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Microcrustáceos2  
Artigo publicado em 11/02/2012, última edição em 08/10/2017  


Ostracóides e outros microcrustáceos (segunda parte)


Aqui abordaremos os outros dois grandes grupos de microcrustáceos, os Cladóceros (Pulgas d´água) e Copépodes (Cíclopes e outros). Para retornar à primeira parte do artigo, clique  aqui  .


 

 



Pulgas d´água


 

As Pulgas d´água pertencem à ordem Cladocera, fazem parte da classe Branchiopoda juntamente com os Concostráceos, Triops, Artêmias e Branconetas. Chamados por alguns de “pequenos branquiópodos”, os cladóceros são os mais evoluídos, com maior número de espécies e maior diversificação ecológica. Estima-se em cerca de 600 espécies no mundo (e 150 no Brasil).

São diminutos crustáceos com um aspecto ovóide, podendo ser confundidos com os Ostracóides. Seu tamanho também é semelhante, geralmente entre 0,2 a 3,0 milímetros, e possuem uma carapaça única, dobrada na porção dorsal, dando a impressão de uma estrutura bivalve. Esta carapaça encerra quase todo o organismo, exceto a cabeça. Olhando com cuidado, são visíveis duas longas antenas lateralmente na cabeça, usadas para natação, quando vistos de frente parecem dois braços abertos para o lado. A cabeça pode ter também uma curta antênula, bastante útil para identificar Daphnidae (ausência de antênulas, ao contrário de Moinidae, Macrothricidae e Ilyocryptidae). Assim como os Copépodos, possuem um único olho composto escuro. Pode haver um espinho na extremidade da cauda, como nos Daphnia.

Ao contrário dos Ostracóides e Copépodos, a grande maioria das espécies de Pulgas d´água vive em água doce. Habitam diversos ambientes, com variados graus de oxigenação, salinidade e poluição. Embora a maioria dos Cladóceros tenha hábito rastejador ou bentônico, o aquarista terá provavelmente mais contato com as espécies maiores da família Daphnidae, predominantemente planctônicas. A família Moinidae (as pequenas Moina) também são bem comuns em aquários. Seu nado é típico, e bem diferente dos Ostracóides. Nadam à meia água com movimentos rítmicos, saltitantes. Há também organismos que vivem na superfície da água, alimentando-se de algas hiponeustônicas, como Scapholeberis, e até ectoparasitas de Hidras, como o Anchistropus. São totalmente inofensivos, se alimentando de detritos, algas, bactérias e rotíferos, os quais são filtrados com as finas cerdas dos seus apêndices torácicos. Não destroem plantas.

É um animal bastante prolífico, de fácil cultivo e rápido desenvolvimento, um popular alimento vivo em aquarismo. Em geral a população é constituída somente por fêmeas, com reprodução assexuada por partenogênese diplóide por várias gerações, o número de ovos variando de 2 (Chydoridae) a mais de 20 (Daphnidae), depositados em uma câmara interna dorsal das fêmeas, visíveis no seu corpo transparente. Desenvolvimento direto, os filhotes já nascem com aparência semelhante aos adultos, e são liberados logo antes da ecdise. Após a ecdise, a fêmea libera um novo conjunto de ovos na câmara. Porém, quando as condições ambientais se tornam desfavoráveis, a produção partenogenética cessa e são produzidos machos e fêmeas sexuais. Estas últimas produzem um ou dois ovos haploides, após fertilizados são envoltos por uma cápsula protetora (ovos de resistência), de coloração opaca e escura, que são liberados na muda juntamente com parte da carapaça, formando uma estrutura chamada efípio. São resistentes a ressecamento, congelamento e a passagem pelo intestino de animais, se desenvolvendo quando as condições tornarem-se favoráveis novamente. Recentemente (2014), foi eclodido um efípio de uma espécie de Daphnia de um lago em Minnesota com idade de 700 anos! Devido à sua resistência, o efípio é também uma importante estrutura de dispersão. Alguns afundam e se misturam ao sedimento, outros flutuam, e alguns podem se aderir a pelos e penas, e são carregados por grandes distâncias. Leves, podem ser dispersados também pelo vento. 

 




Pulga d´água Daphnia sp. Fotos de Chantal Wagner.





Pulga d´água Simocephalus cf. serrulatus. Note os ovos em diversos graus de desenvolvimento, alguns já com pequenos olhos escuros visíveis. Fotografados em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Daphnia sp. juntamente com ostracóides Chlamidotheca arcuata (duas primeiras fotos) e Strandesia bicuspis (última), exemplares gentilmente cedidos por Max Wagner, de Marília, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Pequena pulga d´água junto a um Iriatherina. Foto de Peter McGuire (Planet Inverts).









