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Tricópteros e Lepidópteros 2  
Artigo publicado em 12/09/2018  


Tricópteros e Lepidópteros (2)


 

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Subordem “Spicipalpia”: sua característica marcante é o fato de construir pelo menos o abrigo que está relacionado ao período pupal. Mas há grande variabilidade, os Glossosomatidae constroem abrigos desde os estágios iniciais, porém (diferente de Integripalpia) constroem um abrigo a cada muda. Os Hydrobiosidae só constroem o abrigo para empupar. No grupo mais importante, Hydroptilidae, as larvas geralmente constroem algum tipo de abrigo, portátil ou fixo, no último estádio larval. Nesta família, do primeiro ao quarto estágio larval, os diferentes gêneros são bastante similares, parecendo pequenas larvas de besouros. No quinto estágio ocorre uma drástica transformação morfológica (heteromorfose ou hipermetamorfose), adquirindo a forma típica de um Tricóptero, às vezes com expansão de alguns segmentos abdominais e construção do abrigo.





Diminuta larva da Oxyethira sp. (família Hydroptilidae), cerca de 5 mm, coletado em Monte Verde, MG. Esta família é bastante interessante, são bem pequeninos, são chamados até de "Microcaddis". Possuem o que se chama hipermetamorfose, com fases larvares bem diferentes entre si, somente a última fase produz a toca, que neste gênero é feita somente de seda, aberta nas duas extremidades. Fotos de Walther Ishikawa



 

Mariposa aquática, Lagarta-boiadeira


Lepidoptera (Borboletas e Mariposas) é a segunda maior ordem de insetos, com cerca de 160.000 espécies descritas. Suas asas são cobertas por escamas largas e sobrepostas, muitas vezes com um belo colorido, daí seu nome (lepidos = escama; pteron = asa). Sendo um grupo de insetos primariamente terrestre, pode causar surpresa a muitos a existência de formas perfeitamente adaptadas a ambientes aquáticos. Não há Borboletas aquáticas, porém diversas Mariposas têm formas imaturas que se desenvolvem na água, com graus variados de adaptação. Muitas constroem casulos, somente com seda, ou com folhas e gravetos, podendo ser confundidos com Tricópteros. Porém, seus abrigos tem um aspecto menos elaborado e mais "desleixado", incorporando grandes pedaços de folhas cortadas de forma mais grosseira, ou um amontoado de gravetos finos arranjados longitudinalmente, suas peças fixadas de uma forma mais frouxa. Recentemente algumas espécies têm ganhado maior atenção, ou pelo seu caráter de pragas agrícolas e de plantas ornamentais, ou pelo potencial uso como agentes de controle biológico de plantas aquáticas daninhas.




Larva do mariposa que surgiu em um aquário, foto de José Elias (Portugal).



Se aceita sete famílias de lepidópteros com representantes aquáticos neotropicais, dos 237 registros, 66 espécies são do Brasil, a grande maioria pertencendo à família Crambidae. Além das três principais descritas abaixo, as famílias Nepticulidae, Coleophoridae, Cosmopterygidae e Tortricidae não possuem representantes brasileiros conhecidos, embora se suspeite que existam espécies aquáticas ocorrendo no país.

 

Noctuidae é uma das maiores famílias de Lepidoptera, mas com pouquíssimos representantes aquáticos na América do Sul. Um dos gêneros aquáticos da família (Nonagria) tem duas espécies registradas para o Equador. Em geral as larvas mais jovens minam as folhas e perfuram os talos, afetando a planta hospedeira. Espécies de Bellura têm sido amplamente utilizadas no controle biológico de Aguapé. Muitos adultos são ápteros.


Outra subfamília com algumas espécies aquáticas é Arctiinae (anteriormente Arctiidae), que inclui cerca de 11.000 espécies de médio a grande porte, anteriormente ela tinha status de família. Até o presente, quatro espécies do gênero Paracles apresentam hábitos aquáticos, dois deles com registro no Brasil. As lagartas alimentam-se de hidrófitas submersas. Não apresentam traqueobrânquias e a respiração é aérea, realizada mediante um plastrão (bolsão de ar) formado por cerdas hidrófobas.


Muitos Noctuídeos são predados por morcegos. Estas mariposas desenvolveram órgãos nos seus ouvidos que respondem aos chamados de ecolocalização dos morcegos, levando a um espasmo reflexo na musculatura das asas, o que causa um vôo errático, dificultando a captura pelos morcegos.


