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Besouros aquáticos 3  
Artigo publicado em 16/05/2018, última edição em 11/07/2018  


Outros Besouros Aquáticos (2)


Este artigo em três páginas complementa  o primeiro artigo sobre Besouros Aquáticos .



Besouros Sirtídeos:


Os besouros da família Scirtidae (Helodidae segundo algumas classificações) possuem larvas aquáticas e adultos terrestres. Cosmopolitas, com cerca de 1000 espécies conhecidas (31 no Brasil), são chamados em inglês de "marsh beetles", já que estão associados a águas estagnadas, embora algumas espécies possam ser encontradas em ambientes lóticos. Adultos alimentam-se de matéria vegetal em decomposição às margens d´água. Larvas aquáticas alongadas, achatadas dorso-ventralmente e com corpo segmentado, e típicas antenas bastante longas e delgadas. Lembram pequenas baratas. Mergulham com uma bolha de ar na extremidade do abdômen, que auxilia nas trocas gasosas. Podem ser vistos caminhando de ponta cabeça logo abaixo da superfície da água.

Frequentemente são encontradas em meio à vegetação marginal submersa.  Existem espécies que vivem exclusivamente em reservatórios de água de bromélias, podendo ser a espécie dominante nestes microhabitats. Algumas espécies desenvolvem pupas de vida livre, porém outras constroem uma câmara pupal de madeira, areia ou argila. A pupação é emersa, exceto no gênero Hydrocyphon. Adultos terrestres, e de vida curta.









Larva de Scirtídeo, cerca de 9 mm, fotografado na represa de Vinhedo, SP. Nas últimas fotos, junto a uma Lapa Uncancylus concentricus. Fotos de Walther Ishikawa.




Pequena larva de Scirtídeo fotografado em Itu, SP, em uma lagoa com muitas Salvinias. Foto de Walther Ishikawa.






Scirtídeo Ora sp. (O. complanata?), fotografado em Fortaleza, CE. Foto gentilmente cedida por Oscar Neto.
















Larvas de Scirtidae, talvez Sirtes, fotografadas em reservatórios de água de bromélias, em Paraty, RJ (três primeiras imagens) e Ubatuba, SP (demais). Fotos de Walther Ishikawa.





Besouros Spercheus:


A família Spercheidae é constituída somente pelo gênero Spercheus, com 20 espécies encontradas em todos os continentes exceto América do Norte. Alguns autores os consideram uma sub-família de Hydrophilidae. Adultos e larvas aquáticas, preferindo ambientes de águas paradas com rica vegetação. Os dois estágios não nadam, mas são encontrados frequentemente suspensos de ponta cabeça imediatamente abaixo da superfície d´água, alimentando-se de partículas na superfície, os quais filtram (são os únicos besouros filtradores). Adultos alimentam-se preferencialmente de micro-algas neustônicas, enquanto larvas filtram restos orgânicos e microinvertebrados. Ovos são depositados em uma cápsula de seda carregada pela fêmea, sob o abdômen, fixo nas metatíbias das pernas traseiras. As larvas lembram outros besouros, mas têm a cabeça grande e a porção média do abdômen alargada, e projeções cônicas laterais no abdômen. 






Spercheus emarginatus, larva e adulto, ambos medindo cerca de 6 mm, fotografados em lagoas de Almelo, Países Baixos. Fotos gentilmente cedidas por Gerard Visser.





Besouros de torrente:


Os besouros da família Torridincolidae são excepcionais, são os "mais aquáticos" dentre os besouros aquáticos, dado que larvas, pupas e adultos são aquáticos. Os adultos possuem asas, e é provável que as usem para vôos dispersivos, desta forma acredita-se que passem um curto tempo na fase adulta em ambientes não-aquáticos. Não há informações sobre os ovos.

Chamadso em inglês de "Torrent beetles", a família é composta de cerca de 40 espécies em sete gêneros, 26 espécies em três gêneros ocorrem no Brasil, Ytu, Iapir e Claudiella. Muitos têm preferência por ambientes higropétricos, diversas espécies foram coletadas em cachoeiras e córregos montanhosos, especialmente em finas camadas d´água. Larvas achatadas, com brânquias laterais digitiformes. Os adultos são diminutos (1 a 3 mm), tem um aspecto habitual de besouros, sem grandes adaptações visíveis. Coloração escura, muitas vezes iridescente. Respiração através de plastrão.


Besouro Torridoncolídeo Claudiella sp., fotografado no Rio das Minas, Parque Nacional de Ubajara, CE. Trata-se de uma espécie não-descrita. Extraído de Takiya DM, et al. 2016 (Licença Creative Commons). Veja o artigo original  aqui  .



Larva de besouro Torridoncolídeo
. Extraído de Segura MO, et al. 2011 (Licença Creative Commons). Veja o artigo original   aqui   .





Besouros Epimetopus:


Epimetopidae é uma pequena família de besouros aquáticos, contendo somente cerca de trinta espécies. 
Alguns autores os consideram uma sub-família de Hydrophilidae. São diminutos, não ultrapassando alguns milímetros. Dos três gêneros, Epimetopus é encontrado no Brasil. São mais comuns em margens de riachos com substrato arenoso, embora algumas espécies prefiram locais submersos e rasos, com vegetação. 