Diminutas pulgas d´água do gênero Chydorus. Na terceira imagem são visíveis também protozoários ciliados Stentor. Fotos de Fernando Barletta.

 


 

 



Copépodes




Quando se fala informalmente de “Copépodos” em aquários de água doce, geralmente nos referimos aos Ciclopóides (ordem Cyclopoida), pequenos e de vida livre, os gêneros mais conhecidos são os Cyclops e afins (Mesocyclops, Paracyclops). Têm este nome por possuírem um único olho. Na realidade os Copépodos são um grupo bem mais amplo (crustáceos da subclasse Copepoda), é a maior e mais diversificada entre os crustáceos, com cerca de 12.000 espécies conhecidas, destas, 7500 de vida livre, 1200 de águas continentais. Muitas espécies são parasitas, só lembrando que o Argulus (Piolho-de-peixe) e a Lernaea (Verme-âncora) são espécies de Copépodos. Mas possuem uma morfologia diferente, adaptada à sua vida parasitária.

Estes crustáceos são muito mais freqüentes no mar, onde sua população perfaz um dos grupos animais com uma das maiores biomassas do planeta, e superando em número de indivíduos até os insetos. Em água doce, habitam os mais variados ambientes, desde lagos alpinos, boreais, e até rios subterrâneos. Com os Cladocera, são os grupos mais representativos de microcrustáceos de água doce.  Raros são semi-aquáticos, habitando terras úmidas. Os copépodos de águas continentais são menos diversificados que os de água salgada, com somente cinco ordens principais: Cyclopoida (cerca de 101 espécies brasileiras), Poecilostomatoida (57, até recentemente incluída em Cyclopoida), Calanoida (58), Harpacticoida (56) e Gelyelloida (sem representantes no Brasil), os três primeiros são planctônicos, os Harpacticoida bentônicos e os Gelyelloida, próprios de águas intersticiais profundas.


Os Ciclopóides têm um formato bem típico, sendo facilmente identificados com uma lupa. Seu corpo tem um aspecto alongado, com o formato de uma gota, com cabeça arredondada e uma cauda pontuda. Duas grandes antenas saem da cabeça, usadas para natação, e muitas fêmeas têm duas estruturas ovóides alongadas (saco de ovos) fixas na parte lateral do corpo, parecendo um “Y” invertido. Visto uma vez, seu formato é inconfundível. Suas dimensões são semelhantes aos demais animais abordados neste artigo, medindo até alguns milímetros. São ótimos nadadores, com um padrão de nado bem típico, se deslocando agilmente em movimentos irregulares de zigue-zague, usando suas antenas como potentes remos (só como curiosidade, Copépodo significa “pé-de-remo”).

Os Cyclopoida têm hábito capturador e em geral são onívoros. Algumas espécies são vorazes predadores, mas geralmente não oferecem perigo aos animais do aquário, devido ao seu diminuto tamanho. Entretanto, eventualmente um ciclopóide adulto pode predar um alevino pequeno, ou uma larva de camarão ornamental. Algumas espécies de Mesocyclops são usadas na Ásia como agentes de controle biológico, predando larvas do mosquito Aedes. Pode também ocorrer canibalismo.

Para a saúde humana também é importante destacar a doença Dracunculose transmitida por Cyclopoida do gênero Mesocyclops, hospedeiros do parasita Dracunculus medinensis que ocorre na África, Paquistão e Índia. Não há registros no Brasil. Como curiosidade, no Bastão de Esculápio, símbolo da medicina, as duas serpentes enroladas no cajado representam provavelmente este verme parasita.


A reprodução dos Copépodes é principalmente sexuada, em geral as fêmeas carregam sacos de ovos aderidos ao abdômen. Passam por diversos estágios de desenvolvimento, as minúsculas larvas (náuplios) não se parecem com os adultos, são triangulares com três apêndices, passando por várias mudas até se metamorfosear num adulto.




Um casal de Copépodes. Foto de Walther Ishikawa.




Um casal de copépodes sob luz polarizada, a fêmea na primeira imagem, com seu saco de ovos. Fotos de Daniel Stoupin.




Fêmea de Cyclops em visão lateral, um dos ovos acabou de eclodir, liberando um náuplio. Darkfield x100. Fotos de John C. Walsh.



