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Neuroptéridos  
Artigo publicado em 08/08/2015, última atualização em 16/05/2020  




Superordem Neuropterida



A superordem Neuropterida representa o grupo mais primitivo de insetos holometábolos, eram previamente classificados na ordem Neuroptera, hoje são divididos em três ordens distintas, Megaloptera, Neuroptera e Raphidioptera. Somente a última não possui representantes no Brasil, e suas larvas são terrestres. As duas outras têm larvas aquáticas ou semi-aquáticas (todos os Megaloptera, e raros Neuroptera), e serão abordados neste artigo. Somente as larvas são aquáticas, os estágios de ovo, pupa e adultos são terrestres.

 






Larva de Coridalídeo, Corydalus sp. fotografado em um riacho catarinense. Imagens cedidas por Luís Adriano Funez.



 

Lacraia d´água, Hellgrammite, Julião, Bin Laden, Dobsonfly



Insetos pertencentes à ordem Megaloptera, família Corydalidae, com grandes larvas aquáticas, no Brasil chamados popularmente de Lacraia d´água, ou pelo nome em inglês, Hellgrammite (etimologia incerta, uma hipótese proposta é Hell + Grim + Mite, algo do tipo "Ácaro Ameaçador do Inferno"). Em Minas Gerais estes insetos aquáticos também são chamados de Julião e Diabo-do-córrego, e no Rio de Janeiro de Lacrau. Cada vez mais têm surgido na internet o nome popular de Bin Laden. Alguns chamam os adultos destes insetos de Formiga-Leão, embora  esta denominação seja mais usada para larvas de neurópteros da família Myrmeleontidae (talvez pela semelhança das enormes mandíbulas).

 

Larva achatada e alongada, acastanhada, pode ter grandes dimensões (até 9 cm). Corpo segmentado, mandíbulas bem desenvolvidas. Seis pernas articuladas nos segmentos torácicos, mas os segmentos abdominais têm oito pares de brânquias filamentosas longas laterais, parecidas com penas, além de um par de falsas pernas anais, dando uma aparência semelhante a uma centopéia. Coloração geralmente castanha a parda.







Hellgrammite fotografado no Parque Estadual do Jaraguá, SP. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Ovos são postos nas margens de cursos d´água límpidos e bem oxigenados, preferindo ambientes com correnteza, onde as larvas se desenvolvem. São depositados em conjunto e recobertos por secreção de coloração branca, que escurece próximo à eclosão. Metamorfose completa, formam pupas em ambiente terrestre, geralmente nas margens dos locais onde as larvas cresceram, de onde emerge o adulto alado. As pupas são bem ativas, com pernas e mandíbulas funcionais. Permanecem como larvas por alguns anos, mas a vida adulta é extremamente curta, não passa de uma semana. Adultos têm o intestino atrofiado, e não se alimentam.


 







Ovos de Coridalídeos fotografados no Rio Tamanduá, Foz do Iguaçu, PR. Havia uma grande quantidade de ovos (e restos de ovos eclodidos) em folhas de árvores sobre o rio, e em superfícies rochosas, como na ponte sobre o rio. Fotos de Walther Ishikawa.



 

Adultos alados, o gênero Corydalus (de longe, o gênero mais comum no Brasil, com 16 espécies), a maioria das espécies exibe exacerbado dimorfismo sexual, os machos possuem mandíbulas desproporcionalmente grandes (usados em rituais de acasalamento), sendo por isso chamados de “king bug”. Apesar das mandíbulas enormes, machos adultos não possuem força na sua mordida, ao contrário das fêmeas, com pequenas mandíbulas mas mordida bastante potente e dolorosa. Em geral, possuem coloração parda, dois pares de asas membranosas grandes, repousam dobradas sobre o abdômen, em forma de telhado. Olhos protuberantes posicionados lateralmente, antena longa e filiforme. São os maiores insetos aquáticos conhecidos, recentemente (2014) foi anunciado a descoberta na China de uma espécie com 21 cm de envergadura das asas.


As Chloronia (5 espécies brasileiras) não têm este dimorfismo sexual nas mandíbulas, assim como algumas espécies de Corydalus (no Brasil, C. arpi, C. ignotus, C. hecate e C. cephalotes). Exibem uma típica e bela coloração amarela.


Os dois gêneros acima pertencem à subfamília Corydalinae ("Dobsonfly" em inglês). Também na família Corydalidae existem os "Fishfly" da subfamília Chauliodinae. Recentemente (2013) foi descrita uma única espécie no Brasil (na América do Sul, são encontradas também no Chile), gênero e espécie novas Puri aleca, na Serra da Mantiqueira, em MG. Larvas desta família já tinham sido encontradas no sudeste desde 2007, mas foi o primeiro encontro e descrição de um adulto. Adultos lembram bastante Corydalus, mas têm mandíbulas bem pequenas. Machos de outros gêneros possuem antenas plumosas, como mariposas, mas isto não se observou no Puri.






