Garcia Alvares.



Larva Rabo-de-Rato (família Syrphidae)

São larvas de algumas espécies de moscas-das-flores da família Syrphidae. Em inglês, os adultos são chamados de “flower fly” ou “hover fly” devido à sua habilidade de pairar no ar, semelhantes a um beija-flor. São grandes moscas com padronagens e cores imitando abelhas e vespas (negras com faixas brancas, amarelas e laranjas), com os quais são frequentemente confundidos (mimetismo batesiano). A espécie mais comum, Eristalis tenax, imita com perfeição o aspecto da abelha melífera européia (Apis mellifera). Adultos se alimentam de pólen e néctar, preferem flores de cor amarela, são importantes agentes polinizadores. Machos são territoriais, vive toda sua vida num território bem estabelecido, o qual defende vigorosamente. Espécie cosmopolita, encontrado em todos os continentes exceto Antártida, tanto em locais de clima quente como frio.

Larvas com corpo cilíndrico, semelhantes às larvas da mosca comum, mas com aspecto translúcido e enrugado, com pregas transversais. Sifão respiratório longo e fino, na cauda do animal. O sifão tem aspecto tubular, e é composto de três segmentos telescópico. Funciona como um “snorkel” de mergulho, permitindo que a larva respire ar enquanto submersa. O sifão possui pelos hidrófobos na extremidade. Em repouso, o sifão tem o comprimento aproximado do corpo da larva (cerca de 2 cm), mas pode ser bastante estendido, atingindo até 15 cm. Em inglês são chamados de “rat-tailed maggot”. A pupa tem um aspecto muito parecido com a larva, também com sifão, mas seu corpo é mais curto e largo. Possui dois apêndices torácicos semelhantes a chifres, que auxiliam na sua respiração. Sua cauda não é móvel, permanecendo fixa numa posição curvada para o dorso. Ficam em local seco, por oito a dez dias, enterrados pouco abaixo da superfície. Existe um relato em literatura científica de neotenia e pedogênese destas larvas, ou seja, a maturidade sexual na fase larvar, e a produção por partenogênese de filhotes, sendo descrito neste artigo a geração de sete a trinta cópias.

Ovos brancos, alongados, e envoltos por material adesivo, são depositados alinhados próximo à superfície da água, ou em meio a material em decomposição. Vivem em águas estagnadas, pobres em oxigênio, com alto conteúdo orgânico, enterrados no substrato. É bastante tolerante a poluição, vivendo em fossas e esgotos. Larvas detritívoras, se alimentam de material orgânico em decomposição, de origem animal ou vegetal. Provavelmente as descrições bíblicas de abelhas surgindo de animais mortos são desta espécie, cujas larvas podem se desenvolver em carcaças, e os adultos lembram abelhas. Em alguns países são criados para serem usados como iscas de pesca, especialmente em países frios, na pesca no gelo.

Existem casos esporádicos de Pseudomiíase Gastrointestinal Humana relacionadas a esta larva, com casos registrados inclusive no Brasil. São sempre associadas a péssimas condições de higiene, as larvas se desenvolvem no intestino, sendo posteriormente eliminadas junto às fezes. Não se sabe ao certo se ovos são ingeridos junto à água contaminada ou alimentos estragados, ou ainda se os ovos são depositados próximo ao ânus do paciente, e migram para o interior do reto. Existem muitos outros casos registrados de larvas se desenvolvendo em outras cavidades corporais, como nariz, ouvido, vagina, etc, todos relacionados a precárias condições de higiene.

Sirphidae é um grupo grande e diverso, com cerca de 6000 espécies. Existem outros Sirfídeos com larvas semi-aquáticas, estimado em mais de 1000 espécies, na região neotropical são representados por 257 espécies. Podem ser encontrados em diversos habitats, como fitotelmas de buracos de troncos de árvores e bromélias, e áreas marginais de lagos, inclusive em água salobra. Algumas espécies asiáticas desenvolvem-se em reservatórios de água de plantas carnívoras Nepenthes.

 





Larvas de Sirfídeo, coletado numa poça d´água num bosque em Campos de Jordão (SP), em água de chuva acumulada num pedaço de caixa d´água quebrada. Fotos de Walther Ishikawa. A primeira imagem do artigo também é desta espécie. Fotos de Walther Ishikawa.






Pupas de Sirfídeos, as fotos abaixo mostram pupas mais desenvolvidas. Fotos de Nicholas Yukio Cavalcanti Takaoka.







Larva de Lepidomyia / Myiolepta, estes Sirfídeos se desenvolvem em coleções de água em buracos de troncos de árvores. São saprófagas, seu tubo respiratório curto e projeções dos últimos segmentos abdominais são típicos. Fotografado em Vinhedo, SP, imagens de Walther Ishikawa.






Eristalis tenax adulto,
espécie cosmopolita, note o belo mimetismo imitando uma abelha melífera. Foto gentilmente cedida por Luciana Bartolini.


Eristalinus sp., "Mosca-Tigre", outra espécie com larvas aquáticas. Fotografado em Vinhedo, SP. Foto de Walther Ishikawa.




A segunda parte do artigo sobre os Brachycera pode ser vista  aqui .

 
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