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Tylomelania  
Artigo publicado em 31/08/2014, última edição em 02/04/2022  


Artigo escrito por Tibério Graco, Aline B. Stefani e Walther Ishikawa


Tylomelania 

 

       Após uma parceria entre o governo indonésio e pesquisadores internacionais no início deste século, houve um extenso levantamento da fauna de invertebrados dos lagos ancestrais da ilha de Sulawesi (antiga Celebes). Zoólogos alemães (em especial, do Museum für Naturkunde Berlin) concentraram seus esforços nos lagos do complexo Malili, enquanto zoólogos australianos focaram no Lago Poso. Dezenas de novas espécies de camarões, caranguejos e caramujos foram descobertas, exclusivas da região, e devido à participação de aquaristas na equipe alemã, muitas destas espécies foram reproduzidas em cativeiro e subseqüentemente disponibilizadas no mercado de aquarismo europeu. Dentre os gastrópodes, tem destaque o gênero Tylomelania, que nos últimos anos tem sido importado também para lojas brasileiras.

       O gênero Tylomelania era até a pouco incluída na família de gastrópodes Tiarídeos (como o Melanoides), somente recentemente foram classificados na família Pachychilidae, um grande grupo de gastrópodes de distribuição do antigo supercontinente Gondwana, que inclui também os Doryssa e Pachychilus sulamericanos.

 

 

Características:

 

Nome: Tylomelania, “Tylo”

Nome em Inglês: Rabbit Snail, Elephant Snail

Nome Científico: Tylomelania spp. Sarasin & Sarasin, 1898

 

Tamanho: A maior espécie mede 12 cm

Tempo de vida: Longevos, mas expectativa exata desconhecida

Sexos: Separados

Dimorfismo: Fêmeas tendem a ser maiores que os machos

Cultivo: Fácil

Reprodução: Fácil, porém a fecundidade é baixa

Origem: Sulawesi, Indonésia.

 

pH: 7,5 a 8,5

Temperatura: 25 a 30 graus

GH: 5 a 7 (lacustres) e 12 a 15 (fluviais)


Tylomelania sp. "Orange Poso" e Tylomelania patriarchalis, foto de Chris Lukhaup. 


Conchas de diversas espécies de Tylomelania, fotos de Thomas von Rintelen (extraído da referência 8, Licença Creative Commons).


Morfologia:

 

       As espécies disponíveis para aquariofilia possuem conchas longas e cônicas, em forma de torre, lembrando grandes Melanoides, embora existam algumas espécies com conchas ovais (T. neritiformis, etc.). Na sua maioria possuem conchas rugosas e esculturadas, com elevações axiais e/ou espirais, de cor escura, marrom-amarelada a enegrecida. Abertura oval, opérculo oval ou arredondado de cor escura. Dimensões variam bastante de espécie para espécie, de 2 a 12 cm.

      Seu corpo também guarda bastante semelhança com o Melanoides, com uma “tromba” (probóscide) na cabeça, achatada e protrusa anteriormente, parecendo uma língua. Pé achatado e relativamente curto, oval. Tentáculos cefálicos de comprimento médio, localizados lateralmente junto à base do probóscide. Pequenos olhos escuros junto à base dos tentáculos. Geralmente caminham com seus tentáculos curvados para baixo, daí seu nome popular de “Rabbit Snail”.

     O corpo da maioria das espécies tem coloração escura, negra ou cinza escuro, porém, poucas espécies (como o T. towutensis e T. zeamais) têm um corpo de cor amarelo ou laranja vivo, e foram principalmente estas espécies que foram criadas para uso em aquários ornamentais. Podem ter uma cor homogênea, ou com finas listras ou rendilhados, ou escuro com pequenas manchas claras.

    Veja uma galeria de fotos com diversas espécies de Tylomelania  aqui .

 



Tylomelania fotografados no fundo do lago Matano, Sulawesi, Indonésia. Fotos de Chris Lukhaup.





Tylomelania fotografados em um riacho em Nord Konave, sudeste de Sulawesi, Indonésia. Fotos de Aurélien Bour.

 


Habitat

 

      Os Tylomelania são exclusivos da ilha indonésia de Sulawesi, encontrados nos seus grandes lagos ancestrais, Lago Poso e os lagos interconectados do complexo Malili (Matano, Mahalona, Towuti, Lontoa e Masapi), além de alguns riachos adjacentes. Já foram identificadas 76 espécies de Tylomelania, vivendo em ambientes lóticos (rios, 30% das espécies), ou lênticos (lagos, 70% das espécies, meio-a-meio em cada sistema de lagos). Nenhuma espécie lacustre é encontrada em rios, e vice-versa. Veja uma galeria de fotos dos habitats   aqui .

