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Efêmeras e Perlas  
Artigo publicado em 19/04/2018, última edição em 11/09/2018  

Efêmeras e Perlas

 

Outros dois grupos de insetos com ninfas aquáticas são as Efêmeras e Perlas. Raramente são encontradas como invasores em aquários, por exemplo, introduzidos junto a plantas ornamentais sem tratamento adequado.

Originalmente este artigo fazia parte daquele descrevendo ninfas de Libélulas e Donzelinhas, com os quais são frequentemente confundidos. Sugerimos sua leitura, o link pode ser visto  aqui .

A identificação da ninfa de Libélula é relativamente simples, com seu corpo atarracado e sem filamentos na cauda. A diferenciação dos outros três insetos é mais sutil, pode ser feita pelo número de prolongamentos na extremidade da cauda (três para Donzelinhas e Efêmeras, duas para Perlas), e seu aspecto (lisa nas Perlas, com aspecto de penas nas Donzelinhas, variável nas Efêmeras). A presença de brânquias laterais, comprimento das antenas e o aspecto dos olhos também são sinais auxiliares.


 

Efêmeras (insetos da ordem Ephemeroptera)

Em inglês são chamadas de "Mayfly", porque no hemisfério norte se torna adultas em grande número na Primavera, no mês de Maio. Existem cerca de 2200 espécies no mundo. São os insetos alados mais primitivos que existem, registros fósseis datam do período Carbonífero Tardio, há cerca de 300 milhões de anos. As ninfas são aquáticas, e os adultos insetos alados.

Tamanho: até 3 cm.

Identificação: Animais com as seis patas bem visíveis, corpo achatado e alongado, vivem no substrato. Possuem três cerdas longas na extremidade do abdômen, e guelras filamentosas ou achatadas na região lateral do abdômen. Dois grandes olhos compostos numa cabeça arredondada, partes bucais bem proeminentes. Cabeça menor e menos larga do que as donzelinhas. Antenas longas e finas. Podem ser confundidos com ninfas de Donzelinhas, que também têm três estruturas longas no final do abdômen.

Habitat e ciclo de vida: Vivem em grande variedade de corpos d´água, sem ou com correnteza. São fortes bioindicadores de qualidade de água. Ovos são depositados na água pelos adultos voadores. Chegado o momento, a ninfa se dirige à superfície, e o adulto emerge, geralmente de madrugada. Porém, este emerge numa forma imatura, chamada "sub-imago", já alada, que realiza uma última muda para a forma definitiva, com maturidade sexual. É o único inseto cuja forma alada realiza ecdise. Costumam se tornar adultos simultaneamente, formando grandes aglomerações. Cerca de 50 espécies se reproduzem por partenogênese. Ninfas geralmente rastejam no fundo, mas podem nadar utilizando as cerdas abdominais.

Alimentação e respiração: Se alimentam de detritos e algas. Algumas poucas espécies são predadores. Adultos não têm boca ou sistema digestório. Trocas gasosas cutâneas, ou nas brânquias externas. Alguns se posicionam na correnteza, para receber oxigenação do fluxo de água. Não gosta de águas turvas, o que dificulta a troca gasosa nas suas brânquias.

Perigo para humanos ou peixes: Inofensivo para humanos, exceto quando emergem maciçamente em algumas regiões (veja abaixo). Inofensivo para peixes, inclusive é predado por peixes maiores.


Curiosidades:

  • O nome "Efêmera" é justificado, possuem vida bem curta na forma adulta, geralmente alguns dias. Existem espécies cujas fêmeas vivem somente alguns minutos.
  • O primeiro registro escrito de Efêmeras foi feito por Aristóteles (384~322 a.C.). Ele testemunhou a emergência de adultos de corpos d´água e teceu comentários sobre sua curta vida.
  • Podem ser bastante abundantes, existem relatos de até 10.000 insetos por metro quadrado. Perto do Rio Mississippi, nos Estados Unidos, chegam a causar problemas deixando o tráfego de veículos perigoso, devido ao grande volume de animais mortos nas rodovias, deixando-as escorregadias. Neste local, e também no Lago Erie (região dos Grandes Lagos), são tão numerosos que são detectados em radares meteorológicos.
  • Na região do Rio Sepik, na Papua Nova Guiné, são coletados em grandes quantidades para consumo humano.

 


Efêmera adulta, foto de André Benedito. Trata-se de um macho, note os olhos divididos em duas porções, uma lateral, semelhante às fêmeas, e uma grande porção dorsal, turbinada.






Ninfa fêmea de Efêmera, família Baetidae, a família com maior diversidade de espécies e distribuição mundial. Mede cerca de 2,5cm, coletado em Monte Verde, MG. Fotos de Walther Ishikawa.







Ninfas da família Euthyplociidae
, fotografada no ES, note os grandes colmilhos mandibulares. Nesta família estão as maiores Efêmeras conhecidas, exclusivas de ambientes lóticos. Fotos de Flávio Mendes.



Pequeninas ninfas coletadas numa lagoa em Vinhedo, SP (cerca de 9 mm). À esquerda, da família Caenidae, e à direita, Baetidae. Foto de Walther Ishikawa.


Caenidae, note as grandes brânquias do segundo segmento abdominal com aspecto opercular, parecem pequenas asas (em inglês são conhecidos como "squaregills"), tendo a função de proteger as demais brânquias, efetivamente as que fazem as trocas gasosas. Pequenas e resistentes a poluição, são uma das poucas efêmeras que não podem ser usadas como bioindicadores. Foto de Walther Ishikawa.




