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"Bloodworm" 2  
Artigo publicado em 02/08/2015, última edição em 08/08/2022  


Bloodworms - Mosquitos Quironomídeos


 

Segunda parte do artigo abordando os Dípteros Quironomídeos. A primeira parte pode ser vista  aqui .






 

Enxames


Embora não sejam hematófagos, quironomídeos não são totalmente inócuos aos seres humanos. Em algumas localidades, os adultos emergem da pupa simultaneamente, formando grandes enxames, quando podem até representar perigo a animais e humanos, entrando em olhos, boca e nariz, pelo risco de asfixia. Não se sabe qual é o gatilho desta metamorfose sincronizada. À distância, parece uma coluna de fumaça emergindo da água. Pode prejudicar a visibilidade ao dirigir. Suas fezes são volumosas, deixando prédios e residências tão sujas que necessitam de nova pintura. Após a reprodução, morrem aos milhões, seus corpos se acumulando nas ruas, e entupindo aparelhos e ar condicionado.

 

Por outro lado, quando adultos emergem no Lago Victória, na África, são capturados com redes e usados na alimentação humana, na forma de bolos. É uma importante fonte de proteínas para a população local.








Grande enxame de Quironomídeos, fotografado na margem norte do Lago Erie, próximo a Port Burwell, Ontario, Canadá. A segunda imagem mostra os insetos em magnificação. Fotos de Bruce Bolin.





Enxame de Quironomídeos fotografado em Norfolk, Inglaterra. Foto de Paul Bunyard.




Alergia a Bloodworm


Desde a década de 50, reações de hipersensibilidade a Quironomídeos têm sido relatadas em diversos países, como Japão, Sudão, EUA, Egito, Suécia e Itália, em locais onde há grande densidade destes insetos próximos a corpos d´água. Geralmente são alergias respiratórias, com quadros de rinoconjuntivite e asma, desencadeadas por diminutos fragmentos e partículas desprendidas por estes insetos no processo de metamorfose de pupa para o adulto. Provavelmente o alérgeno é a hemoglobina de baixo peso molecular. 

 

Porém, com o crescente uso de formas industrializadas de Quironomídeos como alimento para peixes, existem relatos de reações alérgicas em humanos, desencadeadas por bloodworms liofilizados ou congelados. São mais comuns em pessoas que manipulam estes produtos com maior regularidade, como funcionários de petshops e fábricas de alimentos, mas pode ocorrer com qualquer aquarista. Algumas reações podem ser graves (há um relato de angioedema na Espanha), necessitando tratamento hospitalar. Havendo sintomas respiratórios, em olhos e vias aéreas superiores, ou ainda, reações alérgicas cutâneas nas mãos após contato com estes alimentos, é prudente procurar atendimento médico para investigar a possibilidade de alergia.

 



Alimentos vivos

 

É muito comum Bloodworms serem encontrados em aquários em maturação, não há problema algum em fornecê-los aos nossos peixes como alimentos vivos, após cuidadosa limpeza. Deve-se agitar vigorosamente a água em torno das suas tocas, a fim de desfazê-las (geralmente elas são frágeis, se desfazendo facilmente), para então coa-las em uma tela, como tule ou uma rede de aquário de malha mais fina. Em armadilhas de mosquitos ( veja o artigo aqui ), é muito comum a sua presença juntamente com os culicídeos.

Outro lembrete importante (válido para qualquer alimento vivo), não se deve utilizar nenhum animal coletado na natureza (como lagoas) como alimento, estes sim podem ser vetores de importantes doenças para os peixes, como vermes trematóides e bactérias.








Vivendo em ambientes extremos


Quironomídeos são um grupo bastante heterogêneo, com espécies com larvas aquáticas, terrestres e até marinhas. Muito resistentes à poluição, algumas espécies se especializaram em locais bastante inóspitos, talvez mais extremos do que qualquer outro inseto aquático:



Calor: Algumas espécies neozelandesas habitam barrancos associados a fontes geotermais de regiões vulcânicas, onde a temperatura pode atingir 43º C, como a Ephydrella thermarum, Chironomus cylindricus e uma espécie de Polypedilum.

