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Invertebrados Sésseis  
Artigo publicado em 24/12/2012, última edição em 03/06/2017  

Outros Invertebrados Sésseis de Água Doce


Em contraste com a grande diversidade de invertebrados sésseis marinhos, a variedade destes animais em água doce é relativamente pequena. As criaturas mais importantes foram abordadas em artigos específicos, como as  Esponjas ,  Briozoários  Hidras ,  Hidróides Protozoários Coloniais  e  Mixomicetos . Este é um artigo complementar, abordando os organismos mais incomuns, mas que com alguma frequência podem surgir como invasores ou visitantes acidentais nos nossos aquários.


Temnocephala


            Vejam as fotos abaixo. Qual é seu primeiro palpite? Hidras talvez? Quando primeiro descrito, em 1849, no Chile, foi confundido e batizado como uma Sanguessuga. Na realidade, as Temnocephala são vermes platelmintos, parentes próximos das  Planárias . De início, foram classificados na classe Monogenea, juntamente com outros platelmintos ectoparasitas, mas atualmente compõem uma ordem à parte, Temnocephalida, de acordo com a taxonomia tradicional.  Nas novas classificações cladísticas, está incluída dentro dos Rhabdocoela.

            Atualmente são conhecidas cerca de 20 espécies, todas elas centro/sul-americanas. Vermes parecidos da mesma família ocorrem também na Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e Madagascar.

            São vermes ectossimbiontes, vivendo aderidos à superfície externa de diversos hospedeiros, como crustáceos (caranguejos, Aeglas), moluscos, insetos aquáticos e tartarugas. Algumas espécies se alojam também nas cavidades branquiais de crustáceos, e cavidades pulmonares de Ampularídeos, sem aparente prejuízo funcional. Alimentam-se de pequenos invertebrados. Seus ovos são depositados nestas superfícies, se assemelhando a pequenas sementes ovoides, fixos por um curto filamento aderente. São mais comuns em ambientes com pouca correnteza, em águas ligeiramente ácidas.

            Podem medir até pouco mais de 1 cm, brancos ou branco-amarelados, e à primeira vista possuem um aspecto semelhante a Hidras, com um corpo alongado, um disco de sucção basal e cinco tentáculos. Mas olhando com mais cuidado pode ser visto que têm um corpo mais achatado e robusto, com simetria bilateral, e um par de pequenos olhos vermelhos, muito parecidos com os olhos das suas primas Planárias. Locomovem-se de forma idêntica às sanguessugas, com movimentos de contração e extensão, ancorados no disco de sucção basal e nos seus tentáculos.

 




Temnocephala sobre um Aegla uruguayana, animal coletado em um riacho argentino. Fotos de Hernán Chinellato.



Close dos mesmos Temnocephala das fotos acima. Note os olhos. Fotos de Hernán Chinellato.




Ovos de Temnocephala sobre um Aegla sp., na segunda foto, os vermes próximos à sua região bucal. Imagens gentilmente cedidas pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP). Fotos de Bruno F. Takano.



Detalhe dos ovos de Temnocephala sobre um Aegla sp.. Imagens gentilmente cedidas pelo Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno (LEEUSP). Fotos de Bruno F. Takano.


            Um parente próximo destes vermes, que pertencem à mesma família, mas a outra superfamília são os Scutariella. São relativamente comuns em camarões anões ornamentais, e há controvérsia se são ectoparasitas ou ectocomensais.




Scutariella japonica sobre um Neocaridina heteropoda var. "Yellow". Na primeira foto, ovos dos vermes podem ser vistos abaixo da carapaça transparente do cefalotórax do camarão, na sua região lateral. Fotos de Elton Ishikawa.




Rotíferos coloniais


            Outro grupo de organismos aquáticos que não se espera que estejam neste artigo são os Rotíferos. Os Rotíferos estão entre os menores animais metazoários (animais multicelulares com o corpo organizado em órgãos e sistemas, como nós), medindo até cerca de 0,5 mm, possuindo somente cerca de 1000 células no seu corpo. Embora simples, possuem cérebro, estômago, sistema excretório e reprodutor. É um fato bizarro que um organismo complexo assim seja tão pequeno, não raramente menor ainda do que outros organismos unicelulares com os quais dividem seu habitat.

