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"Sinelobus"  
Artigo publicado em 11/07/2020  


Sinelobus sp., exemplar neozelandês. Imagem cortesia de Mannaki Whenua Landcare Research (Licença Creative Commons, veja o link ao final do artigo).



Sinelobus

 

A ordem Tanaidacea é composta por diminutos crustáceos bentônicos essencialmente marinhos, com cerca de 900 espécies descritas. Só há quatro espécies encontradas em água doce, uma delas no Brasil. Trata-se da espécie eurihalina Sinelobus cf. stanfordi Richardson 1901.

Exemplares identificados como Sinelobus stanfordi são reportados em uma distribuição bastante ampla no globo, encontrados em habitats bastante diversos, regiões temperadas, subtropicais e tropicais, em ambientes de água doce até hipersalinos. Sua extensão abrange três oceanos, e regiões costais de todos os continentes exceto a Antártida. Hoje se sabe que se trata de um complexo de espécies crípticas, ao invés de uma única espécie cosmopolita.

É um pequeno crustáceo alongado que constrói abrigos tubulares em substratos barrentos. No Brasil, há reportes em diversos ambientes de água doce e salobra, próximos ao litoral, nos estados do sudeste e sul. São muito abundantes, por exemplo, na região do sistema lagunar do Tramandaí (RS), onde há registros de até 66.000 indivíduos/m2.

Há outras espécies de tanaidáceos encontrados em água salobra no Brasil, como Teleotanais gerlachii e Kalliapseudes schubartii, mas em salinidades mais altas. 

 

 

 

Sinelobus sp., exemplar brasileiro coletado no Paraná. Imagem gentilmente cedida por Andrea Desiderato.



Identidade

 

O gênero Tanaidáceo (família Tanaididae) Sinelobus Sieg, 1980 foi por muito tempo considerado monotípico, compreendendo a espécie cosmopolita Sinelobus stanfordi. A localidade-tipo é a Ilha de Clipperton, um atol no Pacífico Norte, a oeste da Costa Rica. A ampla distribuição presumida desta espécie se estendia do Pacífico oeste do Peru à Califórnia, o Sudoeste Atlântico (Brasil, Uruguai e Argentina), Caribe, Ilhas Kurile, Australásia, o cabo Sul-africano e o Oceano Índico (Índia, Sri Lanka e o Golfo Árabe).

Em 2008 foi questionado a monotipia do gênero, com a descrição de Sinelobus barretti, da Tasmânia. Espécimes previamente identificadas como S. stanfordi começaram a ser revistas no mundo, com a identificação de diversas novas espécies, Sinelobus pinkenba (também da Austrália, 2008), Sinelobus vanhaareni (2014, espécie introduzida no Europa, já identificada nos Países Baixos, Bélgica, Polônia e Alemanha), Sinelobus bathykolpos (Hong Kong, 2014) e Sinelobus stromatoliticus (África do Sul, 2019).

            Exemplares brasileiros do Paraná estão sendo analisados pelo biólogo Andrea Desiderato, baseado em análises moleculares (COI) sabe-se que também se trata de uma espécie distinta, ainda não identificada.  

 



Sinelobus vanhaareni, exemplares dos Países Baixos, esta espécie era previamente identificada como S. stanfordi. As fotos mostram um casal, com detalhes do seu dimorfismo sexual. Fotos gentilmente cedidas por Ton van Haaren.


 

Morfologia

 

Tanaidáceos da família Tanaididae possuem o corpo alongado e cilíndrico, que é dividido em três seções: um pequeno cefalotórax com uma carapaça formada pela fusão dos dois primeiros segmentos torácicos, um pereaon com os demais seis segmentos torácicos, e um abdômen (pleon) consistindo de 5 segmentos, e um pequeno pleotelson. Ambas antenas são uniramos, mas a primeira é bem mais longa e grossa. Olhos conspícuos e escuros.

Um par de grandes quelípedos em forma de robustas garras, maiores nos machos. Cada segmento de pereaonite possui um par de pernas ambulatórias (pereiópodes). Os três primeiros pleonites mostram pares de pleópodes, e dois primeiros têm tufos de setas plumosas látero-dorsais. Um par de urópodes se projetam do pleotelson.

Há dimorfismo sexual na carapaça, estreitada anteriormente nos machos, além do tamanho das quelas. A fêmea desenvolve uma câmara de incubação que se protrui posteriormente da coxa do 5º pereiópode.