 

Polypedilum vanderplanki: Chamado de “Sleeping Chironomid”, esta espécie é encontrada em regiões semi-áridas africanas, como na Nigéria e Uganda. Suas larvas vivem no lodo de lagoas temporárias e depressões rochosas que frequentemente sofrem dessecação completa. Quando isto ocorre, a larva entra em animação suspensa e desidrata até chegar a somente 3% de composição de água. Nestas condições, a larva é extremamente resistente a condições ambientais inóspitas, podendo sobreviver ao frio de Hélio líquido (-270º C) e calor de 102º C, altos índices de radiação gama (7000 gray) e exposição ao vácuo espacial por mais de um ano. Poucos metazoários conseguem esta desidratação quase completa (anidrobiose). Quando reidratados em imersão em água, retomam suas atividades. Em laboratório, foi demonstrado que estas larvas podem sobreviver a pelo menos 10 ciclos de desidratação e reidratação. O recorde é uma larva que foi revivida após estocada em sedimento seco por 17 anos.





Polypedilum vanderplanki, ciclos de desidratação e rehidratação em laboratório. Foto extraída de Cornette R, et al. 2010 (veja bibliografia), Licença Creative Commons.




Vídeo de um
Polypedilum vanderplanki, rehidratação e reanimação. Vídeo gentilmente cedido pela empresa de imagens de microscopia japonesa Grendel. Veja seu canal YouTube  aqui  . O link para o site do Grendel está ao final do artigo.



 

Fitotelmata: Muitos quironomídeos são encontrados em bolsões de água de Bromélias, no Brasil são comuns as espécies dos gêneros Polypedilum e Monopelopia. Na América do Norte, a espécie Metriocnemus knabi vive nos reservatórios de água das plantas carnívoras do gênero Sarracenia, por um mecanismo não muito claro, impedindo de serem digeridas pela planta.







Larvas das subfamílias Tanypodinae e Chironominae (provável Polypedilum), coletadas em fitotelmata de bromélias, respectivamente em Campos de Jordão (SP) e Paraty (RJ). Fotos de Walther Ishikawa.




 

Profundidade: Sergentia koschowi vive na lama no fundo do Lago Baikal na Rússia, a uma profundidade de 1360 m. Tem olhos rudimentares, e uma cor forte vermelha, devido à hemoglobina.

 

Espécies terrestres: Larvas de algumas espécies são totalmente terrestres, vivendo em solo úmido e vegetação. A espécie australiana Camptocladius stercorarius especializou-se em viver exclusivamente em fezes de bovinos. Outra espécie, Eretmoptera murphyi, vive em musgo e turfa úmida. Esta espécie é interessante, é nativa da zona subantártica na Ilha Geórgia do Sul, os adultos têm asas rudimentares, sem capacidade de voo. É um dos dois únicos invertebrados terrestres introduzidos na Antártida, onde está bem estabelecido, e expandindo sua distribuição.





Eretmoptera murphyi, fotografado em Prince Olav Harbour, Ilhas Geórgia do Sul. Foto de Roger S. Key.



 

Frio: Outra espécie áptera é encontrada no próprio continente Antártico, Belgica antarctica, sendo a única espécie de inseto nativo do continente, e a maior espécie animal totalmente terrestre, apesar de medir somente 6 mm (sua larva, o inseto adulto mede somente 3 mm). Como dito, todo seu ciclo de vida é terrestre, vivendo em algas, musgo e no solo em torno das raízes de gramíneas. As larvas também são atraídas por solos ricos em nutrientes associados a ninhos e colônias reprodutoras de Pinguins, Aves Marítimas e Focas. Podem sobreviver a congelamento e desidratação, imersão em água doce (água de degelo) e água salgada (trazida por tempestades). Podem até viver sem oxigênio por um mês, o que acontece quando fica enterrado em gelo, ou em guano de Pinguins, repleto de bactérias que depletam todo o oxigênio disponível. Tanto as larvas quanto os adultos têm uma coloração escura, para maximizar a absorção de calor solar, assim como para proteger da radiação ultravioleta. Recentemente seu genoma foi sequenciado, com um resultado surpreendente, um genoma extremamente curto, de somente 99 pares de megabases, o menor registrado dentre os insetos (como comparação, o Aedes aegypti tem 1.380 pares de megabases), com um padrão que distribuição de genes que sugere adaptações à sobrevivência neste ambiente inóspito.







Belgica antartica, a primeira foto mostra um casal em cópula, foto de Tasteofcrayons (Wikimedia Commons). A segunda foto mostra um grupo de larvas terrestres, foto cortesia de Richard E. Lee Jr.