 

Pyralidae tem cerca de 5.000 espécies descritas, sendo poucas as espécies sul-americanas com hábitos aquáticos. Entretanto, é um grupo importante por incluir tanto pragas agrícolas quanto agentes de controle biológico. Na Argentina Arcola malloi é eficiente controladora da hidrófita Alternanthera philoxeroides, que obstrui canais. Outras espécies que também controlam tal hidrófita são Neohelvibotys pelotasalis e Nomophila indistinctalis, presentes no Uruguai e no Brasil.





Mariposa Piralídea, adulto da Lagarta-boiadeira, Nymphula sp. Fotos de Tamara Miranda.



Duas espécies de Piralídeos têm grande importância econômica no Brasil, como pragas de arrozais: Nymphula indomitalis e Nymphula depunctalis, ambas as larvas são chamadas de lagartas-boiadeiras. São pequenas mariposas brancas, com envergadura aproximada de 15 mm, e pousam normalmente de asas abertas. Embora voem durante o dia, as mariposas são de hábito noturno, período em que se reproduzem. Os adultos têm vida curta, e não se alimentam. Ovos são depositados com rápidos mergulhos dos adultos, agrupados na parte de baixo de folhas que estejam boiando na superfície d'água. Os ovos dessecam se postos nas partes aéreas das plantas.


Suas lagartas lembram muito espécies terrestres, com aspecto alongado, glabro e flácido, cabeça proeminente, arredondada e esclerotizada, três pares de pernas articuladas nos segmentos torácicos, e falsas-pernas macias nos abdominais (3-6 e 10). Atingem cerca de 20 mm de comprimento, apresentam coloração verde-clara translúcida, com cabeça marrom-clara. Um aspecto bem característico destas larvas é o fato de constroem abrigos em forma de cartucho recortando folhas, e colando-as com seda, semelhante aos Tricópteros. Quando termina seu abrigo, este cai e bóia na água com a lagarta no seu interior - daí o nome de lagarta-boiadeira. Os cartuchos, flutuando sobre a água, são espalhados por grandes distâncias. Para se alimentar, as lagartas não abandonam o cartucho e sobem nas plantas com as pernas dianteiras, preferencialmente à noite. Por dentro, o cartucho é revestido por uma camada de seda que retém um fino filme d'água, essencial para a respiração da lagarta, bem como prevenir a sua dessecação. A cada mudança de estágio (instar), a lagarta corta um cartucho maior. Durante o primeiro e segundo estágios, mais do que uma lagarta pode habitar um mesmo cartucho, porém, nos estágios subsequentes, somente uma lagarta é encontrada em cada cartucho. A pupação se dá dentro do cartucho, que é previamente fechado e preso em alguma estrutura, acima da linha d'água.


 

Crambidae tem ampla distribuição, com mais de 600 espécies descritas. A presença de traqueobrânquias no tórax e abdômen da larva é uma característica típica de Crambidae, embora não presente em todas as espécies (por exemplo, as Elophila abaixo não as possuem, e constroem abrigos portáteis). Das quatro subfamílias presentes na América do Sul, Pyraustinae é representada pelas espécies aquáticas Samea multiplicalis e Niphograpta albiguttalis.







Larva do Crambídeo Elophila nymphaeata, fotografado na Mahorall Cider Farm, Shropshire, Reino Unido.  Na última imagem, a mariposa adulta. Imagens gentilmente cedidas por Maria Justamond.



A subfamília Acentropinae (incluindo Nymphulinae) constitui o principal grupo de Lepidoptera aquáticos. No Brasil estão registradas cerca de 50 espécies. Os adultos são pequenos, em geral não excedendo 30 mm de envergadura, asas coloridas em tons castanhos, amarelos e dourados, com manchas negras e áreas prateadas. As espécies aquáticas são divididas em duas tribos: Nymphulini e Argyractini.






Larva do Crambídeo Nymphulini (Parapoynx?), surgiu em um aquário em Curitiba, PR. Note suas traqueobrânquias ramificadas. Imagens cedidas por Solange Nalenvajko.



As larvas de Nymphulini podem apresentar traqueobrânquias ramificadas, estão geralmente associadas a ambientes lênticos ou a áreas marginais de rios, sempre relacionadas a hidrófitas, das quais se alimentam e retiram material para a elaboração de casulos. Um representante típico deste grupo é o gênero Parapoynx.


