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Outros Culícídeos2  
Artigo publicado em 08/12/2017, última edição em 31/07/2019  


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Outros Mosquitos Culicídeos (2)


Mansonia

 

Seguramente 9 espécies de Mansonia ocorrem no Brasil, das quais Mansonia titillans Walker, 1848 é a mais comum.

Os Mansoniini têm em comum uma interessante característica biológica nos estágios imaturos. As larvas de primeiro estágio movimentam-se livremente na água durante algum tempo após a eclosão do ovo, obtendo oxigênio na superfície líquida, como fazem os demais culicíneos. Aos poucos, vão localizando raízes de plantas aquáticas, flutuantes ou não, ou outros tecidos vegetais submersos, onde se fixam perfurando esses tecidos a custa de dentes fortes existentes no ápice do sifão respiratório. A partir de então, durante todos os demais estágios larvais e pupal (sua trombeta respiratória tem aspecto de corno, com ápice bem quitinizado, adaptado para perfurar), retiram todo o oxigênio que necessitam dos parênquimas aeríferos.

As formas imaturas podem mudar de um local para outro numa mesma planta ou desta para outro vegetal. No momento da emergência do adulto a pupa se desprende da planta e migra para a superfície. As larvas se alimentam de matéria orgânica em suspensão na água do criadouro, pois não descem ao fundo ou sobem à superfície para procurar, ativamente, o seu alimento.

As espécies de Mansonia não são vetores de doenças endêmicas humanas no Brasil (embora tenham importância em doenças veterinárias). Por outro lado, podem tornar certas localidades impróprias à habitação ou à pecuária, por causa de seu hematofagismo agressivo.

 

Ovos: Os ovos de Mansonia são depositados em conjuntos geralmente de contorno circular, sob as folhas de plantas flutuantes. Lembram vagamente uma jangada de ovos de Culex, mas não ficam flutuando, mas submersos na água. Também são formados por menos ovos do que os Culex. Durante a desova, as fêmeas introduzem o ápice do abdome na água, prendendo os ovos na face inferior da folha escolhida. Neste momento, depositam também uma bolha de ar, que carreava no seu abdômen, para que os ovos possam respirar.

Larvas: Têm o aspecto habitual das larvas da subfamília Culicinae, adquirindo uma posição oblíqua em relação à superfície da água, quando obtêm oxigênio do ar atmosférico. Porém, como já mencionado, passam boa parte da sua existência atracada a plantas subaquáticas. Seu sifão é adaptado a esta finalidade, bem curto (geralmente bem menor que o lobo anal), escuro e cônico, com dentes cortantes muito quitinizados na face dorsal. As larvas têm antenas bem longas.

Adultos: São mosquitos muito robustos, de porte médio ou grande, escuros, com escudo de aspecto felpudo (principalmente na área supralar), asa e fêmures bem salpicados, sendo as escamas das asas bem largas, o que também confere um aspecto sujo e felpudo. Coloração escura, e patas francamente marcadas de branco. Alguns descrevem seu aspecto como "salpicados com sal e pimenta". 

Habitat: M. titillans é uma das espécies mais frequentes no nosso país, distribui-se amplamente do sul dos EUA ao sul da América do Sul. Habitam corpos d´água permanentes, onde existam plantas aquáticas.


Comportamento: Atacam em maiores números no crepúsculo vespertino e à noite. São verdadeiras pragas, dificultando a vida humana e a pecuária em certas regiões. Um exemplo desse problema vem ocorrendo na área de influência da usina hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins (PA), onde centenas de famílias abandonaram suas casas e cerca de 1000 que ali permaneceram, sofrem o ataque quase ininterrupto dos Mansoniini que se criam no enorme lago da hidrelétrica.




Mansonia
sp., em Belém (PA). Foto de César Favacho.




Grupo de
Mansonia uniformis, uma espécie australiana, fixo à raiz de uma planta aquática. No destaque, seus ovos. Fotos de Stephen Doggett.







Mansonia sp., fotografado no Parque Juquery, Franco da Rocha (SP), fotos de Walther Ishikawa.







Larvas de
Mansonia sp. em raízes de Salvinia. Fotografado no Vale do Ribeira, SP, foto de Sandra Nagaki.


 


Psorophora

 

Psorophora é um gênero restrito ao Novo Mundo, o gênero é composto por três subgêneros com características distintas. Aqueles do subgênero Psorophora são mosquitos bastante robustos, os maiores mosquitos hematófagos do Brasil pertencem a este gênero. P. ferox (subgênero Janthinosoma) têm sido encontrada naturalmente infectada com arbovírus causadores de encefalites, como a Encefalite Venezuelana. Também têm sido encontrada portando ovos de Dermatobia hominis, causadora da berne.