Epimetopus
, foto de David R. Maddison (The Tree of Life Web Project - Licença Creative Commons).






Vaga-lumes:


O Brasil abriga a maior biodiversidade de besouros bioluminescentes do mundo, com cerca de 500 espécies, aproximadamente um quarto de todas as espécies descritas no mundo. Vaga-lumes (besouros da família Lampyridae) são animais essencialmente terrestres, tanto suas larvas quanto os insetos adultos, por isso geralmente nem são mencionados quando se fala de besouros aquáticos. Entretanto, muitas espécies são palustres, habitando locais alagados como brejos e áreas pantanosas, com hábitos aquáticos e semi-aquáticos.

 

E no Brasil, pelo menos uma espécie do gênero Aspisoma já foi bastante estudada, originário de SP (principalmente Campinas). Suas larvas têm hábitos semi-aquáticos, sendo encontradas em zonas marginais de riachos e charcos, e passando parte da sua vida dentro d´água, caçando caramujos aquáticos dos quais se alimenta. Vivem na porção mais baixa da vegetação palustre, como Typha, junto ao filme d´água. Existe uma espécie do gênero Cratomorphus, também de Campinas SP com hábitos semelhantes.


Hábitos noturnos, atacam avidamente caramujos como Biomphalaria e Limnaea, caçam estes caramujos na superfície d´água, ou no ambiente submerso. Habitualmente, quando estão se alimentando, encontram-se presas a um caule com os túbulos anais, e, conforme vão se alimentando, penetram cada vez mais na concha do caramujo. Podem atacar os caramujos também através de locais de descalcificação e erosão na sua concha. Geralmente se alimentam a cada três ou quatro dias. Há uma perspectiva interessante para o seu uso como agentes de controle biológico de caramujos vetores de doenças humanas, como já ocorre em outros países, como Japão e Índia.


Estas larvas são alongadas e achatadas, com corpo segmentado, esclerotinizado, lembrando vagamente um isópode, e medem até 18 mm. Coloração marrom escura dorsalmente e clara ventralmente. Cabeça total ou parcialmente retrátil no interior do protórax. Mandíbulas ocas, com um canal através do qual injetam uma toxina paralisante e enzimas digestivas, realizando uma digestão pré-oral. Mesmo as larvas mostram uma luminescência esverdeada emitida por duas vesículas laterais localizadas no 8º segmento abdominal.


Assim como os demais Vaga-lumes, os adultos têm vida curta, cerca de 2 semanas nos machos e 45 dias nas fêmeas. Passam cerca de 6 meses na forma de larva, e têm ciclos de vida anuais. Adultos desta espécie são encontrados em Outubro a Dezembro.


A função da luminescência em larvas não é bem compreendida, muitos acreditam que seja um mecanismo de defesa, já que em muitas espécies (como o próprio Aspisoma), o brilho da larva é induzido em resposta ao brilho de larvas próximas. Larvas aquáticas mostram um brilho contínuo, talvez para atrair caramujos à superfície. Outra teoria interessante (dado que o feixe luminoso é direcionado anteriormente) é que as larvas usem esta luz para localizar presas, ou para seguir o rastro brilhante de muco deixado por caracóis terrestres.




Larva de Aspisoma sp., fotografado na Reserva Betary, PETAR, SP. Foto gentilmente cedida por Guilherme Ide.



Larva de Vaga-lume, fotografado no Rio Guandu, RJ. Fotos gentilmente cedidas por Kleber Vinicius Teodoro.




Besouros Hidrenídeos:


Hydraenidae é uma grande família de diminutos besouros aquáticos cosmopolitas, em geral medindo até 3 mm (o maior mede 7 mm). São cerca de 1300 espécies em 44 gêneros. Em inglês são conhecidos como "minute moss beetles" (besouros minúsculos do musgo).

Os adultos lembram besouros comuns, possuem típicas antenas pequenas e em forma de clava, que podem não ser evidentes por ficarem encaixadas em fendas abaixo da cabeça. Possuem longos palpos maxilares, que, assim como Hidrofilídeos, podem ser confundidos com antenas. Não possuem modificações muito evidentes para a vida aquática. São anfíbios, maus nadadores, geralmente caminhando na vegetação marginal e aquática. São frequentemente vistos caminhando de ponta cabeça imediatamente abaixo da superfície d´água, com uma bolha de ar reflexiva na região ventral do abdômen. Habitats variados, encontrados em águas correntes (algumas em cascatas), estagnadas ou higropétricas. São conhecidas espécies habitando poças de maré hipersalinos, espécies riparias e terrestres. A maioria é herbívora e detritívora, embora existam espécies carnívoras. As larvas vivem em locais alagados, mas não conseguem sobreviver submersos.





Hydraena pennsylvanica
, exemplar norte-americano, fotografado em Groton, Massachusetts, EUA. Foto gentilmente cedida por Tom Murray.