Casal de Coridalídeos adultos, Corydalus affinis, a espécie mais comum no Brasil. Fotografados em Goianá, MG. Na primeira foto, é bem visível o dimorfismo sexual destes insetos, o macho com as mandíbulas desproporcionalmente grandes. Fotos cortesia de Bruno Corrêa Barbosa.



Macho de Corydalus primitivus, fotografado em Cavalcante, GO. Note a típica padronagem de manchas claras e anéias escuros nas asas. Foto cortesia de Amaro Alves.




Corydalus hecate, fotografados em Pindamonhangaba, SP (foto cortesia de Caroline Camargo) e Petrópolis, RJ (foto cortesia de Maurício Gomes). Esta espécie não exibe o dimorfismo sexual comum no gênero.




Casal de Corydalus batesi. Fêmea na primeira foto, fotografado na Serra do Tepequem, em Amajari, RR, com padrão atípico de coloração (foto cortesia de Karla Pereira). Macho na segunda foto, fotografado no Sítio Agroecológico Tolú, em Igarapé Açu, PA (foto cortesia de Luciana Araújo Lisboa de Athayde).



Macho de Corydalus tridentatus, fotografado em Itapeva, SP. Note a antena grossa e excepcionalmente longa, típico desta espécie. Foto cortesia de Kevin Ferraz.



Macho de Corydalus affinis, fotografado em Petrópolis, RJ. Foto cortesia de Maurício Gomes.



Fêmea de Corydalus australis, fotografado na RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis, SC. Foto cortesia de Germano Woehl Jr. (Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade).




Fêmea de Corydalus ignotus, fotografado em D6 Route de Kaw, Roura, Guiana Francesa. Esta espécie é encontrada também no norte do Brasil, e também não exibe dimorfismo sexual na mandíbula. Foto cortesia de Bernard Dupont.





Macho de
Corydalus armatus, fotografado em Cabixi, RO. Foto cortesia de Edson Ricardo Barreiro da Silva.





Macho de
Corydalus diasi, fotografado em Painel, SC. Foto cortesia de Eliane Dokonal.


Fêmea de Corydalus neblinensis, fotografada em Curionópolis, PA. Foto cortesia de Joymax Nascimento.





Coridalídeo Chloronia mirifica, fotografada na Reserva Biológica los Cedros, Equador. Esta espécie é encontrada também no Brasil. Foto cortesia de Andreas Kay.


Coridalídeo Chloronia corripiens, a espécie brasileira mais comum, fotografada em Tinguá, RJ. Este gênero não apresenta o exuberante dimorfismo sexual dos Corydalus. Foto cortesia de Diogo Luíz.



Coridalídeo Chloronia hieroglyphica, fotografada em Piste de Belizon, Roura, Guiana Francesa. Esta espécie é encontrada também no norte do Brasil. Foto cortesia de Bernard Dupont.












Larva de Corydalus sp. em um riacho em Santa Leopoldina, ES. Fotos e vídeo de Flávio Mendes. A primeira imagem do artigo também é do mesmo animal.




As larvas são vorazes predadores, se alimentam de insetos aquáticos e outros invertebrados, e eventualmente de alevinos e peixes pequenos. Possuem fortes mandíbulas, sua mordida é bastante dolorosa, podendo causar ferimentos cortantes em seres humanos. Possui uma das maiores taxas de crescimento dentre insetos, com aumento na sua biomassa em mais de 1000 vezes da primeira à última forma larvar. Isto se deve à sua capacidade de manter um metabolismo constante mesmo com variações na temperatura ambiental, comparável a animais homeotermos, fato extremamente incomum em um inseto.









Larvas de Coridalídeos fotografados em Águas da Prata, SP. O primeiro junto à cachoeira Cascatinha (Chloronia sp.), e o segundo perto da cachoeira Ponte de Pedra. Na primeira foto pode ser visto também uma ninfa de Efêmera. Fotos de Walther Ishikawa.






Coridalídeo (Corydalus diasi) fêmea adulto fotografado em Paraty, RJ. Foto de Walther Ishikawa.




É predado por peixes maiores, por este motivo é bastante conhecido por pescadores, usados como isca. Nos Estados Unidos, crianças coletam estas larvas como um teste de coragem: introduzindo suas mãos no meio do lodo no fundo do rio, esperando estes animais morder seus dedos, para daí capturá-los. No México e em alguns países da América do Sul as larvas são consumidas como iguarias, e em alguns locais da Ásia são usadas em medicina tradicional.








Para a segunda parte do artigo (inclui créditos, agradecimentos e bibliografia), clique  aqui .

 
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