Larvas: As larvas deste gênero foram pouco estudadas, as informações são bastante escassas. Larvas do subgênero Psorophora são bem grandes, e tipicamente possuem cabeça quadrada e achatada, com antenas curtas. São predadoras vorazes, alimentando-se de larvas de outros mosquitos e outros invertebrados, ou agindo como canibais. Bastante diferentes do subgênero Janthinosoma, com cabeça ovalada, antenas longas e sifão bulboso e robusto.  

Adultos: Subgênero Psorophora: mosquitos muito grandes, corpo com escamas claras e escuras, mas não metálicas. Pernas com escamas e cerdas salientes, dando um aspecto hirsuto. Subgênero Grabhamia: porte médio, coloração fosca, escura e acinzentada. Subgênero Janthinosoma: pequeno a médio porte, aspecto escuro, abdomen e muitas vezes o tórax ornamentado com escamas violáceas e com reflexo metálico.

Habitat: Seus ovos são muito resistentes à dessecação, são depositados isoladamente e fora da água. Criam-se em coleções líquidas no solo, de preferência, aqueles de caráter temporário. Ou seja, muitos têm ciclos anuais dependente da estação de chuvas.

Comportamento: São extremamente vorazes, de grande agressividade e picada muito dolorosa, e atacam preponderantemente de dia. São essencialmente exófilos, zoofílicos e oportunistas, e podem atacar o homem, muitas vezes em grande número.






Casal de
Psorophora (Janthinosoma) ferox, fêmea na primeira foto, o macho na segunda. Note o aspecto iridescente, o subgênero Janthinosoma são os mais coloridos e bonitos dos Psorophora. Veja também que esta espécie pode pousar com uma postura similar aos Sabetinos, com as pernas posteriores elevadas. Fotos de César Favacho.



Psorophora (Janthinosoma) ferox durante hematofagia, fotografado em uma área rural de Brasília, DF. Foto de Amaro Alves.








Provável larva de
Psorophora (Janthinosoma), coletado em uma casca de côco, em Goiânia, GO. Note o sifão grosso e bulboso. Fotos de Max Malmann.







Psorophora
(Janthinosoma) ferox durante hematofagia, e seus ovos. Fotografados em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Psorophora (Psorophora) ciliata durante hematofagia, fotografado no Paraguai. Note o grande porte do mosquito, são chamados em inglês de Gallinipper. Foto de O. Rodriguez (PyBio).




Psorophora (Psorophora) ciliata, fotografado em Mercer County, New Jersey, EUA. Note a típica cabeça quadrada. Na segunda foto, predando uma larva de Aedes vexans. Fotos gentilmente cedidas por Ary Faraji.




Uranotaenia

 

    A tribo Uranotaeniini é representado no Brasil somente pelo gênero Uranotaenia, pequenos mosquitos hematófagos que se alimentam principalmente de animais de sangue frio, especialmente anfíbios, não picando o homem. Recentemente se descobriu que U. sapphirina se alimenta de sangue de anelídeos.
        Suas larvas têm a cabeça estreita e escurecida e sifão curto. Quando estão obtendo ar na superfície permanecem quase paralelas a esta, podendo ser confundidos com os Anofelinos. Vivem em ambientes permanentes ricos em vegetação aquática, como charcos e pântanos.




Provável Uranotaenia geometrica fotografado às margens do Rio Tamanduá, em Foz do Iguaçu, PR.
Foto de Walther Ishikawa.




Uranotaenia geometrica fotografado em Tailândia, PA. Foto de César Favacho.


Toxorhynchites

 

Toxorhynchites é o único gênero conhecido da subfamília Toxorhynchitinae, os maiores culicídeos do mundo pertencem a este gênero, podendo atingir 12 mm de envergadura das asas. São conhecidas 93 espécies, 13 delas ocorrem no Brasil. É o único culicídeo cujas fêmeas adultas não são hematófagas, estas se alimentam de néctar, como os machos. São longevos, adultos têm uma expectativa de 4 meses.

Os mosquitos do gênero Toxorhynchites são bastante pesquisados, por terem larvas carnívoras, predadoras de outras espécies de mosquitos (muitas vezes canibais), podem consumir até 400 larvas durante seu desenvolvimento. Associado ao fato de terem adultos inócuos, é uma espécie com grande potencial como agente de controle biológico de mosquitos vetores de doenças. Na ausência de larvas de mosquitos, consomem outros invertebrados. Na ausência destes, podem se alimentar de detritos.