Embora pouco conhecidos por nós, aquaristas (justamente pelo seu pequeno tamanho), os Rotíferos são bastante estudados por microscopistas, e mesmo por amadores com microscópios caseiros. É um dos animais mais fascinantes de serem observados, com seus corpos transparentes, movimentos complexos e variados estilos de vida. Talvez sua característica mais marcante, motivo pela qual foram chamados de “wheel animals” (“animais-roda”) pelos primeiros microscopistas, é a sua “corona” de cílios circundando dois lobos, que, com seu rápido movimento, dá a nítida impressão de rodas em rotação. Quando está fixo, este movimento gera uma corrente de água que traz alimentos à sua boca. Quando se destaca do substrato e nada, as coroas atuam como hélices propulsoras duplas. Inclusive, seu nome vem daí (do latim: rota = rotação; ferre = possuir).

Rotíferos têm ainda duas características extraordinárias: primeiro, conseguem sobreviver longos períodos (até centenas de anos) em um estado dormente de desidratação ou congelamento. Segundo, eles exibem o que é chamado de constância celular, que é um crescimento baseado não em divisão celular, mas no crescimento volumétrico da própria célula. Rotíferos passam toda sua vida, desde o nascimento até sua morte, com o mesmo número de células no seu corpo.

São, na sua maioria, habitantes de água doce (menos de 5% são marinhos), invisíveis a olho nu mas bastante numerosos, com um importante papel ecológico no processo de purificação da água, filtrando partículas em suspensão, além do seu papel fundamental na cadeia alimentar, servindo de alimento a diversas espécies de peixes e outros animais. Muitas espécies são criadas como alimentos vivos.

Bom, depois desta longa introdução, finalmente a explicação de Rotíferos estarem neste artigo: existe um pequeno grupo de Rotíferos coloniais que formam belas estruturas que podem ser vistas a olho nu, pequenas esferas esbranquiçadas de aspecto “peludo” medindo até alguns centímetros, aderidas a plantas aquáticas e demais objetos submersos. Lembram um delicado “dente-de-leão” em miniatura. Das 2000 espécies de Rotíferos conhecidos, somente 25 são coloniais, a mais comum pertence ao gênero Sinantherina, outro gênero relativamente comum é o Lacinularia, ambas com registros no Brasil.

Um aspecto bastante interessante destes Rotíferos é o fato deles serem muito pouco predados. Como mencionado, Rotíferos são alimentos bastante apreciados por peixes e outros animais aquáticos, uma forma colonial de maiores dimensões seria um petisco vulnerável e bastante apetitoso. Por um mecanismo não esclarecido, estas colônias são muito pouco palatáveis, os peixes abocanham as colônias, mas terminam por cuspi-las, e invertebrados predadores também rejeitam estas espécies.





Colônia de Sinantherina socialis crescendo sobre ramos de Myriophyllum, fotografada em um aquário, colônia coletada no lago Engelermeer, ao norte de ’s-Hertogenbosch, Holanda (Países Baixos). Fotos cortesia de Peter H. van Bragt.







Colônia de rotíferos (provável Sinantherina) fotografado em um aquário em São Paulo, SP. A colônia se destacou do substrato, e foi vista "nadando" à meia-água.
Fotos e vídeos cortesia de Fernando Barletta.

 


Polypodium hydriforme


Apesar de incomuns, os Cnidários de água doce estão bem representados na nossa galeria, com informações sobre as  Hidras ,  Hidróides  e  Medusas Dulcícolas . Na realidade, existe uma última espécie, que será brevemente mencionada aqui mais como curiosidade, já que não ocorre no Brasil, somente no Hemisfério Norte. Entretanto, é um animal fascinante, com uma estratégia de sobrevivência bastante bizarra, como vocês poderão ver.

O Polypodium hydriforme é o um dos poucos Cnidários parasitas conhecidos. É o único representante conhecido do gênero, que por sua vez é o único representante da família Polypodiidae, e o único representante da classe Polipodiozoa. Algo mais impressionante é o fato de ser um dos raríssimos parasitas multicelulares intracelular, ou seja, que vive no interior da célula hospedeira.

É um parasita de ovos de Esturjões, o famoso “caviar negro”, é conhecido desde 1871, quando foi descrito no Rio Volga, antiga URSS, chamada de “Larva parasita de Owsjannikow”, o primeiro cientista que descreveu o animal.

O parasitismo ocorre enquanto os ovos ainda estão no interior do corpo do peixe, durante vários anos. No interior do ovo, a larva planuliforme do Polypodium se apresenta “invertida”. Os Cnidários possuem uma anatomia simples, de duas membranas celulares, a gastroderme no interior, com funções digestivas, e a epiderme por fora, onde estão as células urticantes. Estas larvas estão ao avesso, com a gastroderme na face externa, em contato com o material vitelínico do ovo.