Baetidae, talvez um Callibaetis, fotos de Walther Ishikawa. A terceira foto mostra um macho, veja os olhos divididos nas porções basal e turbinada. 





Ninfas de Baetidae, fotografados no Parque Cantareira, Núcleo Engordador, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Pequenina ninfa de Baetodes, família Baetidae, cerca de 4mm, coletado em Monte Verde, MG. Brânquias ventrais, restritas aos segmentos 1 a 5. Note também o filamento mediano reduzido, este exemplar foi inicialmente confundido com um Perlidae. Fotos de Walther Ishikawa.







Leptophlebiidae
, fotografado junto à cachoeira Ponte de Pedra, em Águas da Prata, SP. Fotos de Walther Ishikawa.






Dois vídeos mostrando nuvem de Ephemeroptera sobre um rio, filmados em Mogi Guaçu (SP) e Morretes (PR). Vídeos gentilmente cedidos por Allison Bernal e João Arthur Scremim.







Enxame de Efêmeras detectadas em um radar do Serviço Meteorlógico Nacional dos EUA, no Alto Rio Mississippi, em 20 de Julho 2014. A extensão norte-sul do mapa é de cerca de 220 km. Imagens do National Weather Service / NOAA.





Grande quantidade de carcaças de Efêmeras sobre o Veterans Memorial Bridge, na Pennsylvania, EUA, em 22 de Junho de 2015. A ponte precisou ser interditada por questões de segurança, após três acidentes com motos. Foto de Blaine Shahan (LNP / LancasterOnline).




Perlas (insetos da ordem Plecoptera)

Existem cerca de 1700 espécies de plecópteros no mundo. São insetos primitivos com ninfas aquáticas, os adultos são insetos alados. Em inglês são chamadas de "Stonefly".

Tamanho: até 1,5 cm.

Identificação: Animais com as seis patas robustas e bem desenvolvidas, corpo achatado e alongado, vivem no substrato. Um par de antenas longas, e um par de longos filamentos (cerci) na extremidade do abdômen. Muitos possuem também um tufo de brânquias na extremidade do abdômen, e algumas poucas espécies as possuem na região lateral. Ninfas mais desenvolvidas têm também um par de pequenas asas em desenvolvimento na região dorsal, envoltas em um pequeno estojo. Adultos lembram bastante as ninfas, só que têm asas maiores. Os adultos lembram Efêmeras, mas suas asas ficam dobradas nas costas, e não erguidas.

Habitat e ciclo de vida: Vivem em águas paradas ou com correnteza. Preferem águas frias. Algumas poucas espécies neozelandesas têm ninfas terrestres. Também são fortes bioindicadores de qualidade de água, extremamente sensíveis à poluição. Ovos são depositados na água pelos adultos voadores, ou na superfície, ou em estruturas submersas, com mergulhos dos adultos. Ninfas se desenvolvem por um período de um a quatro anos, daí se rastejam para fora da água, a fim de completar sua metamorfose. Adultos têm vida curta, de semanas.

Alimentação e respiração: Se alimentam de detritos e materiais em decomposição, poucas espécies são carnívoras. Alguns adultos não se alimentam, outros se alimentam de material vegetal. Trocas gasosas cutâneas, ou nas brânquias externas na extremidade do abdômen. Podem se posicionar na correnteza, ou realizar movimentos vibratórios para fazer a água circular na região das brânquias.

Perigo para humanos ou peixes: Inofensivo para humanos e peixes. Predado por peixes maiores.


Curiosidades:

  • Uma espécie norte-americana já foi coletada a 80 metros de profundidade, na região dos Grandes Lagos.
  • Algumas poucas espécies ápteras como o do Lago Tahoe (Capnia lacustra) ou Baikaloperla são os únicos insetos que tem todo seu ciclo de vida aquático.


Perla adulta, fotografado em um bosque em Santa Catarina. Imagem de Luís Adriano Funez.







Ninfa de Perla, família Gripopterygidae, cerca de 1,5cm, coletado em Monte Verde, MG. O tufo de brânquias na extremidade do abdomen caracteriza este grupo. Fotos de Walther Ishikawa.



Mimetismo fantástico. Acima dele, uma pequena ninfa de Libélula da família Aeshnidae. Fotos de Walther Ishikawa.










Ninfas de Perlidae, fotografados perto da cachoeira Cascatinha, em Águas da Prata, SP. A segunda foto mostra bem as brânquias externas junto às pernas, típico desta família. Fotos de Walther Ishikawa.



Bibliografia:

  • Wade S, Corbin T, McDowell LM. (2004). Critter Catalogue. A guide to the aquatic invertebrates of South Australian inland waters. Waterwatch South Australia.
  • McCafferty WP. Aquatic Entomology: The Fishermen's Guide and Ecologists' Illustrated Guide to Insects and Their Relatives. Jones & Bartlett Learning, 1983 - 448 p.
  • Salles FF, Nascimento JMC, Cruz PV, Boldrini R, Belmont LL. Ordem Ephemeroptera (ephemeros = efêmero, de curta duração; pteron = asa). In: Hamada N, Nessimian JL, Querino RB, editors. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do INPA; Manaus: 2014. 




Agradecimentos aos colegas zoólogos André Benedito, Flávio Mendes e Luís Adriano Funez pela cessão das fotos para o artigo. Agradecemos também ao fotógrafo norte-americano Blaine Shahan pela permissão de uso da sua foto, e a Allison Bernal e João Arthur Scremim por permitir o uso dos seus vídeos.




As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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