As dimensões dos espécimes brasileiros são de até 5,2 mm, tanto para machos quanto fêmeas. Possui coloração branca a acinzentada, com manchas de cor marrom escura.  

 

 

 


Sinelobus cf. stanfordi, exemplar de Cuba fotografado em uma carcaça de Manati. Trata-se de uma fêmea, a imagem mostra a cápsula com embriões. Foto gentilmente cedida por Manuel Ortiz.


Sinelobus cf. stanfordi, também exemplares cubanos fotografados ainda nas tuas tocas tubulares, em uma carcaça de Manati. A primeira foto mostra um macho adulto e uma pequena Manca. A segunda mostra um macho em visão ventral. Fotos gentilmente cedidas por Manuel Ortiz.



Habitat e distribuição

 

No Brasil, os Sinelobus são encontrados em água doce e salobra de baixa salinidade, mais comuns em lagoas costais de águas rasas, frequentemente associadas a vegetação, registros de ocorrência nos estados do RJ, SP, PR e RS. Na América do Sul são mais numerosos ao Sul, sugerindo uma preferência por temperaturas mais baixas. Suportam grandes variações de salinidade, no Brasil, sendo encontrados desde água doce até ambientes marinhos. O limite inferior de pH registrado é 5,0, e a faixa superior de temperatura de 30ºC.

É uma espécie bentônica, encontrado em meio a detritos em manguezais, e fazendo parte da epifauna de corais e algas. Constrói tocas tubulares de areia ou lodo sobre substratos sólidos e não consolidados, e sobre plantas aquáticas como Chara, Baccopa, Websteria, raízes de Aguapé e Totora. O substrato é bastante versátil, desde troncos de mangue, conchas, substratos artificiais até pele de mamíferos aquáticos.

A espécie possui distribuição fortemente agregada, raramente deixa seus tubos, fazendo com que os jovens construam os seus próximos aos dos seus progenitores, ocasionando altas densidades em áreas restritas.

 

 

 


Casal de Sinelobus vanhaareni, exemplares dos Países Baixos. A fêmea mostra a grande cavidade marsupial com os filhotes em desenvolvimento. Fotos gentilmente cedidas por Ton van Haaren.



Ciclo de vida e reprodução

 

Machos visitam galerias de outros indivíduos à procura de fêmeas. A cópula sempre ocorre no tubo da fêmea, após uma breve corte nupcial com as antenas. A cópula é com o casal ventre-a-ventre, com fertilização interna. Os ovos (até 66) são incubados, nascendo em cerca de dez dias. Filhotes são incubados em grandes câmaras pareadas fixas às coxas do quinto pereiópode da mãe. Na fase pós-marsupial, machos passam por quatro estágios não-reprodutivos (três Manca e juvenil), e quatro estágios copulatórios. Fêmeas passam por cinco estágios não-reprodutivos (três Manca e dois juvenis), dois estágios preparatórios e dois estágios copulatórios. Antes da emergência da câmara materna, os filhotes se alimentam de um “vitelo” amarelado produzido pela mãe. Há cuidado maternal, os filhotes permanecem no tubo da mãe por um período variável. O tempo de desenvolvimento até as formas reprodutoras também varia, especialmente com a temperatura, duração de um a dois meses.

Alguns artigos antigos mencionam hermafroditismo e reversão sexual, que parece não se confirmar nos estudos mais recentes. Há um predomínio de fêmeas sobre machos, proporção de pelo menos 2:1 (pode chegar a 12:1). Reproduz-se continuamente ao longo do ano, com picos nos meses mais quentes.

Alimenta-se de detritos e microalgas. Há registros de espécies brasileiras alimentando-se de hidróides marinhos Eudendrium sp.

 

 

 

 

Bibliografia

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Agradecimentos aos zoólogos Dr. Ton van Haaren (Países Baixos) e Dr. Manuel Ortiz (Cuba) pela cessão do material fotográfico. Agradecimentos especiais ao zoólogo Andrea Desiderato pela foto do exemplar brasileiro, e por compartilhar suas informações sobre a espécie brasileira de Sinelobus.



A fotografia do Manaaki Whenua Landcare Research está licenciada sob uma  Licença Creative Commons . O arquivo original pode ser visto  aqui . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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