Bem mais raramente, podem ser vistos os Copépodes das ordens Calanoida e Harpacticoida.

Mais incomuns do que os Cyclopoida, os Calanoida são caraterizados pelas suas longas antenas secundárias, as fêmeas carregam somente um saco de ovos mediano (são dois laterais nos Ciclopóides), ou depositam-nos diretamente no substrato. Corpo alongado, em forma de torpedo. As antênulas das fêmeas são simétricas, enquanto que a direita do macho é modificada, para se prender à fêmea durante a cópula. Calanoida são comumente filtradores, herbívoros ou onívoros, alimentando-se de algas, bactérias, pequenos animais e ocasionalmente de detritos. Têm uma distribuição geográfica mais restrita que os Cyclopoida, apresentando muitos endemismos e ocorrendo em uma estreita faixa longitudinal. A região Amazônica possui a mais rica fauna deste grupo, assim como o maior endemismo, com cerca de 58% das espécies conhecidas. Habitam locais menos eutrofizados do que os Cyclopoida.  

Harpacticoida é um grupo essencialmente marinho, mas com poucas espécies também em água doce. São descritas 56 espécies brasileiras. Muito menores do que os dois grupos anteriores, têm um comportamento bem mais bentônico, vivendo em meio ao substrato, plantas submersas ou aderido à superfície de rochas. Suas pequenas antenas não permitem que nadem bem. Muitas espécies são subterrâneas. No aquário, passam boa parte do tempo caminhando nos vidros. Possuem corpos mais alongados do que os Ciclopóides, com o cefalosoma mais curto proporcionalmente do que o metasoma (abdomen), mostrando uma segmentação mais evidente. Diferente dos Ciclopóides, não têm o cefalosoma  mais largo (o que dá o aspecto em "gota"). Tipicamente, quando comparados aos Ciclopóides, têm antenas mais curtas e ramos caudais mais longos. As fêmeas carregam somente um saco de ovos mediano.





Montagem com uma fêmea Diaptomus, um copépode Calanoida. Darkfield x45. Fotos de John C. Walsh.










Copépodes Harpacticoida, surgiram em grande número em uma criação de Tubifex. Fotos e vídeo de Walther Ishikawa. Exemplares gentilmente cedidos pelo aquarista Edilson Lopes.






Copépodes Cyclopoida e Harpacticoida. Fotos de Fernando Barletta.





Copépodes Harpacticoida que surgiram em um aquário. Fotos e vídeo de Fernando Barletta.




Apareceram esses bichinhos no aquário. Devo me preocupar?

 

Para os peixes, crustáceos e moluscos ornamentais, quase todos estes “bichinhos” são totalmente inofensivos. Em aquários de reprodução, talvez os Copépodos maiores possam representar algum perigo, especialmente para crustáceos com reprodução larvar, mas é bastante improvável.

Semelhante aos vermes oligoquetas, todos estes animais são ótimos indicadores de desequilíbrio. Sendo animais detritívoros, havendo excesso de matéria orgânica (ou seja, alimento disponível), haverá uma reprodução descontrolada destes seres, com explosões populacionais. A causa pode ser uma superpopulação do aquário, alimentação excessiva, algum animal morto oculto, ou filtragem insuficiente. Controlada a causa, são surtos auto-limitados, não necessitando outras condutas.

Estes animais não oferecem nenhum perigo a nós, aquaristas. Como mencionamos, existe uma doença humana africana que envolve Copépodes, mas não ocorre no nosso país.

Um último lembrete importante: Pulgas d´água e Copépodos são populares alimentos vivos, fáceis de serem criados, e avidamente devorados pelos peixes. Porém, estes animais também são hospedeiros intermediários de vários parasitas de peixes, alguns bastante importantes, como o verme nematóide Camallanus. Desta forma, nunca forneça animais coletados a seus peixes. Animais coletados podem ser usados como inóculos para as suas culturas, mas é necessário aguardar algumas gerações (semanas a alguns meses) para se certificar de não estar introduzindo estes parasitas junto com os alimentos vivos.



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Agradecimentos a Alex Kawazaki, Renato Chinelatto, Sérgio K. Saruwataru, Daniel Stoupin, Fernando Barletta, Cláudio Moreira, Vithor Dantas, Max Wagner, Felipe Lange, Edilson Lopes, John C. Walsh ( Micrographia , EUA) e Richard Asten (Acuicola Miranda, Venezuela) pela cessão das fotos e exemplares para o artigo.


As fotografias de Walther Ishikawa e Chantal Wagner estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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