     As espécies fluviais geralmente ocorrem em grandes populações nas cascatas de sedimentos calcários, de águas límpidas, e dependem de folhas caídas na água em decomposição. São geralmente encontrados aderidos à face inferior destas folhas, alimentando-se de biofilme de algas.

      As diversas espécies lacustres são especializadas em substratos rochosos ou sedimentares (tanto arenosos quanto lamosos), ocorrem em uma profundidade de até 40 m, mas são mais numerosos em águas rasas de 1 a 2 m, especialmente em leitos rochosos. Especialistas em substratos rochosos se alimentam de algas aderidas a estas superfícies, presumivelmente diátomaceas, enquanto especialistas em substratos não-consolidados alimentam-se de detritos, com padrões bem distintos de dentição nas rádulas.

     Estes lagos têm características únicas, bastante diferentes de outros grandes lagos continentais. São ultra-oligotróficos, com águas límpidas de alta transparência e baixíssimo conteúdo orgânico. Sua bacia ferruginosa determina a mais alta concentração de ferro dentre os lagos do planeta, o que também contribui para menor disponibilidade de fósforo. Estas características determinam a mais baixa concentração de fitoplâncton entre os grandes lagos continentais. A temperatura da água varia entre 27 e 31ºC, e o pH é de 7.5 (alguns locais de Poso) a 8.5 (Matano). A dureza é baixa. Parecem ser caramujos com alguma flexibilidade em relação aos parâmetros. Segue os valores de referência dos habitats, fornecidos por Chris Lukhaup:

  • Lago Poso: Temperatura 27.7°C; pH 8.1; GH 5; KH 4; condutividade 109 µS/m; oxigênio 7.05 mg/l.
  • Lago Matano: Temperatura 28.7°C; pH 8.5; GH 7; KH 5; condutividade 175 µS/m; oxigênio 6.93 mg/l.
  • Lago Towuti: Temperatura 29.2°C; pH 8.4; GH 6; KH 4; condutividade 146 µS/m; oxigênio 7.15 mg/l.
  • Rios onde foram encontrados os "Sulawesi Bee shrimp" ("Mambo bee"): Temperatura 23.2°C; pH of 8.3; GH 12; KH 6; condutividade 289 µS/m oxigênio 7.42 mg/l.

     Os Tylomelania possuem alto grau de endemismo, com muitas espécies encontradas em áreas geográficas bastante restritas, como em somente um cabo ou uma ilha de um lago específico. Também têm alto grau de sintopia, com até sete espécies co-habitando um mesmo nicho ecológico. Alguns pesquisadores os chamam de “Caramujos Darwinianos”, por representarem um modelo bastante útil para se estudar processos de evolução, especiação e radiação adaptativa.




Uma espécie riverina de Tylomelania, talvez T. scalariopsis, fotografada no extremo norte de Sulawesi. Fotos de Ariyo Prasetyo.



Reprodução:

 

     A característica mais marcante dos Tylomelania é sua estratégia reprodutiva, baseada em uma gestação uterina, com alta taxa de investimento maternal (“estratégia-k”). São animais ovovivíparos, com o próprio gonoduto (oviduto palial) modificado na forma de uma bolsa uterina, onde os ovos e embriões são retidos, e se desenvolvem. Ou seja, em um compartimento anatômico distinto de tiarídeos (como o Melanoides), onde os embriões se desenvolvem em um saco subhemocélico. A fecundação é interna, através de um espermatóforo.

   A reprodução é contínua, sem evidência de sazonalidade. Embriões são produzidos continuamente, e se desenvolvem nestes compartimentos, os filhotes maiores e mais desenvolvidos se localizando anteriormente. São envoltos em um volume grande de material nutritivo produzido por uma grande glândula de albumina. Porém, não há transferência direta de nutrientes da mãe para o embrião, via histotrofo (correspondente a um cordão umbilical), desta forma caracterizando estes gastrópodes como ovovivíparos, ao invés de vivíparos.

   A gestação é bastante longa, cada fêmea grávida contém um número relativamente pequeno de juvenis, que se desenvolvem nestes compartimentos até atingir grandes dimensões. Os juvenis de algumas espécies são as maiores conhecidas entre os gastrópodes vivíparos, podendo atingir quase 2 cm no momento do nascimento. Nascem com conchas bem formadas, com múltiplas voltas. A cápsula do ovo é esférica, feita de uma fina membrana branca translúcida, que se dissolve e rompe rapidamente.