Assim como os demais Cnidários, estas larvas se desenvolvem até a forma de Estolos, como se fossem pequenas medusas empilhadas. Mas mesmo nesta fase, sua anatomia é invertida, com a gastroderme virada para fora, e a epiderme (com os tentáculos e células urticantes) para dentro. Pouco antes da eclosão dos ovos, as larvas se evertem (como uma meia ao avesso), englobando um bolsão de “gema” do ovo, que será armazenada nesta cavidade gástrica recém-formada, e digerida durante o crescimento da larva. No momento do nascimento, o estolo se fragmenta em múltiplos animais semelhantes a Pólipos, mas com longos tentáculos e quase sem tronco. Demais detalhes do seu modo de vida são desconhecidos, inclusive a forma exata que ocorre a infecção dos oócitos do Esturjão.

 


Polypodium hydriforme, fotos de Ekaterina V. Raikova, extraídas da fonte 16 (veja Bibliografia). Na primeira foto, um estolo de larvas recém-extraída do ovo de Esturjão. Na segunda foto, quatro exemplares de pólipos de vida livre.


Bibliografia

  • Damborenea MC, Cannon LRG. On neotropical Temnocephala (Platyhelminthes). Journal of Natural History. Volume 35, Issue 8, 2001, p1103-1118.
  • Haswell WA. On Temnocephala, an Aberrant Monogenetic Trematode. Quarterly Journal of Microscopical Science. 28: 279–302, 1887, p 20–22.
  • Brusa F, Damborenea MC. First Report of Temnocephala brevicornis Monticelli 1889 (Temnocephalidae: Platyhelminthes) in Argentina. Mem Inst Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Vol. 95(1): 81-82, Jan./Feb. 2000.
  • Amato JFR, Amato SB, Seixas SA. Temnocephala lutzi Monticelli (Platyhelminthes, Temnocephalida) ectosymbiont on two species of Trichodactylus Latreille (Crustacea, Decapoda, Trichodactylidae) from southern Brazil. Rev. Bras. Zool. 2005 Dec; 22(4): 1085-1094.
  • Martín PR, Estebenet AL, Burela S. Factors affecting the distribution and abundance of the commensal Temnocephala iheringi (Platyhelminthes: Temnocephalidae) among the southernmost populations of the apple snail Pomacea canaliculata (Mollusca: Ampullariidae). Hydrobiologia. Volume 545, Issue 1, August 2005, pp 45-53.
  • Felix A, Stevens ME, Wallace RL. Unpalatability of a Colonial Rotifer, Sinantherina socialis, to Small Zooplanktivorous Fishes. Invertebrate Biology, Vol. 114, No. 2 (Spring, 1995), pp. 139-144.
  • Walsh EJ, Salazar M, Remirez J, Moldes O, Wallace RL. Predation by invertebrate predators on the colonial rotifer Sinantherina socialis. Invertebrate Biology, (2006). 125: 325–335.
  • Evans NM, Lindner A, Raikova EV, Collins AG, Cartwright P. Phylogenetic placement of the enigmatic parasite, Polypodium hydriforme, within the phylum Cnidaria. BMC Evol Biol. 2008, 8:139.
  • Raikova EV. Life Cycle, Cytology, and Morphology of Polypodium hydriforme, a Coelenterate Parasite of the Eggs of Acipenseriform Fishes. The Journal of Parasitology, Vol. 80, No. 1 (Feb., 1994), pp. 1-22.
  • Niwa N, Ohtaka A. Accidental Introduction of Symbionts with Imported Freshwater Shrimps. In: Assessment and Control of Biological Invasion Risk, Koike F, Clout MN, Kawamichi M, De Poorter M, Iwatsuki K. (Eds.). World Conservation Union, Switzerland, 2006; pp: 182-186.




Agradecimentos aos colegas aquaristas Fernando Barletta e Hernán Chinellato (Argentina), e também aos colegas zoólogos Prof. Sergio Luiz de Siqueira Bueno e Bruno F. Takano (Laboratório de Estudos de Eglídeos da USP), Peter H. van Bragt ( Fundação Anemoon , Países Baixos), e Ekaterina V. Raikova (Rússia) pelo uso do material fotográfico.




As fotografias do artigo Evans NM, et al. (2008) estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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