Um comportamento intrigante destes mosquitos é o fato de por vezes matarem larvas de mosquito sem consumi-los. Isto é mais comum no quarto instar antes da pupação, a hipótese mais aceita é que a larva mate todo potencial predador no seu ambiente antes de se tornar uma pupa vulnerável.

 

Ovos: A fêmea raramente pousa na superfície da água, realizando loops de vôos elípticos próximo da água, eliminando seus ovos. Após alguns loops de reconhecimento, a fêmea ejeta o ovo durante um arco descendente do loop, e simultaneamente arqueia a extremidade do abdômen em cerca de 80°. Com isso, o ovo é ejetado a cerca de 100 cm/s, permitindo grande precisão quanto ao local da oviposição. Estes são de cor clara, brancos ou amarelos, ovais e hidrófobos, são encontrados flutuando na superfície da água, ou imediatamente abaixo. O período de incubação é de cerca de 40 a 60 horas, e dependente da temperatura. 

Larvas: As larvas são grandes (até 2 cm), geralmente de coloração marrom escura ou avermelhada, com pelos conspícuos no abdômen. A cápsula cefálica possui um par de poderosas mandíbulas. Pelo seu comportamento, as populações destes mosquitos são de poucos indivíduos, cada reservatório possui somente uma ou algumas larvas.

Adultos: estes mosquitos são grandes, coloridos de cores iridescentes e brilhantes Uma característica peculiar deste gênero é seu proboscis, com uma curvatura para baixo em 90º. São, por isso, chamados em inglês de “elephant mosquitoes”.

Habitat: São mosquitos silvestres, encontrados principalmente em áreas florestais tropicais, Suas grandes larvas são encontradas em ambientes semelhantes aos Sabetinos, como buracos de árvores, reservatórios de bromélias, etc.

Comportamento: São mosquitos diurnos. As formas adultas deste gênero não possuem hábitos hematófagos, sendo, portanto desprovidas de importância epidemiológica na transmissão de doenças.




Toxorhynchites (Lyinchiella) haemorrhoidalis, larva, pupa e casal de adultos, fotografados em Belém, PA. Fotos e vídeo cortesia de César Favacho.

























Larvas de
Toxorhynchites (Ankylorhynchus) purpureus, fotografadas em fitotelmata de bromélia, em Ubatuba, SP. Algumas imagens mostram bem as grandes dimensões destas larvas, quando comparadas a outros mosquitos. Fotos de Walther Ishikawa.










Fêmea adulta de Toxorhynchites (Ankylorhynchus) purpureus, fotografado junto a um fitotelma de bromélia, em Ubatuba, SP. A terceira foto mostra seus ovos, junto a diversas larvas e pupas de mosquitos. Fotos de Walther Ishikawa.






Toxorhynchites
(Lyinchiella) cf. guadeloupensis fotografado em uma fazenda, em Goiás. Note a probóscide curva para baixo, característica destes mosquitos. Foto de Sonia Furtado.




Toxorhynchites
(Ankylorhynchus) cf. hexacis macho fotografado no Parque Natural do Caraça, MG. Foto de Troy Bertlett.






Larva de
Toxorhynchites (Lyinchiella) cf. haemorrhoidalis, coletado em um acúmulo de água em buraco de árvore em Goiânia, GO. Fotos de Max Malmann.




Larva de Toxorhynchites (Lyinchiella) cf. haemorrhoidalisfotografada num acumulo de agua de bambu, no Parque Juquery, Franco da Rocha (SP), foto de Walther Ishikawa.







Toxorhynchites (Ankylorhynchus) trichopygus macho fotografado em Poços de Caldas, MG. Fotos de Walther Ishikawa.
 




A principal fonte bibliográfica deste artigo foi o livro Principais Mosquitos de Importância Sanitária no Brasil. Rotraut A. G. B. Consoli & Ricardo L. de Oliveira Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1994. 228 p. O livro pode ser baixado gratuitamente através do link  aqui 


Este artigo só foi possível com a colaboração de diversos amigos e colegas, aos quais somos muito gratos. Agradecimentos aos fotógrafos Sonia Furtado, Troy Bertlett (EUA), Genílton Vieira (Instituto Oswaldo Cruz) e Amaro Alves, aos zoólogos César Favacho (veja seu álbum Flickr  aqui ), Tibério GracoStephen L. Doggett (Austrália), Paul Bertner (EUA), Anthony Érico Guimarães, Anna Julia Demeciano, Ulf Drechsel (Paraguai,  Paraguay Biodiversidad ), Ary Faraji (EUA, Diretor do Salt Lake City Mosquito Abatement District) e Max Malmann pela cessão das fotos para o artigo.


 As fotografias de Walther Ishikawa, Troy Bertlett e Genílton Vieira estão licenciadas sob uma licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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