     Em coletas na natureza, cerca de 80% das fêmeas possuíam embriões em desenvolvimento. Em geral, espécies maiores têm embriões maiores e mais numerosos na sua bolsa uterina. Consequentemente, os maiores embriões foram encontrados na maior espécie, T. patriarchalis, com uma concha embrionária medindo 17,5 mm, em uma fêmea com 90 mm de concha. Em contraste, o maior número de juvenis foi encontrado numa espécie fluvial de tamanho médio, T. robusta, onde uma fêmea de 40 mm continha 39 juvenis com um comprimento máximo de 4,8 mm.

     Parece ser um gênero que se hibridiza facilmente, com diversos relatos de cruzamentos entre espécies diferentes, tanto na natureza quanto em aquários. Ainda não se sabe se estes descendentes são férteis ou não.




Grande saco de ovo de Tylomelania, foto cortesia de Sarah Elmassian / Boxed Fish.




Filhotes de Tylomelania no aquário, fotos de Sarah Elmassian.

 

 

Hábitos, Alimentação e manutenção em Aquários:

 

     São ativos dia e noite, embora sejam animais de movimentos lentos, passando horas se alimentando no mesmo lugar. Os filhotes são mais ativos, enquanto os adultos maiores podem passar dias imóveis em um mesmo lugar. Não gostam de iluminação excessiva, escondendo-se em locais mais sombreados. Como mencionado, cada espécie é bastante especializada em um tipo de substrato, algumas passarão boa parte do tempo caminhando nos vidros (espécies de substratos rochosos), enquanto outros permanecerão no fundo, podendo se enterrar parcialmente.

     São animais longevos, baseado nas grandes conchas de algumas espécies, porém não há informações objetivas sobre idade da maturidade sexual ou expectativa de vida.

       Deve-se ter em mente os parâmetros químicos da água destes animais, diferente de outros caramujos mais comuns em aquários, demandando um pH elevado e baixa dureza, e a sua maior sensibilidade a compostos nitrogenados. Em condições adequadas, são animais resistentes, e mostram um crescimento rápido, perceptível na coloração distinta que a concha recentemente formada tem, especialmente se as condições do novo aquário forem diferentes do anterior. A reprodução em aquários também é fácil, mas a fecundidade é bastante baixa, o que pode ser vantajoso, dado que não há reprodução excessiva, com o risco de virarem “pragas”. Também é baixo o risco de se tornarem espécies invasoras, se houver liberação acidental na natureza.

      Sua alimentação é composta de algas, folhas mortas e detritos em geral. Podem receber ração de fundo, ração geral de peixes, spirulina, legumes (cenoura, tomate, abobrinha) e verduras. Se o aquário tiver bastante vegetação e algas, não há necessidade de alimentá-las em grande quantidade, mas sempre é recomendável que se atente a fornecer alimentação suficiente e variada. Pedacinhos de verduras e legumes (como cenoura cozida) oferecidos duas vezes por semana costuma ser suficiente. Suplementos de cálcio podem ser interessantes também, sendo espécies de conchas grandes e espessas, com rápido crescimento. Uma opção para suprir a necessidades de cálcio e outros nutrientes de origem animal é fornecer crustáceos Gammarus, que são encontrados facilmente em lojas de aquarismo, na forma desidratada, vendidos como ração para tartarugas.

Se seu objetivo é "limpar" o aquário das algas, não é a melhor opção enquanto estejam pequenos, pois não se alimentam em grande quantidade. Embora prefiram folhas em decomposição, podem se alimentar de folhas de plantas ornamentais mais macias. Se bem alimentados, aparentemente não atacam Microsorum pteropus, Valisneria, Hydrocotile, Rabo de Raposa, Mayaca, Salvinia auriculata e Anubia lanceolata. Outras plantas, mesmo com alimento abundante disponível, podem ocasionalmente ser atacadas, mas em quantidade e freqüência baixíssimas, não chegando a trazer danos significativos ao visual do aquário. São elas Utricularia gibba, Lemna, Spirodela e Nitella.

Sendo animais pesados e de movimentos lentos, deve-se atentar também à escolha correta do restante da fauna, evitando animais rápidos e vorazes, que possam competir na busca por alimentos. Obviamente devem ser evitados também carnívoros grandes e predadores de caramujos.

            Ainda é uma espécie rara nas lojas, e cara, devido à baixa taxa de reprodução. Porém, certamente é um animal de bastante destaque em qualquer aquário de invertebrados de água doce.


 



Tylomelania no aquário, exemplares brasileiros.

 



Veja a segunda parte do artigo, com Bibliografia, créditos fotográficos e agradecimentos aos colaboradores clicando  aqui .

 
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