 

No hemisfério norte, larvas de algumas espécies europeias como Diamesa bertrami e Orthocladius frigidus se especializaram em viver em córregos alimentados por água de degelo glacial, com temperaturas pouco acima do 0º C. Alimentam-se de partículas orgânicas liberadas pelo degelo, ou cianobactérias que colonizam estes canais. Hibernam em casulos de seda, e suportam congelamento. Estes períodos de diapausa levam a uma expectativa de vida bastante longa, podendo chegar a 7 anos de desenvolvimento larval no Chironomus tardus. Substâncias na hemolinfa permitem a algumas espécies não congelarem mesmo em temperaturas extremamente baixas. Há registros de Diamesia adultos no Himalaia ativos a -16º C.





Diamesa mendotae macho, caminhando na neve em Minnesota, EUA. À direita, Diamesa leona, fêmea braquíptera abaixo de camada de gelo no Rio Arkansas, Volorado, EUA. Fotos da Universidade de Minnesota. A página original pode ser vista  aqui  .

 


Espécies marinhas: Poucos insetos conseguem viver no mar, e novamente, os quironomídeos estão representados neste grupo. As larvas de diversas espécies conseguem se desenvolver em ambientes altamente salinos, enquanto outras vivem em costões rochosos na zona da maré. No Brasil, pertencem principalmente à subfamília Telmatogetoninae (uma espécie de Thalassomyia e quatro de Telmatogeton), além de uma única espécie da subfamília Orthocladiinae (Clunio). Há também o curioso registro de Pontomyia descrito adiante. Vivem na zona entre-marés, associados a bancos de algas.







Telmatogetoninae, provável Telmatogeton sp., coletado em um banco de mexilhões, em São Sebastião, SP. Fotos cortesia de David Bogdanski.












Chironominae, larvas, pupas e o mosquito adulto, encontrados em um riacho que desaguava no mar, em água salobra, na Praia de Itaguaré, Bertioga, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





Existe ainda uma espécie chamada de “Marine Midge” (Pontomyia spp., Chironominae) que pode ser considerada verdadeiramente marinha. São encontrados em litorais tropicais e subtropicais do Indo-Pacífico, Singapura e Caribe. Há um único registro brasileiro de larvas encontradas no Atol das Rocas, RN. Suas larvas habitam poças de maré, na areia e bancos de algas, há registros até em corais a 30 m. de profundidade. Já foram encontrados até em algas nos cascos de tartarugas marinhas. Os adultos são bastante bizarros, as fêmeas não têm boca, asas ou antenas, possuem apenas um par de pernas, que não passam de cotos. Os machos também não têm boca, e suas asas são tão pequenas que não conseguem voar. Porém, vibrando suas asas, os machos deslizam na superfície da água com o seu primeiro par de pernas extremamente longas servindo de estabilizadores.

 

Após completada a metamorfose, as pupas flutuam até a superfície, a eclosão é sincronizada, influenciada pela maré, pôr-do-sol e fases da Lua. Uma espécie (P. oceana) só surge na Lua Nova ou Lua Cheia. Ao entardecer, machos emergem em massa, o que de alguma forma desencadeia a eclosão das fêmeas uma hora após. A urgência de se reproduzirem é tanta, que alguns machos tentam copular com fêmeas antes mesmo destas emergirem totalmente da pupa. Quando o macho encontra a fêmea, ocorre a copulação, conectando as extremidades dos seus abdomens, o macho arrastando a fêmea enquanto ele caminha na superfície do mar. Terminada a cópula, o casal se destaca, e o macho vai procurar outra fêmea. A fêmea deposita uma fileira de ovos adesivos, que afunda e se fixa a um pedaço de coral ou outro objeto sólido. Os adultos morrem pouco após a reprodução, todo o processo reprodutivo é ridiculamente curto, o período desde a emergência da pupa até a morte dura somente 1 a 2 horas.





Pontomyia natans macho, foto de Danwei Huang, extraído de World Register of Marine Species (Licença Creative Commons).

 


Águas Ácidas: Algumas espécies do gênero Tanytarsus são encontradas em ambientes com pH extremamente baixo, como córregos contaminados com resíduos de minas ácidas. Outro registro impressionante da capacidade de sobreviver a ambientes extremos é o encontro de larvas vivas da espécie Chironomus salinarius em excreções frescas da ave migratória Maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa), presumivelmente ingeridas pelas aves e sobrevividas ao sistema digestório da ave vivas. Não é propriamente uma adaptação a um ambiente, e somente uma minoria de larvas encontradas nas fezes estavam vivas, mas ilustra o quão robustas estas criaturas podem ser.


 


 





Para a terceira e última parte do artigo, incluindo Bibliografia e créditos fotográficos, veja a página seguinte  aqui .

 
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