As larvas de Argyractini apresentam traqueobrânquias filamentosas, estando presentes em ambientes de água mais rápida. Muitas vivem sobre rochas, raspando algas e diatomáceas na sua superfície. Usam casulos de seda como abrigo, embora algumas utilizem material vegetal na elaboração dos casulos. Um representante típico deste grupo é o gênero Petrophila, amplamente distribuído na América do Sul.




Larva do mariposa Crambidae, provavelmente Nymphulini, que surgiu em um aquário. Note as traqueobrânquias, fotos de Pedro Rodriguez.



Muitas vezes a pupação é submersa, em casulos fixos em plantas e outros objetos aquáticos. Os abrigos têm dois compartimentos, separados por uma parede móvel. A larva permanece no compartimento alagado, mas depois da pupação, passa para o compartimento seco, onde a crisálida termina seu desenvolvimento. Em muitas o cremaster (ápice do último segmento abdominal) é unciforme, possibilitando a ancoragem da larva no casulo de seda. Quando a mariposa adulta emerge, ela aproveita o impulso das bolhas de ar aderido ao seu corpo para subir até a superfície.

         

 

 

 

Bibliografia adicional:

  • Pes AM, Santos APM, Barcelos-Silva P, Camargos LM. Ordem Trichoptera. In: Hamada N, Nessimian JL, Querino RB, editors. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do INPA; Manaus: 2014.
  • Nessimian JL, Da-Silva ER, Coelho LBN. Ordem Lepidoptera. In: Hamada N, Nessimian JL, Querino RB, editors. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do INPA; Manaus: 2014.
  • http://www.pragasarroz.xpg.com.br/ArrozBoiadeira.htm
  • http://www.earthlife.net/
  • http://www.biota.org.br/
  • Wade S, Corbin T, McDowell LM. (2004). Critter Catalogue. A guide to the aquatic invertebrates of South Australian inland waters. Waterwatch South Australia.
  • Gooderham J, Tsyrlin E. 2002. The waterbug book: a guide to the freshwater macroinvertebrates of temperate Australia. Australia: CSIRO. 240 p.
  • McCafferty WP. Aquatic Entomology: The Fishermen's Guide and Ecologists' Illustrated Guide to Insects and Their Relatives. Jones & Bartlett Learning, 1983 - 448 p.
  • Costa-Lima A. 1950. Insetos do Brasil. Lepidópteros. Rio de Janeiro, Escola Nacional de Agronomia, Série didática 8, 420p.
  • Pes AMO, Hamada N, Nessimian JL. Chaves de identificação de larvas para famílias e gêneros de Trichoptera (Insecta) da Amazônia Central, Brasil. Rev. Bras. Entomol. junho 2005, 49(2): 181-204.
  • Calor AR. 2007. Trichoptera. In: Guia on-line de Identificação de larvas de Insetos Aquáticos do Estado de São Paulo. Disponível em: http://sites.ffclrp.usp.br/aguadoce/index_trico.
  • Springer M. Capítulo 7: Trichoptera. 2010. Rev. Biol. Trop. (Int. J. trop. Biol.) Vol. 58 (Suppl. 4): 151-198.
  • Bentes SPC, Pes AMO, Hamada N, Keppler RLMF. Larvas de Synoestropsis sp. (Trichoptera: Hydropsychidae) são predadoras?. Acta Amaz. 2008; 38(3): 579-582.


Agradecimentos aos colegas aquaristas Jovi Marcos, Pedro Rodriguez, Solange Nalenvajko e José Elias (Portugal), aos amigos Alexandro Giovani, Tamara Miranda, Carolyne Alecrim, Roger Rio Dias e Maria Justamond (Reino Unido) pela cessão das fotos para o artigo. Agradecemos também aos colegas zoólogos Vithor Dantas, Mário Jorge Martins, Peter Diaz (EUA), assim como aos colegas Daniela de Figueiredo, Mireile Reis dos Santos e Eloiza Ferreira (IFSULDEMINAS, Câmpus Poços de Caldas) também pela permissão de usar seu material fotográfico. Agradecimentos especiais também à Dra. Neusa Hamada (INPA) pela permissão do uso das fotos. Ambos artigos tiveram como base o Livro "Insetos Aquáticos na Amazônia Brasileira" publicado pelo INPA (duas primeiras referências), que pode ser baixado  aqui .


 As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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