Besouros Hydrochus:


A família Hydrochidae é composta somente pelo gênero cosmopolita Hydrochus, com cerca de 200 espécies. Previamente eram classificados dentro de Hydrophilidae, 
alguns autores ainda os consideram uma sub-família desta. Todos são muito parecidos, e não ultrapassam 5 mm (geralmente alguns milímetros). Adultos alongados e aplainados, com puncturas típicas. A cabeça abruptamente estreitada atrás dos olhos também é típica. Adultos não nadam, caminhando na vegetação sumersa e outros substratos Larvas também aquáticas, vivem em águas estagnadas, ou com pouca correnteza.




Hydrochus, larva (4,5 mm) e adulto (H. squamifer macho medindo 3,7 mm), exemplares norte-americanos, ambos fotografados em Groton, Middlesex County, Massachusetts, EUA. Fotos gentilmente cedidas por Tom Murray.



Besouros Carabídeos e Cicindelas:


Carabidae é uma grande família cosmopolita de besouros, com mais de 40.000 espécies, sendo uma das dez maiores famílias do Reino Animal. Essencialmente terrestres, mas alguns representantes habitam locais marginais, e muitos poucos são anfíbios. Alguns carabídeos submergem para caçar ou fugir de predadores, há registros no Uruguai de exemplares de Brachygnathus coletados em meio a trocos submersos. Também há vários gêneros associados a ambientes ripários e litorais marinhos, mas sem hábitos anfíbios. Exemplos neotropicais incluem Bembidion, Dyschirius (também em litorais marinhos) e Tachys. Os Kenodactylus habitam poças de maré em litorais rochosos do extremo sul da América do Sul.




Pequeno carabídeo, provável Tetragonoderusnumerosos na praia Porto das Dunas, em Aquiraz, CE. Havia muitos besouros nas dunas, junto ao início da vegetação, próximo a um canal de água doce. A última imagem mostra um besouro se enterrando na areia. Fotos de Walther Ishikawa.


Também chamadas de Besouro-Tigre, as Cicindelas são besouros conhecidos por serem vorazes predadores, tanto na fase de larva quanto adultos. Alguns autores os consideram representantes de uma família própria, Cicindelidae, outros como uma subfamília de Carabidae. Existem cerca de 2.100 espécies conhecidas no mundo.


Adultos têm o corpo alongado, membros finos e longos. Olhos proeminentes e mandíbulas bem desenvolvidas. São tipicamente terrestres, e representam alguns dos insetos terrestres mais rápidos, podendo atingir cerca de 8 km/h de velocidade (2,2 metros por segundo). Habitam diversos ambientes, muitos são encontrados em locais junto a corpos d´água como zonas costeiras marítimas e regiões marginais de rios e lagos. Poucas espécies são consideradas verdadeiramente anfíbias.


A espécie amazônica Megacephala (Tetracha) sobrina punctata habita zonas de várzea que sofrem inundação periódica. Quando ameaçados, mergulham na água e permanecem escondidos por horas. Em laboratório, o tempo de tolerância à submersão é de 24 a 30 horas. Carregam um suprimento de ar abaixo das asas, que são periodicamente repostos, o besouro caminhando de ré em troncos e emergindo somente a extremidade do abdômen. Por mergulho, os besouros resistem a até 2 horas sem renovar o ar. Outro mecanismo adicional de oxigenação foi observado, chamada de difusão facilitada: o besouro forma uma bolha de ar arredondada na extremidade do abdômen, que pode ser aumentada de tamanho com o movimento dos segmentos abdominais, aumentando assim a área disponível para difusão de oxigênio. Estas Cicindelas mostram algumas sutis adaptações morfológicas ao seu modo de vida anfíbio, na morfologia dos espiráculos, pelos hidrófobos nas pernas e formato da margem lateral do abdomen.


No Brasil também são comuns Cicindelas do gênero Oxycheila. A espécie O. polita habita margens de rios da Costa Rica, quando encontram predadores, os besouros adultos ativamente se jogam no rio e são levados pela correnteza por centenas de metros, daí emergem passivamente com o dorso acima, abrem suas asas logo abaixo da superfície d´água, e levantam voo. Besouros também já foram vistos mergulhando no rio para caçar invertebrados. Em laboratório, o tempo máximo de submersão foi de 5,8 minutos em águas aeradas. As espécies brasileiras também são vistas junto a rios, mas ainda não se documentou tal comportamento anfíbio.

     



Cicindela Oxycheila tristis, fotografados na beira de um rio no PETAR, Iporanga, SP. Na segunda imagem, um casal em cópula. Fotos de Walther Ishikawa.



Cicindela anfíbia Megacephala sobrina, fotografado no município de Coello, em Tolima, Colômbia. Foto gentilmente cedida por Francisco Lopez-Machado.


Cylindera (Plectographa) suturalis, fotografado no manguezal junto à foz do Rio Pacoti, em Aquiraz, CE. Esta espécie tem ampla distribuição no país, comum em habitats marginais, tanto de água doce quanto marinhos. Um ácaro forético pode ser visto fixo à sua cabeça. Fotos de Walther Ishikawa.




Veja a quarta e última parte do artigo, com Bibliografia e créditos fotográficos,   aqui  .

 
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